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Sources: Beber na fonte com Bill Brewster (Parte I)

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

Há vários motivos para se prestar séria e dedicada atenção a uma série como Sources que a britânica Harmless – editora especializada em compilações que tem no catálogo excelentes títulos dedicados à memória do house, disco ou hip hop – tem vindo a editar nos últimos meses: antes de mais porque carrega a assinatura de Bill Brewster, o autor de Last Night a DJ Saved My Life, de quem recuperámos uma entrevista de 2004, é um devoto especialista na história da música criada a pensar nas pistas de dança e nos clubes, com um longo currículo neste tipo de trabalhos; depois porque estas compilações lançadas pela Harmless recuperam clássicos muitas vezes inacessíveis devido à raridade ou preço e os apresentam em versões originais com som restaurado; finalmente, porque com o fôlego de três CDs e um preço muito acessível, estas compilações são imbatíveis afirmando-se como óptimas portas de entrada para o complexo universo das etiquetas independentes dos anos 70, 80 e 90 que foram determinantes na imposição de uma cultura global de música electrónica dançante.

1. The Easy Street Records Anthology

Estabelecida em 1983, ou seja na era pós-disco que serviu de antecâmara à imposição do house, a Easy Street de Nova Iorque é uma daquelas labels que quem vasculhe atentamente o passado em lojas de segunda mão e feiras de velharias se foi habituando a valorizar de cada vez que o seu icónico logo desponta na capa de um maxi, o que é mais raro do que seria desejável. Dois desses maxis não são difíceis de descobrir nesses contextos, casos de “Body Work” de Hot Streak ou de “Go Deh Yaka” de Monyaka: electro e reggae-funk que sempre funcionaram muito bem em qualquer pista de dança mais esclarecida. Com o tempo, a Easy Street abraçou o nascente house e editou clássicos de gente como Todd Terry ou Blaze, pilares incontornáveis de um som que cresceu até dominar o planeta.


 


 

2. The Fresh Records Anthology

T-La Rock, Just-Ice, EPMD, Stezo, Nice and Smooth… A Fresh Records foi um dos pilares da cultura hip hop em meados dos anos 80, na fase de transição das caixas de ritmos para os samplers, quando o hip hop buscava, precisamente a sua identidade moderna. Mas a Fresh, criada como uma entidade paralela da Sleeping Bag Records (que também merece entrada na série Sources, como se vai perceber), também sabia olhar mais para diante e incluía no seu roster o Todd Terry Project que ditou regras nas pistas de dança de Nova Iorque antes do house se ter tornado um fenómeno massivo. Com Kurtis Mantronik como um dos A&Rs, esta etiqueta criada pelo mítico William Socolov ajudou a fazer história, sobretudo com os lançamentos de Just-Ice e EPMD que elevaram a fasquia hip hop quando chegaram às ruas. E, claro, depois há Stezo e o seu “Freak The Funk”, que fecha esta antologia: pérola absoluta de random rap que nos transporta instantaneamente no tempo.


 


 

3. The Sleeping Bag Anthology

A Sleeping Bag, etiqueta criada em conjunto por William Socolov e o enorme Arthur Russell é uma daquelas irrefutáveis provas de que a Nova Iorque da era de transição dos anos 70 para os anos 80 deve ter sido um dos sítios mais incrivelmente criativos do planeta: punk, disco, hip hop, jazz livre e música de vanguarda a dividir os mesmos espaços, figuras como Andy Warhol, Jean-Michel Basquiat ou Keith Haring a cruzarem as ruas, arte, moda e tecnologia em ebulição… O cenário não podia ser o mais adequado. E em 1981 surgiu a enorme Sleeping Bag pela mão do génio Arthur Russell e logo com uma bomba inexcedível, o clássico absoluto “Go Bang” de Dinosaur L, o molde para toda a DFA dos LCD Soundsystem, basicamente. Neste triplo CD encontram-se todas essas preciosidades, incluindo muito material com incríveis mixes de Larry Levan, François K, Hippy Torales ou da verdadeira lenda Paul C.


 

https://www.youtube.com/watch?v=NfPcF-sBOD0


 

4. The Sam Records Anthology

As origens da Sam Records remontam a 1975. Ou seja, esta etiqueta acaba por ter no seu catálogo importantes registos que documentam a transição entre o funk e r&b para o disco. Criada pelo veterano Sam Weiss em Nova Iorque, esta era uma daquelas editoras servidas por um logo incónico que os Djs aceitavam como argumento decisivo na hora de adquirir combustível para nos sets. A música da John Davis Monster Orchestra (do companheiro de Dennis Coffey John Davis) ou de Gary’s Gang quase que representa dois lados de uma mesma moeda usada para fazer dançar. Há por aqui mixes de importantes remisturadores de Nova Iorque como Shep Pettibone ou Jellybean Benitez (ambos com ligações aos alvores da carreira de Madonna) e clássicos capazes de ainda hoje causar estragos nas pistas mais aventureiras.


 

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