Sudan Archives: “Sinto que construo mundos através de sons”

[TEXTO] Pedro João Santos [ENTREVISTA] Rui Miguel Abreu [FOTO] Theo Jemison

Quem é Brittney Denise Parks? Que dá pelo nome de Sudan Archives já sabemos, mas como se define? “Quero dizer que me vejo, em primeiro lugar, como violinista”, confidencia em conversa telefónica com o Rimas e Batidas, nunca divorciada de um tom entusiástico e efervescente. De imediato, contrapõe: “Mas igualmente como desenhadora de paisagens sonoras.” 

Periclitante, vaga afirmação? Só para quem esteve alheado do seu EP homónimo e do sucessor Sink, assinados pela editora Stones Throw. O primeiro era um som imaculado e esboçado, tão límpido quanto estival, ancorado no violino como base de amor, companhia, paz e dor (“Come Meh Way”, “Oatmeal”). Mas Sink, mais do que uma proposta assinalável, imaginou Sudan Archives como unidade isolada e hidrofílica, destemidamente abstracta, pronta para o combate e para a abstracção via mergulho de cabeça.

Quase no final de 2019, o plano de Sudan Archives desloca-se para um ponto de rebuçado. Athena, o seu primeiro longa-duração, medeia entre a riqueza instrumental e a pop mais bizarra e directa. “Sinto que construo mundos através de sons” — e Athena é um telescópio para um sem-número deles. Na conversa, há Francis Bebey, cobras de estimação e estátuas surreais à mistura.



Penso que sabes que estou a telefonar de Portugal, não sei se já estiveste cá

Portugal, sim. Penso que já aí estive. Penso que já fiz um espetáculo aí.

Como é que perdi isso? [risos] Diz-se que não devemos julgar um livro pela capa, mas será difícil ignorar a capa do teu disco [Athena]: o corpo negro enquanto beleza clássica; é algo muito poderoso. Qual é a ideia subjacente?

É como dizes: o que é beleza clássica? No meu mundo, parece ser algo muito específico, está projectado para uma beleza branca, como o que surge em revistas e programas televisivos. A diversidade parece ser pobre em formas de beleza. Algo que abordo no Athena é o colorismo, ser uma mulher negra de pele escura, por experiência. Já me disseram coisas estranhíssimas: “Meu Deus, és tão bonita para uma mulher negra!” ou “és mesmo gira para uma rapariga de pele escura!” Isso é de doidos. É como a beleza é percepcionada e aquilo que se espera dela. O que é a beleza, hoje em dia? Aquilo que gosto de fazer é tropeçar sobre ela, encontrar a mais rara — penso que a raridade é a coisa mais bela. Talvez não só uma moda ou algo popular a dado momento. Daí que todas as minhas influências provenham de sítios díspares no mundo, onde não se iria para encontrar beleza. Também sinto que não deves julgar o livro pela capa — é outro dos temas do disco, e o porquê da minha cobra de estimação ser o logótipo do álbum. Muita gente vê as cobras como malévolas e, tendo crescido cristã, a cobra é vista como algo que faz tudo correr mal.

Exactamente.

Abordo muitas das coisas de que não falava por me deixar desconfortável, das quais fugia. Mas porque não ser uma deusa grega? Ela nem sequer é uma pessoa real, é apenas uma criatura mitológica. Sinto que o álbum é a banda sonora de uma biografia da minha vida. Porque não fazer esse contraste? É a primeira coisa que vês.

Uma pequena curiosidade: essa estátua existe mesmo ou é uma criação digital?

Existe mesmo! Tive de meter-me numa carrinha e fazer essa pose durante três segundos. Havia câmaras 360º à minha volta. Mas acho que parece maior do que realmente é.

Tenho a certeza de que é o maior item coleccionável da Sudan Archives.

Sim! Talvez devesse vendê-la, já que só há um exemplar. Mas deveria ser um coleccionável que se pode comprar ou ficar reservada para sempre?

Acho que deveria ir para um museu. [Archives ri-se] A tua editora descreve-te como uma violinista, uma cantora, compositora e produtora — o que quero saber é se divides esses papéis de acordo com uma hierarquia específica ou se, sendo tudo parte da mesma persona artística, não dás mais importância a um do que o outro.

Quero dizer que me vejo como violinista em primeiro lugar, mas também como desenhadora de paisagens sonoras. Ainda não sou mestre, mas aquilo em que sou é a saber exactamente o que quero. Antigamente, nunca sabia o que queria para a minha música. Agora, sei precisamente como quero a minha produção, que instrumentos desejo. Usei o violino como base desse mundo: sinto que construo mundos através de sons.

É uma boa imagem. O violino é um instrumento que está ligado à experiência negra na América, mas não necessariamente nos últimos tempos. O que te fez pegar nesse instrumento?

Foi quando eu era muito nova, a ver pessoas tocar fiddle music [música de violino]. A minha mãe disse-me que, com oito anos de idade, quando vi pessoas a tocar fiddle music e música irlandesa de jig [jig music], e quando vi isso, implorei-lhe por um violino. Foi assim que tudo começou. Tocava muito na igreja e isso deu-me confiança, porque aprendi a tocar só de ouvir. Isso fez-me criar as minhas próprias melodias e canções.

Citas Francis Bebey como uma das tuas primeiras inspirações. Estava a ler o livro dele, African Music: A People’s Art: ele escreve que a música africana é fundamentalmente colectiva. Mas pareces ter fugido dessa ideia: por exemplo, não quiseste seguir o projecto que o teu padrasto concebeu para ti e para a tua irmã gémea. Mesmo o teu disco parece o produto de uma desenhadora de paisagens sonoras solitária, como dizes. Inspiras-te em arte feita de forma colectiva, mas preferes criá-la sozinha? 

Exactamente. Eu reconstruí essas regras do meu padrasto, que achava que faria de mim uma artista muito forte. Saí e pesquisei outras maneiras de ser uma artista, de forma experimental e independente. Queria estar sozinha e pesquisar como alguém pode fazer uma one man band: normalmente, um artista tem um computador ou uma caixa de ritmos e o seu instrumento; só ele e a vibração. É isso que um etnomusicólogo faz: andam por aí a estudar e encontrar algo que é realmente raro ou que está a morrer lentamente, ou a perder a sua cultura devido a já ninguém tocar um certo instrumento. Dessa forma, procurei estudar algo que me é realmente único, e decidi especializar-me nisso. Ainda estava a dar passos de bebé como uma inovadora curiosa ou algo do género. O que é que eu estava a tentar dizer? Perdi a minha linha de raciocínio [risos]. 

O Bebey, obviamente, combina instrumentos tradicionais como o thumb piano com os electrónicos. Ele é um bom modelo, parece-me. Que outros artistas africanos te inspiraram a descobrir a música do Sudão e do Gana?

Asim Gorashi do Sudão, ele era um violinista, cantor e campeão do mundo em assobiar. mundial e um cantor. O que me chamou a atenção foi a capacidade de tocar violino e cantar em simultâneo. O meu primeiro CD de um violinista fora de um cenário orquestral foi a Miri Ben-Ari. Ela é israelita e teve um papel muito forte no hip hop que se estava a popularizar: Kanye West, rappers como o Twista — usam uma violinista sempre em todas as canções. O meu tio Ted deu-me esse CD e foi a primeira vez que vi um violinista a fazer algo tão autónomo, um projecto musical da sua autoria.                          

Conseguiste colaborar com a Wilma Archer e o Paul White. Já o entrevistei antes, adorei o trabalho dele com o Danny Brown. Como chegaste até estes dois produtores?

Tinha a mente muito aberta. Quando as pessoas chegavam de Londres, estava simplesmente aberta para as conhecer. O Archer e o White são multi-instrumentistas: tocam bateria, guitarra, tudo. Poder colaborar com pessoas assim é muito fixe, ambos têm uma musicalidade robusta e uma abordagem electrónica experimental. Fazer música não exige esforço, percebes?

A tua ligação à Stones Throw foi algo surpreendente para mim. Têm assinado vários artistas singulares, mas penso que te destacas mesmo. Como conheceste o Peanut Butter Wolf? Achas que te enquadras no plantel?

Conheci-o através do Matthewdavid, que é A&R. Tornou-se conhecido com um projecto de beatmaking. Estava um pouco nervosa para lhe mostrar a minha música. Quando finalmente o fiz, a ideia era lançá-la na Leaving Records, mas o Chris e o Matthew pensaram que a Stones Throw seria uma opção melhor para mim. Conheci-o no estúdio porque estava a mostrar música ao Chris: conheci-o no estúdio; ele entrou com cão, a não dizer muito e bazou. Lembrei-me posteriormente dele.

Já conhecias o catálogo deles?

Penso que sim, tinha muitos amigos que me falaram da Stones Throw. Lembro-me de me mudar para Los Angeles e as pessoas irem a uma festa da editora — não pensei muito nisso, era simplesmente outra festa de dança pela qual passava. Nunca pensei sobre o catálogo e a história até que vi o documentário. Muito menos pensei que fosse estar na Stones Throw há uns anos.

Imagino que também possamos ler a capa do álbum como metáfora para como expões as tuas emoções nas letras. Fala-me um pouco dos temas deste novo disco.

Estou a cantar temas como a dualidade: o que é certo e errado, bom e malévolo, lidar com esses lados. E talvez confrontação,  ter de lidar com eles e não fugir. Antigamente, eu falava de forma mais suave, mas para fazer uma deusa, tens de ser austera e agressiva, confrontar os teus problemas. Sinto que o colorismo é um problema mundial hoje; não há culturas que valorizem a pele escura, e parece que todas valorizam o quão menos escuro és. As pessoas advertem sobre poderes ficar demasiado bronzeado — coisas que te fazem crer que, para seres bonito, tens de ter uma pele mais clara: falo disto porque, apesar de não passar por essas coisas, senti que não tinha representação.

Apenas duas questões adicionais: quem é o rapper na faixa “Glorious”?

É o D-Eight… Queria fazer uma colaboração fixe. Sinto que estou fortemente associada àquilo em que destaco alguém ou algo. O logótipo Sudan Archives é uma cobra embrulhada à volta de um violino, mas é suposto ser a minha cobra de estimação que consegui recentemente — ela é realmente muito doce e generoso, mas os preconceitos sobre a espécie, aquilo que amedronta toda a gente… O D-Eight era alguém que toda a gente que fazia música em Cincinnati conhecia, porque iam a casa dele gravar beats, fazer um EP no estúdio caseiro dele. Vejo-o sempre no Instagram a pôr freestyles e ele está sempre na luta, a lançar o seu trabalho, pelo que queria que ele tivesse aqui uma plataforma que não lhe é habitual. Queria trabalhar com alguém da minha terra.

Uma última questão: suponho que andarás em digressão depois do lançamento do álbum. Como será o formato? Vais andar com músicos ou serás só tu em palco?

Queria dar um twist à estética de um recital de violino, que é basicamente um dueto entre um violinista e um pianista. Acho que era fixe trazer um pianista comigo, mas em piano eléctrico.

Alguém em mente? O Robert Glasper era excelente, não?

Ele seria fantástico [riso] mas conheço uma espécie de Robert Glasper de Cincinnati. Quero muito trazê-lo comigo. Ele foi uma das pessoas que sempre me inspirou a fazer música, e era do caraças se o pudesse levar em digressão. Ele acabou de se mudar para Los Angeles, ele vai tocar comigo no concerto de lançamento do álbum.


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