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Fotografia: Fundação Calouste Gulbenkian – Vera Marmelo

Jazz em Agosto.

Susana Santos Silva Impermanence no Jazz 2020: nos labirintos da impermanência

Fotografia: Fundação Calouste Gulbenkian – Vera Marmelo

A impermanência que inspira a música de Susana Santos Silva pode encontrar-se, como ela mesmo nos explicava, na “micro improvisação”, no inesperado que cada momento pode revelar, nas dobras do tempo e nas ideias que flutuam livremente acima de cada cabeça. No passado sábado, o colectivo Impermanence – além de Susana Santos Silva em trompete (sobretudo) e tin whistle, há ainda João Pedro Brandão em saxofone alto e flauta, Hugo Raro no piano e sintetizador, Torbjorn Zetterberg no baixo eléctrico e Marcos Cavaleiro na bateria – procurou traduzir essas ideias numa belíssima apresentação no Anfiteatro ao Ar Livre da Gulbenkian, na segunda noite da programação Jazz 2020.

Perante uma plateia atenta com a lotação possível praticamente esgotada, Susana conduziu os seus Impermanence pela música de The Ocean Inside a Stone, álbum lançado no início deste ano na Carimbo Porta-Jazz. O espírito de genuína entrega à aventura que o álbum contém, com cada um dos músicos a revelar funda imaginação aliada a solidez técnica, voltou a confirmar-se no concerto.

Susana Santos Silva é uma líder generosa, que procura oferecer a cada um dos seus parceiros os espaços para se espraiarem e exporem, mas sempre com um sentido colectivo muito presente. Na entrevista com que antecipou este concerto, a trompetista explicava que cada um dos músicos já faz parte da sua ideia de composição. O que se pode entender de tal afirmação é que ao escolher trabalhar com aqueles músicos específicos, Susana já espera que cada um “leia” e “sinta” a sua música de uma forma muito particular, impossível de replicar da mesma maneira caso se alterasse algum dos elementos desta equação chamada Impermanence, ainda que haja, como aliás a presença de pautas confirmou, partes escritas que certamente qualquer outro músico desta classe poderia executar. Não seria a mesma “impermanência”, certamente…

Marcos Cavaleiro, por exemplo, revelou no seu solo quase no final do concerto um swing que parecia alinhado com a própria natureza, nada matemático, antes poético ou metafísico, capaz de abraçar o caos e dele retirar matéria relevante para o colectivo. A dada altura, num tema de contornos difusos e muito livres, sentiu-se até um groove a emergir, estranho e lento, quase como uma espécie de música fúnebre: uma fanfarra para o fim dos tempos? O piano de Raro, por outro lado, foi capaz de mostrar rendilhados dissonantes que depois se dissolviam num lago de silêncio. Em certos momentos, como quando Susana trocou o trompete pelo tin whistle, a música assumia uma dimensão mais, digamos, exótica, quase se sentindo despontar por ali o espírito celebratório que também animou tantas viagens clássicas dos Art Ensemble of Chicago. Zetterberg pode ser granítico no seu som, percorrendo, por vezes até no mesmo tema, a distância que separa os abismos do noise dos mais familiares planaltos de um groove mais estruturado. E João Pedro Brandão é um portento, rodeando subtilmente os solos de Susana, complementando-a, oferecendo-lhe outro tipo de luz ou então, quando se posicionava ele mesmo na dianteira, capaz de extrair beleza ou assombro em estado puro dos seus instrumentos.

Juntos, estes Impermanence são uma aventura plena que recompensa quem a ela se entregue com a abertura para encaixar o inesperado, a surpresa e o desconhecido. Foi o que aconteceu no sábado, na mais bela “sala” desta cidade de Lisboa.

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