Super Bock em Stock’19 – Dia 1: em bom português

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Direitos Reservados

A época de caça de talentos na Avenida da Liberdade, em Lisboa, começou ontem. E se a ideia é ver alguns dos nomes que vão explodir nos próximos anos, o ideal é afastarmo-nos o mais possível do Coliseu dos Recreios, o espaço reservado para os que estão na fase final de maturação ou, em alguns casos, que já maturaram totalmente.

Nesse sentido, o Capitólio serve, em grande parte, o propósito de apresentar nomes desconhecidos para o grande público. João Tamura, que actuou nas traseiras do espaço e abriu a agenda do dia, encaixa nessa descrição. No entanto, e apesar do horário e da sala, o autor de Singapura conseguiu reunir um considerável número de pessoas para vê-lo na sua pose de diseur a procurar o espaço que existe entre o poeta e o rapper.

Miguel Ropio, Vasco Completo e L1NK, trio que se dividiu por baixo, guitarra, teclado MIDI, sintetizador e pratos, ficaram encarregues de criar o suporte sonoro que serviu as palavras de Tamura. Ainda faltam mais “quilómetros” ao vivo para esta banda ficar no ponto — e isso notou-se nas passagens entre músicas ou até mesmo na prestação vocal do frontman –, mas o valor de canções como “Os Pássaros”, “07/Março/93” e “Os Paraísos Segundo a Sara” não se perde mesmo assim.

Num universo hip hop em que a testosterona assume níveis, por vezes, incomportáveis, Tamura é um contraponto precioso e necessário, alguém que privilegia a escrita mais poética e se expõe emocionalmente como poucos o fazem neste momento em Portugal. “E não são canções de amor, mas sobre o amor”.

No mesmo local mas no interior da sala, AMAURA era o nome que se seguia no roteiro. EmContraste, a mixtape de estreia, ganha cada vez mais forma nos espectáculos e, desta vez, a banda teve dois elementos extra (bateria e baixo), um acrescento para dar músculo rítmico à máquina. Tendo em conta os artistas que actuavam à mesma hora, não deixa de ser surpreendente que uma cantora portuguesa em plena (mas discreta) ascensão tenha a capacidade de juntar tantas pessoas, que, se não a conheciam, provavelmente ficaram fãs — “T. P. M.”, “Marvel da Tuga” e “Blues do Tinto”, por exemplo, não enganam…

Uma hora depois de Maura Magarinhos, e numa sala compreensivelmente muito mais vazia — Michael Kinawuka actuava à mesma hora –, Bambino, membro dos clássicos Black Company, tentou gerir esforços entre o microfone e a MPC, mas devia-se ter ficado pela segunda, definitivamente. A total confusão na hora de rimar foi contraposta pela beleza clássica dos instrumentais, o que não foi suficiente para criar uma experiência digna de se guardar na memória. Apesar das “ajudas” de Camboja Selecta, o DJ de serviço, e Sanryse, o caos prevaleceu — e algo tão simples como acertar no nome da sala onde estava a actuar (disse Tivoli em vez de Capitólio umas 10 vezes, mesmo depois de vários avisos da sua própria comitiva) tornou-se elemento de desordem. A rever para os próximos espectáculos.

Responsável por encerrar a festa no Bloco Moche — e o único que não pertencia à curadoria Ciência Rítmica Avançada –, Cálculo (acompanhado por Mace, Bruno Pereira e Ariel) mostrou que é um dos mais competentes performers da praça, dispensando artifícios para rimar, cantar e até dançar (cuidado com a concorrência, X-Tense).

Enérgico e impetuoso a atacar o microfone, o barcelense foi às “Estrelas”, fez a sua quota-parte para melhorar a humanidade em “Salvar o Mundo” e ajudou-nos a aproximar (com a participação irrepreensível de Harold) uns dos outros em “Iguais”. Não há “Caixinha” que dê para prendê-lo e a plateia colaborou com o rapper e produtor para que saíssemos dali com a sensação de que tínhamos acabado de ver o melhor concerto da programação do Capitólio no primeiro dia.