Super Bock em Stock’19 – Dia 1: inspirar com Kiwanuka e expirar com Nilüfer Yanya

[TEXTO] Pedro João Santos [FOTO] Direitos Reservados

Descer às Portas de Santo Antão é perceber dois movimentos em sentido contrário. Fatos e gravatas, seda e prata aguardam a Severa no Politeama; prevê-se uma noite sentada no veludo das cadeiras, aquecida pelo dourado das frisas. Para a outro, uma corrente humana que se estende para lá do Coliseu dos Recreios, adivinha-se um serão mais suado — em salas igualmente nobres — a incitar ao passo leve e rápido:‌ são os tardios que vêm levantar bilhete para o Super Bock em Stock.

Para quem desde o Vodafone Mexefest se coíbe de vir ao festival da Avenida da Liberdade, não temam mudanças radicais. Depois da primeira vida de 2008 a 2010, o revivalismo Super Bock preserva as fórmulas: cantautores e bandas capazes de segurar uma nota, distribuídos por salas separadas pelo bom ritmo e a agitação portátil (extensível ao autocarro com o palco ambulante). Mas se 2018 pareceu saldar-se por uma volúpia cinzenta de rock masculino e autoral, 2019 sugere um regresso à vontade de beber de todas as fontes, apesar do marketing anunciar o advento da “música autêntica” — a urticária em duas palavras. 

O foco, convenhamos, continua a ser esse manancial “autêntico”‌‌, donde fluem os cabeças-de-cartaz para o Coliseu. E, como o roto fala ao nu, chegamos apenas a tempo do desfecho de Sinkane, cujo concerto caiu nas semi-graças da plateia. Dos aplausos afere-se o êxtase, mas é mais transparente a sua reacção durante os cinco minutos de “Favorite Song”: a sala alegre, numa ginga mole, sorriso esboçado sem dentes — no dicionário da linguagem corporal, um equivalente à música do sudanês-americano.

Decerto que “Ya Sudan”, com o travo da união e a dissensão política, terá sido um bom momento. Se a grande despedida é entregue a este agradável encolher de ombros em forma musical, contudo, há que reestruturar. Não é que Sinkane escasseie em boa vontade e musicalidade — os dois álbuns mais recentes, Life & Livin’ It e o mais aguerrido Dépaysé, são prova bastante — mas faz uma despesa frugal no que toca à energia. É um músico sólido que não consegue ser vocalista memorável; a voz anódina, sem tempero, joga com a pouca resistência que oferece ao tecto da sua pop rock sudanesa. Até a banda, abençoada seja, parece fleumática nas suas lides. O seu último vestígio no palco é uma santidade negra, de manto branco e cruz ao peito — já deixa a benção para a estrela maior da noite.

Michael Kiwanuka, que chega flanqueado pela banda, não está para brincadeiras. A sua entrada em cena, com “One More Night”, é um pouco como inserir um CD na aparelhagem e saltar para a faixa seis; mas sem queixas. O expansivo, embora não vulcânico, disco KIWANUKA deixa à imaginação um comandante nato, senhor da bravata: o encarte do álbum mostra-o em veste imperial, à frente do céu com patina d’ouro. Mas, tal como a verdadeira natureza do trabalho, Kiwanuka é um veículo para o novo retro da soul: um portento de mãos e laringe que trazem a luz, não o fogo.

O arranque oficial é com “You Ain’t the Problem”, que contém o ânimo mais nervoso e pulsátil que Kiwanuka já ousou extravasar. É soul de tábua dura a piscar o olho ao funk, com as coristas de pandeireta em riste. Só se repete em “Black Man in a White World”, cuja força-motriz está no bamboleio e nas palmas, que a banda coreografa com a audiência, que lhes devolve um rugir de aplausos. De resto, o concerto obedece ao álbum actual — e KIWANUKA tenta ser o disco da ilha deserta, aquele da capa desbotada de tanto uso, o da lareira e garrafa de vinho. Mas é Love‌‌ & Hate, de 2016, que serve de prato forte: sete das suas dez faixas, que contam do amor áspero e aveludado, merecem interpretação. Indaga: “preparados para ouvir música soul?”

O groove é intransponível, as coristas são brilhantes — uma em particular chega à potência máxima em “Rule the World” e recebe uma das maiores ovações da noite —, Kiwanuka é o centro do campo magnético. Como homem da soul que é, tem no seu coração um metrónomo imperturbável: quando se dá a irrupção no público, no suposto final da majestosa “The Final Frame”, o londrino exige prolongamento, numa inspiração sem freio, sem tempo (por sua vez, os membros da plateia silenciam-se agressivamente, até que se possa ouvir uma agulha a cair).

Tanto em vinil como em palco, fica a sugestão de que Kiwanuka tem em si uma catarse anunciada, uma epifania palpável. O mais próximo disso, depois do canto a uma só voz de “Home Again” e “Cold Little Heart”, é a arrepiante epopeia de “Love &‌ Hate” — boa sorte a todos os seus rivais neste fim-de-semana para encontrarem um momento tão especial. No final, percebemos ter estado ao lado dum certo senhor da Nova Lisboa — de facto, alguém estava a cantar demasiado bem… —, que nos diz de sua justiça:‌ “Nota-se que ele se deixou levar pelo flow. Estou arrepiado ainda.”



Os calafrios e o silêncio total são transportados para o Teatro Tivoli BBVA, palco para a estreia portuguesa de Jordan Mackampa. O sucesso do one man show recai no poder da voz assombrosa e terrena, que sem ser suficiente para apurar a força das canções, é pura emoção. Conta-nos a história de “Yours to Keep”, um número de pathos ao rubro: “Uma coisa qualquer de pop romântico, baseada num filme que ninguém conhece: Toy Story”, brinca. “Aprendi que existe alguém, algures no mundo, que te ama tanto que faria milhares de quilómetros por ti.”



Desta vez, já não há que andar muito para chegar à última paragem: depois do NOS Primavera Sound, a segunda vinda de Nilüfer Yanya a Portugal escolhe a sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge. Felizmente, sem grandes diferenças: o set que apresentou numa tarde manchada de sol, ao largo do Parque da Cidade do Porto, empresta-se com igual engenho à penumbra de um teatro, protegido pela noite lá fora. Formação de banda simples, com o protagonismo dividido pela saxofonista Jazzi Bobbi, para despertar o exímio álbum de estreia Miss Universe.

“Desculpem não estar muito faladora hoje, acordámos às quatro da manhã”, confessa.‌ “Esta guitarra não é minha — e este vestido também não é meu”. Há um quê de rock alternativo, mas compassado com pungência: cada acerto de bateria é um murro no coração. E dá-nos ares de soul, mas a inebriação é filtrada pela lama: cada sopro de saxofone é uma frente quente a avançar, cristalizada pelo caramelo vocal de Yanya. “Paradise” mostra a toada soluçante que serve de planta ao seu primeiro álbum, um estilo de composição que já é de assinatura, a dar o esqueleto às suas delícias de angústia e reflexão. Gravilha e mel numa inspiração que já é expiração, catarse em banho-maria que liberta todo o seu sabor na transcendente “Heavyweight Champion of the Year”.

Amanhã, aguardam-nos mais maratonas pela Avenida da Liberdade. Mas ficamos com o aviso de alguém que, a tentar orientar o seu grupo perto do Palácio da Independência (altura do soft rock lúcido dos Dream People, que tocam na modalidade “cantar com os olhos fechados”). “Queres ir onde?”, admoestava um amigo indeciso. “Não podes ter tudo!”


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