Há um par de meses, Stereossauro e a fadista Ana Magalhães deram continuidade ao projecto Tristana, que une fado e electrónica, com um segundo volume. Desta vez, escuta-se um disco com um estado de espírito mais luminoso, ainda que seja nocturno e dançável.
Com edição em vinil, Tristana II foi produzido, composto, gravado e escrito em exclusivo por Stereossauro nas Caldas da Rainha. Desta vez, deixou de fora a guitarra portuguesa, essa musa que, provavelmente, tem sido a sua principal inspiração para se aventurar no mundo sonoro do fado. Há, portanto, uma ideia de renovação estética, abrindo espaço para novas texturas e ambiências.
Como forma de assinalar o lançamento, o Rimas e Batidas dirigiu algumas questões a Stereossauro sobre Tristana II.
O que te levou a querer fazer um segundo volume do Tristana? Já estava pensado desde o início?
Durante os concertos do primeiro disco, fomos vendo quais nos davam mais gozo tocar e fomos sempre falando da ideia de fazer outro disco. O primeiro disco foi uma boa experiência e ambos ficámos com vontade de dar seguimento ao projecto. Como somos os dois das Caldas [da Rainha], fica mais fácil, e não havia pressão ou deadline, havia a vontade e isso é o mais importante. Quando surgiu a oportunidade de me focar neste disco, foi só andar para a frente.
Havendo um segundo volume, o que te levou a explorar sonoridades mais dançáveis, uptempo e nocturnas para esta personagem?
Nos concertos do primeiro disco, nós acabávamos sempre a dizer que a música que gostamos mais de tocar é a “Sai de Mim”. E eu tinha vontade de mudar de direcção, tenho muita fome de música diferente, quero sempre fazer mais, até tenho intercalado discos de voz com discos instrumentais por isso mesmo, a única coisa que me interessa é fazer o que me apetece, e se isso às vezes rasga com o passado, olha, fixe. E foi mesmo o caso deste disco, falei com a Ana e disse: “‘Bora fazer um disco diferente do outro, e com mais contraste entre o fado e a electrónica”. Outro factor importante foi que a maior parte das minhas actuações são em formato DJ, a tarde e a más horas, em ambientes com pouca luz e muito decibel, e isso passou para este disco.
A evolução narrativa da personagem foi pensada desde o início, ou foi mais o resultado do processo criativo que aconteceu de forma espontânea?
Tudo espontâneo. Começámos a definir um caminho e fui escrevendo sem pensar muito, sempre naquela: se o primeiro disco era um grande lamento, este tem de ser diferente. Uma coisa que só reparei no final do disco é que a palavra que aparece mais vezes nas letras é “hoje” — hoje isto, hoje aquilo. A mensagem do disco é muito sobre viver o momento, o hoje e o agora, sem grande justificação ou causa, sem pensar muito. A pressão do mundo exterior faz-se sentir, e parece que quanto mais penso em tudo o que acontece mais negativo fico, porque, de facto, ligas o telejornal ou a Internet e é só merda, guerras, violência normalizada, extrema-direita a ganhar terreno, figuras tristes… Estamos a emburrecer e a embrutecer a passos largos como sociedade. Precisamos de lutar contra isso, mas também temos de desanuviar, libertar pressão, sair à noite e divertirmo-nos com amigos. Foi por aí.
Tendo em conta esta diferente abordagem estética, houve desafios específicos no que toca à escrita?
Sempre, a escrita continua a ser uma luta, mas é uma necessidade que tenho. Eu quero fazer e escrever canções, quero fazer música todos os dias, e preciso de letras e nem sempre tenho quem me as escreva, por isso vou treinando esse músculo. É algo que não me sai tão naturalmente como os instrumentais, por isso tens três anos entre discos, foi uma pausa necessária para ganhar coragem de agarrar na escrita outra vez, e prefiro sempre quando os cantores escrevem as suas próprias letras, é um peso que me tiram dos ombros.
A ausência da guitarra portuguesa, uma musa que tem sido fulcral na tua ligação ao fado, também é um detalhe importante. Porque é que desta vez deixaste de lado o instrumento?
Foi uma “pseudo regra” para me obrigar a ter mais contraste entre o fado e a electrónica, e eu sempre disse que a voz e a maneira de cantar da Ana é fado mais do que suficiente — a alma dela transborda fado. Se houvesse algum tema que pedisse guitarra portuguesa e fosse incontornável eu usava, mas evitei ao máximo. Não engavetei a guitarra de vez, tenho outros projectos onde continuo a usar a guitarra portuguesa. Da mesma maneira que o scratch é uma parte muito importante da minha música, e eu não faço scratch em todos os discos que edito… Ao vivo é outra conversa, se der para levar cortes vai levar, continua a ser das coisas que mais gosto de fazer, em disco faço o que me parece ser aquilo que a música pede, e este disco não pediu guitarra.
Planeias mais volumes neste projecto com a Ana Magalhães?
Ainda não sei. O nome Tristana quase que pede um “tri”, um tríptico, três. Mas não faço ideia, vou deixar a coisa rolar e ver para onde vai. Se me surgir uma ideia ou conceito para outro, faço, claro. Por agora quero é pôr este na estrada e tocar estas músicas, ainda é cedo para pensar no disco seguinte.