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Fotografia: Vera Marmelo

O disco Safe In The Hands of Love foi a base da intensa actuação do americano em Lisboa.

Superballet com Yves Tumor na ZDB: descobrir a verdadeira pele em palco

Fotografia: Vera Marmelo
Tal como fora anunciado, a Galeria Zé dos Bois estava esgotada para o concerto de Yves Tumor no passado sábado, numa noite que não se entregou a categorizações simples. A primeira parte ficou a cargo de Império Pacífico. O duo, constituído por funcionário e trash CAN, trouxe uma introdução dançável, tentando definir o que pode ser uma pista de dança e um concerto no Bairro Alto: os pads dreamy e as percussões reverberadas culminavam nos sub-graves que ditavam o groove, e, entre IDM ambiente e house do quarto mundo, a dupla procurava várias soluções dinâmicas e rítmicas para samples em loop. Uma sonoridade cativante mesmo para quem fosse leigo nestes recantos da música electrónica. A música parou pela primeira vez para a entrada de Maria Reis, colaboradora no próximo lançamento da banda, Exílio, previsto para sair a 22 de Fevereiro. Pedro Tavares e Luan Bellussi apresentaram duas faixas com a artista e o que se ouviu foi uma voz muito reverberada, como num qualquer registo mais shoegaze, desviando a direcção estética de Império Pacífico para outros campos mais dream pop, apesar do estilo ao nível das batidas manter-se fundamentalmente o mesmo. A espera pelo acontecimento da noite adensou-se com muito fumo na sala, uma forma de criar suspense para a celebrada chegada de Sean Bowie, ouvindo-se “Faith In Nothing Except In Salvation” na introdução do concerto, tal como acontece no seu último álbum, Safe In The Hands Of Love — e este seria o registo no qual se centraria nesta noite na Galeria Zé dos Bois. Orbitando sempre à volta do disco lançado pela Warp – com músicas como “Honesty”, “Recognizing The Enemy” ou as mais cantadas “Lifetime” e “Licking An Orchid” –, o próprio músico balbuciou algo como: “vou tocar as coisas mais recentes, vocês não querem saber das antigas”. Mensagem recebida e compreendida. Inicialmente apenas um vulto, gradualmente conseguimos vislumbrar o cantor em toda a sua elegância – com botas de salto alto, lenço ao pescoço, casaco e uns óculos. Sozinho em palco, Yves trabalhou numa mesa os instrumentais que ia disparando e controlando, chegando-se também à linha da frente para interagir com o público de uma forma sempre visceral e intensa — rastejou no chão, correu, saltou, “cuspiu” as letras para a primeira fila. Sem pausas na sua entrega tão expressiva, o músico americano é aquilo a que comummente se chama monstro de palco. Mesmo que um palco maior se parecesse mais adequado depois daquilo a que assistimos, a dimensão da sala lisboeta era perfeita para aquilo a que se propõe: criar uma proximidade e intimidade que não se pode fingir. A centralidade de “Noid” na definição da seriedade e intensidade das suas letras e, em particular, desta actuação ficou expressa no refrão que se cantou em uníssono. No final deste single, Sean gritou “fuck the police”, uma frase que foi recebida com entusiasmo pelos presentes – o apelo foi sentido e a reacção demonstrou isso mesmo. Poderia ser condenável, até certo ponto, que Yves Tumor não tenha aproveitado o facto de estar numa sala mais pequena, onde tinha liberdade para tocar temas mais antigos, da sua fase mais experimental ou ambient — o alinhamento mais festivo beneficiaria da profundidade de “Limerence” ou “The Feeling When You Walk Away”, por exemplo. No entanto, e ao mesmo tempo, esta selecção aponta, muito possivelmente, para uma definição musical mais clara do pseudónimo de Sean, com uma maior proximidade ao indie, a esta música mais cantada, e o gradual afastamento ao seu lado mais experimental, num afunilar dos seus interesses sónicos. Tumor pode muito bem ter descoberto a pele em que se sente mais confortável no palco da ZDB. Para descortinar nos próximos episódios…

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