SP DEVILLE // Sou Quem Sou

sp_deville_sou_quem_sou_review

[TEXTO] Alexandre Ribeiro

 

Existem poucos vilões declarados no hip hop português. Somos todos heróis em causa própria e nunca encontramos alguém que se declare culpado. SP Deville não é nome desconhecido – Makongo e SP & Wilson são dois grupos de que fez parte -, mas assume-se agora a solo para mostrar que nem tudo são rosas com Sou Quem Sou, álbum onde mostra mostra a sua polivalência na criação e produção.

O constante saltitar entre géneros – hip hop, kuduro ou electrónica – fizeram com que Pedro Sousa, nome de nascimento, tivesse acesso a ferramentas e ensinamentos que se conjugam numa sonoridade opulenta e cuidada. As temáticas são muito pessoais e o “flow maligno” é o nosso guia espiritual por 18 faixas repletas de cicatrizes, dores de crescimento e um mundo onde os narcóticos não ficam de lado. E quem melhor para produzir batidas abraçadas pela escuridão do que SP? Synths negros a percorrer os ritmos imprevisíveis carregados de graves que são uma das grandes marcas de água neste registo.

 


 


A diversidade sónica da música criada pelo cérebro de Deville acaba por ser uma das grandes mais valias. “Olha Para Trás” é a retrospectiva saudosa do que já foi; “Malukus” uma ode ao “people do oculto”; e “Mais Pedro…” tem chamadas de preocupação no início e um sentimento de impotência durante toda a faixa que não precisa de ser expressado em palavras. As várias vozes que ouvimos através do ex-Makongo não dispensam apresentações – Karlon, Bdjoy, Kalekiri e Veecious V dão voz; Stereossauro dá um ar da sua graça em “Thuga Life” e Beatoven ajuda na produção. Este tipo de polivalência faz com que SP consiga criar hits em catadupa, algo só ao alcance, no panorama actual, de Regula.

O nosso Anderson .Paak tem agora a oportunidade de conquistar o universo musical português através da sua sabedoria de rua e está pronto para levar a sua FamilliBizno ao topo. A mistura entre Angola, Portugal e Reino Unido fazem com que veja mais além e traz um som com qualidade e sem paralelo no hip hop português. Se ainda não ouviste este álbum, ainda não é tarde para fazê-lo. “It’s Deville, bitches“.