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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 26/07/2021

Um passado que não podia continuar escondido.

Summer of Soul (ou a maneira certa de reescrever a história)

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 26/07/2021

“Até tentámos chamar-lhe Woodstock Negro”, confessa Hal Tuchin, admitindo que nenhuma manobra de marketing o fez conseguir vender as filmagens que registou do Harlem Cultural Festival de 1969, evento organizado pelo empreendedor e carismático Tony Lawrence, no qual se baseia a nova longa-metragem de Ahmir “Questlove” Thompson, Summer of Soul (…or, When the Revolution Could Not Be Televised), vencedora do prémio de Melhor Documentário na edição deste ano do Sundance Film Festival.

Mas a comparação entre o festival de verão que ocorreu no Harlem, em Julho e Agosto de 1969, e aquele que aconteceu a menos de 100 milhas, entre 15 e 18 de Agosto do mesmo ano, em Bethel, Nova Iorque, é na verdade apenas superficial, eventualmente mesmo forçada. Certo é que ambos os eventos foram um showcase de alguma da melhor música que, à época, era ouvida pelos respectivos públicos — brancos, no Woodstock; negros, no Harlem Cultural Festival –, exceptuando, claro está, o caso dos Sly & The Family Stone, que estiveram presentes em ambos, porventura graças ao seu vínculo com a Motown Records, editora discográfica que detinha um catálogo amplamente consumido pela classe média branca americana. 

Assim, apesar desta ocasional sobreposição, as diferenças entre os cartazes foram bastante pronunciadas. Para o comum afro-americano dos anos 60, o psicadelismo de Jimi Hendrix (tal como nos conta Juma Sultan, um dos seus percussionistas no Woodstock) ou Grateful Dead era um tanto ou quanto desconhecido; o blues de Canned Heat e Ten Years After era uma apropriação quando comparado à orgânica voz e eléctrica guitarra de B.B. King; a mensagem folk de Joan Baez ficava aquém do gospel de Mahalia Jackson; e a fusão de jazz-rock latino de Santana, retumbando a partir da costa oeste, tinha poucos ouvintes no bairro nova-iorquino de Manhattan, também formado por uma significativa comunidade latina, maioritariamente porto-riquenha, que preferia a música de Mongo Santamaría, Cal Tjader ou Ray Barretto.

Além disso, a somar às distintas opções musicais dos festivais, também o ponto de inflexão cultural que lhes estava associado foi sobejamente díspar. Possivelmente a única ponte de contacto evidente entre as preocupações que pairavam no ar em ambos os locais tenha sido a guerra do Vietname, problema que afectava transversalmente toda a sociedade norte-americana. À excepção deste elo de ligação, para os presentes no Woodstock este foi um grito de libertação sexual, experimentação química, liberdade individual e reaproximação à natureza — tudo misturado numa emulsão de estilo de vida nómada e cabelos compridos –, ao passo que as ânsias e reivindicações das comunidades presentes no Harlem Cultural Festival se prendiam, antes, a uma premente necessidade de afirmação identitária; luta activa pelos seus direitos civis; exigência de inserção nos vários sectores de actividade profissional (atestado pela inquietante experiência universitária da jornalista Charlayne Hunter-Gault); promoção do orgulho negro – black is beatiful!; e libertação espiritual – por vezes física – do jugo de uma sociedade que, num plano prático, ainda os detinha como cidadãos de segunda classe, oprimindo-os em várias frentes.

Afinal, em 1969 vivia-se o rescaldo do movimento dos direitos civis dos negros (Malcom X havia sido assassinado em 1965 e Martin Luther King em 1968); testemunhava-se o tempo em que estes exigiram passar a ser tratados por blacks ao invés de negros; e respirava-se mudança nas novas tendências de moda, as quais recuperavam a ancestralidade africana através do abundante uso de dashikis e penteados afro. Deste modo, apesar das várias demonstrações de violência da comunidade afro-americana, muitas vezes promovidas pelo Black Panther Party, o qual foi, em grande parte, também responsável pela segurança do festival, as transições na comunidade, essas, davam-se acima de tudo num plano transcendental, identitário e comportamental. 

Talvez por estas razões, o epíteto desta obra cinematográfica, “…or, When the Revolution Could Not Be Televised”, em nada se encontre desalinhado das intenções do autor que o inspirou. Gil Scott-Heron foi perentório ao esclarecer que o título da sua célebre música não se referia a uma revolução nas ruas, mas, sim, a uma revolução interior, pois “a primeira mudança que ocorre é na mente; tens de mudar a mente antes de mudares a forma como vives e a forma como te moves; […] e isso nunca será captado em filme”. Estava enganado o poeta e músico norte-americano, pois a forma como neste filme o líder dos The Roots e sua equipa captaram a esperança que ressumbrava dos cerca de 300 mil espectadores que passaram pelo Mount Morris Park é de uma genialidade fora-de-série. 

A fórmula utilizada é simples, contudo amiúde menosprezada. Ao invés de deambular especulativamente por explicações das causas subjacentes àquilo a que o próprio apelida de “revisionismo histórico”, Questlove permitiu que a música falasse por si, dando, assim, espaço maior aos grandes protagonistas e intervenientes do evento, aqueles que foram os portadores dos pendões das demandas das gentes do Harlem, um bairro assolado por pobreza e consumo de drogas, mas essencialmente habitado por gente honesta e produtiva, que lutava por uma vida digna e conscienciosa.

O retrato que é feito do Harlem Cultural Festival neste Summer of Soul é, portanto, essencialmente musical, intercalando filmagens de concertos (de surpreendente qualidade, diga-se, quer de imagem quer de som) com breves incursões por “folhetos” explicativos, os quais enquadram e guiam o desenvolvimento da narrativa, feitos ora por um narrador externo, ora pelos músicos e espectadores que no festival participaram. Nunca ficando os seus testemunhos aquém das expectativas, o apogeu do documentário acaba por ser as actuações ao vivo, das quais emana uma verdade histórica só atingível em momentos de prevalecente comunhão social: testemunhamos um jovem e talentoso Stevie Wonder a demonstrar toda a sua fluência e expressividade musicais quer na bateria quer nas teclas, levando o público a estados de pura catarse e libertação espiritual; vemos Max Roach a recuperar o seu It’s Time de 1962, porque aquela era a hora e aquele era o momento; ouvimos a reverberante voz de Abbey Lincoln numa versão de “Africa” de John Coltrane, assim como o africanismo trazido por Hugh Masekela, binóculos para uma longínqua África-mãe; emocionamo-nos com o épico e magnificente “Oh Happy Day” cantado pelas/os Edwin Hawkin Singers; sentimos os lancinantes apelos de Nina Simone ao orgulho negro em “To Be Young, Gifted and Black”; presenciamos o espontâneo dueto de Mahalia Jackson e Mavis Staples, em reverência a Martin Luther King; pasmamo-nos com a actual relevância das questões levantadas pela comunidade do Harlem depois do sucesso da missão Apollo 11: porquê ir à lua (ou espaço, numa adaptada referência a Bezos e Branson) quando ainda há pobreza na Terra?; entre tantos outros momentos singulares que se vêm agora recuperados no grande ecrã.

Tudo é brilhante neste documentário-concerto; seria difícil fazer melhor. Summer of Soul (…or, When the Revolution Could Not Be Televised) apenas estreará nos cinemas portugueses em Setembro — vimo-lo no Harbour Lights Picturehouse, em Southampton –, mas a recomendação, essa, fica já feita.


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