Sudan Archives // Athena

[TEXTO] Pedro João Santos 

A diferença entre os primeiros discos de Sudan Archives é como ir à piscina ou cair num glaciar. Com nuances, claro: o EP com que a cantora de Cincinnati se estreou, em 2017, não é exactamente balnear. É mais como uma tarde escaldada de Julho: vigiada pelo sol, vagarosa nas suas delícias, segura nos seus tremores. O glorioso som de Brittney Denise Parks, violinista desde a quarta classe, a deixar a rigidez formal voar pela janela. 

Quando a voltou a escancarar, em Sink, deixou entrar uma tempestade. Começa ainda num Verão exacerbado, a pedir clemência ao sol, antes de mergulhar até à gravidade zero. O coração de Sudan Archives, dos sabores e odores entre o Oeste de África e o Sudão, cedeu lugar ao arrojo do violino, agora omnipresente, depois de ter sido uma âncora errante. Pontuava, harmonizava, dava a melodia, a textura e o pano de fundo, estava à superfície e nos confins da produção. Não era difícil prever que a frase anterior permanecesse actual quando a compositora assinasse um longa-duração — mas as proporções mudaram.

No desembarque para Athena, a intensidade balística de “Did You Know” desvenda uma nova Sudan Archives. As secções são traçadas a regra e esquadro, ritmadas de forma mais mensurável, alheias ao abstracto, aversas aos barroquismos que povoam a sua discografia. Não é que Archives estivesse a léguas de escrever uma canção pop, só que quando concorria nesse contingente mergulhava em artefactos e repetições febris. Rendia-se ao despotismo do violino; fugia com elas para um horizonte gélido, distante do ouvinte (a excepção: o inegável “Nont for Sale”).



O jogo virou em Athena, um disco perigosamente imediato — o que não significa convidativo. A simplicidade catártica de “Confessions” chove nesse molhado, ao abrir um fosso entre o que era nesses discos embrionários — mas não rudimentares. Os arpejos são térmicos e o refrão derrete como uma miragem embevecida; foi o primeiro single, sem surpresas. Nos versos, descreve uma espécie de purgatório: um lar onde não é bem-vinda. O álbum de estreia de Archives é semelhante, populado por uma flora tão hostil (“Coming Up”) quanto macia (a belíssima “Iceland Moss”). 

A base é Sink, de tempo roubado e temperatura glaciar. Apenas a sublime “Black Vivaldi Sonata” se encosta a esse trabalho; “Down on Me” e a tentação subtil de “Green Eyes” são implacáveis, de mármore frio. Pouco que ver com a corpulenta “Glorious”, cujo ostinato, que fica a pingar bravata, é um dos hinos do ano. Contas feitas, o mel é doseado para balançar o fel, e Athena é um álbum no sentido clássico do termo. Foi pensado como itinerário, servido com excelentes interlúdios, e é uma declaração substantiva. 

E onde se situa Brittney Parks nisto tudo? Está preocupada com encarnar a deusa da guerra, arte e sabedoria que é Athena, se bem que rejeita um pedestal. Quer ser uma encantadora com o violino, embora o seu uso (extensivo e imaculado) por vezes pareça mais ornamental do que vital. Chegados ao fim, não se duvida de quem é Sudan Archives, do som que imaginou para si, mas há uma barreira. Eventualmente, como em “Pelicans in the Summer”, será altura de vir à superfície.


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