Studio Bros: “Lendário retrata a nossa história e dá a conhecer quem nós somos”

[TEXTO] Ricardo Farinha [FOTO] Direitos Reservados

A dupla de Nunex e Famifox tem um novo EP. Electrónica e ritmos africanos em mais uma fusão saída da periferia lisboeta.

Fábio Miguel e Miguel Batista são amigos de infância. Nasceram e foram criados na Quinta do Mocho, em Sacavém — um dos bairros que mais contribuíram para criar o movimento/género musical dos “sons do gueto” de Lisboa. Que é como quem fala da fusão entre a tradição da música africana — e de elementos mais contemporâneos como o kuduro — e da música electrónica.

Foi Miguel Batista, que assina como Nunex, que descobriu o programa FL Studio por volta do ano de 2007. Apresentou-o ao amigo Fábio, que mais tarde acabaria por adoptar o nome artístico de Famifox, e começaram a produzir música juntos. “A partir daí a X-Box deixou de ser prioritária nas tardes de sábado e domingo e os computadores tomaram conta do tempo e da curiosidade de ambos e tempo. O interesse mútuo em criar músicas colectivas foi crescendo diariamente”, conta o duo ao Rimas e Batidas.

“A dupla oficialmente surgiu em 2007 com a criação dos Alto Nível Produções, embora inconscientemente do que éramos e fazíamos”, explicam. “Foi no ano de 2007 que transformamos a nossa infância numa mistura de brincar no parque e jogar à bola com o produzir e fazer música.”

No bairro da Quinta do Mocho tinham influências óbvias, nomeadamente DJ Marfox e DJ Firmeza, dois dos principais nomes da Príncipe Discos, editora que acaba por aglomerar a grande maioria dos produtores e DJs que fazem este movimento. De uma forma natural, também Nunex e Famifox –que hoje assinam como Studio Bros — se associaram à Príncipe.



Produziram a música “Intro Ludhiana”, que abre a compilação Mambos Levi’s Doutro Mundo, editada em 2016. Um ano antes, enquanto Alto Nível Produções, estreavam outra compilação. São os responsáveis por “Directamente”, o tema que abre de rompante CARGAA 2, do prestigiado selo britânico Warp Records.

“De momento já não pertencemos à Príncipe. Tivemos um período com eles, que nos proporcionou bons e grandes trabalhos e nos deu uma grande bagagem musico-cultural, da qual estamos até hoje gratos. Mas de momento, por opção, estamos por conta própria”, revelam os Studio Bros.

Quem também têm como referência, além de Black Coffee e Djeff Afrozilla, é o produtor belga Boddhi Satva, que funde música étnica, sobretudo de África, com batidas electrónicas. Em 2018 os Studio Bros assinaram um remix oficial da canção “An Nou Le”

Foi também no ano passado que lançaram singles como “Kapiro”, “Turbante”, “Tavibem” e “Puntada”. Fecharam 2018 com o EP de três faixas Lendário, editado a 14 de Dezembro. O single homónimo foi apresentado com um vídeo criado por Lausiv com várias imagens gravadas na Quinta do Mocho. “Inspiration” e “Panama” são as outras duas faixas que compõem o trabalho. “Lendário visa retratar a nossa história e dar a conhecer às pessoas quem nós somos e um pouco do nosso background.”

E acrescentam: “No single em si, em que demos maior destaque, pretendíamos mostrar como fundimos os ritmos africanos com a electrónica sem nunca perder a nossa autenticidade. Associado ainda a isto, ao retratarmos a nossa história permitiu-nos não só afirmarmo-nos no mercado bem como dar oportunidade às pessoas de se relacionarem e identificarem connosco, não só pela história mas também pelos gostos e cultura, daí o investimento audiovisual”. A ideia, agora, passa por fazerem como tantos dos seus pares e referências e lançarem-se internacionalmente. O bairro mais prolífico da periferia de Lisboa continua a dar frutos — agora é apanhá-los.