CD / Digital

Swan Palace

No Miracles

Rotten \ Fresh / 2020

Texto de Francisco Couto

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Os seguidores mais atentos da música electrónica em Portugal já se devem ter cruzado com o nome Swan Palace há algum tempo. Para além das duas músicas soltas que tem no seu Bandcamp, “As I Smear Your Crystal Tear Eye Liner” e “Ascending Through The Water Drops On Your Skin”, lançadas em 2019 e 2018, respectivamente, Pedro Menezes tem aparecido em várias compilações e álbuns, pertencendo ao colectivo 00:NEKYIA, que gere com FARWARMTH, longo companheiro de exploração electrónica. No meio de tudo isto, sobra ainda espaço para o projecto de gabber-witch house-renascentista que tem com DRVGジラ, 7777 の天使, que lançaram ainda este ano o seu segundo trabalho, Bruised Grills Eternal Tears, pela editora Soul Feeder. Agora, o artista bracarense sediado em Lisboa abre finalmente as portas do seu complexo universo sónico ao mundo com No Miracles, disco composto por seis músicas originais e três remisturas através da Rotten \ Fresh.

Os coros celestiais acompanhados de pesados 808s e sons metálicos são os primeiros elementos que ouvimos em “100 Silver Feathers”, a faixa inaugural, e está aí marcado o mood para o resto do alinhamento, que flutua entre vários géneros mas sem nunca fugir ao mesmo ambiente textural. A intensidade de cada um destes sons une-se para criar uma música que desde o início nos drena emocionalmente e nos mete uma pressão forte em cima — e essa pressão só pausa para respirar no minuto que dura a quinta faixa do disco, “Oasis Ski Resort”. Até lá, somos empurrados para baixo pelos graves enquanto as texturas nos puxam para o céu de forma abrupta, sentindo que estamos a ser rasgados pelas duas forças que lutam de forma equilibrada.

Os gritos desenfreados de “Rose Gold Skin”, tema feito em colaboração com FARWARMTH, fazem-nos contorcer nas nossas cadeiras e sentimos o nosso cérebro a comprimir-se, enquanto “Vanta-Orange Iris” dá, mais uma vez, um curto espaço para respirarmos, espaço esse cortado imediatamente pelo bass que nos volta a deixar encolhidos até aparecerem finalmente os primeiros ritmos mais dançáveis — liberta-se toda a energia presa no nosso corpo, sem que nunca saia a aura negra imposta pelos sintetizadores dramáticos que criam a imagem trágica da música. “7777 Angels”, com DRVGジラ, mostra-nos um cenário apocalíptico em que o tarraxo é protagonista, soando a algo que ouviríamos num baile funk no segundo andar do Inferno de Dante, com strobes e lava a iluminarem a sala coberta de almas perdidas nos excessos de Baco.

“Oasis Ski Report” reabastece-nos alguma paz e tranquilidade com texturas etéreas e menos caóticas antes de cairmos na segunda metade do álbum, que começa com “Stare Into Me Like The Sun” e é seguida por remisturas de Odete (para “100 Silver Feathers”), que transforma a faixa original numa única camada em que explora a sua flauta de forma livre, UNITEDSTATESOF, que quebra “Oasis Ski Report” em pedaços rítmicos desapegados, e Concrete Fantasies, que nos arrepia com o misticismo que acrescenta à sua versão ainda mais ruidosa de “Rose Gold Skin”.

Em No Miracles, a viagem é violenta, intensa e obscura do início ao fim e coloca-nos no centro de uma espécie de dramática guerra celestial decisiva para o destino do universo, no qual o lado das trevas está claramente a vencer. Sentimos ouvir súplicas (e uma total falta de misericórdia para essas preces), tudo através das devastadoras pinturas meio abstractas que Swan Palace constrói nas suas composições. Mas é exactamente isso que a música do produtor trata: somos transportados para o lado mais aterrorizante do som, obrigando-nos a encarar paredes sonoras nefastas que nos devoram as braincells mas que ao mesmo tempo apresentam uma carga emocional elevadíssima que nos permite entrar em contacto com um lado mais pesado (e menos bonito) da nossa existência. Não é fácil encontrar uma disposição ao longo do dia para encararmos essa dimensão, ainda para mais quando o propósito de No Miracles é atropelar-nos sem escrúpulos, mas isso só demonstra o quão bem concretizada é a premissa. Nem tudo são rosas e Swan Palace trata de nos relembrar disso em alto e bom som.


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