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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 22/11/2020

Entre os confins do Cosmos e a proximidade terráquea.

Som Riscado’20 – Dia 3: um chimpanzé no espaço e uma Surma na Terra

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 22/11/2020

No terceiro dia, foi o programa que o Som Riscado apontou ao Cineteatro Louletano que concentrou as nossas atenções. Pelas 19 horas, Miguel Neto e Rodrigo Carvalho repartiram em palco as responsabilidades musicais e visuais e levaram-nos a todos até aos confins do espaço com o seu projecto Boris Chimp 504 e o espectáculo Vanishing Quasars.

A proposta é imersiva e cruza hipnóticos visuais de padrões geométricos em constante mutação, sobretudo de contrastantes tons branco e negro, com música igualmente hipnótica que se enquadra na corrente electrónica dançante mais exploratória como a que a editora britânica Warp há décadas investiga. Do conjunto dessas abrasivas peças de vincado pendor rítmico, servidas ainda por camadas sintetizadas de matéria melódica e harmónica, e do manancial de linhas e formas que respondem aos estímulos sonoros resulta uma experiência de deslocação de realidade e às tantas, de facto, já não se percebe bem se permanecemos em Loulé, na plateia do Cineteatro, ou se já estamos para lá de Andrómeda, a bordo da mesma cápsula soviética que em 1969 foi enviada para a Lua com o chimpanzé Boris a bordo e que se desviou para os confins do Cosmos, condenada a ser matéria errante para todo o sempre.

De forma oposta, o espectáculo de Surma decorreu de pés firmemente assentes nesta Terra. Por esta altura, a artista que grava para a leiriense Omnichord Records é já um caso sério no panorama da pop contemporânea nacional. O seu álbum, Antwerpen, mereceu aplausos da crítica especializada e esteve na base de inúmeros espectáculos que correram mundo. Sim, porque a música de Surma pertence ao mundo e com ele comunica em canções que parecem nascer do ar para, aparentemente meros momentos depois, se desvanecerem como poeira electrónica, de forma tão natural quanto encantatória. E capaz de gerar aplausos em Loulé, Lisboa ou Oslo… e Antuérpia, claro.

O espectáculo que Surma ontem levou ao Louletano resultou de uma residência de colaboração artística com duas criadoras algarvias: a artista plástica Inês Barracha e a fotógrafa e realizadora Camille Leon criaram para Surma uma paisagem envolvente de verdes soturnos, de florestas misteriosas, de formas naturais, de campos ou de pormenores físicos muito aproximados e também de formas desenhadas, sempre como um complemento para as canções que parecem exigir da artista leiriense total entrega física: para as interpretar ela agita-se, mexe-se, dança e gesticula, como se aquelas canções estivessem presas dentro de si e precisassem de ser expulsas, para voarem um pouco no ar que nos liga antes de se dissiparem, como a névoa.

Acompanhada por João Hasselberg em contrabaixo e electrónica, Surma percorreu diferentes momentos da sua obra, estendendo-se desde o tema que a revelou, “Masai”, até novas canções que deverão integrar um novo álbum que, “se tudo correr bem”, deverá ver a luz do dia lá para o Outono do próximo ano. O já referido tema “Masai”, que a própria artista referiu já ter sofrido muitas mutações ao longo dos anos, beneficiou amplamente da mestria de Hasselberg no contrabaixo, com as notas graves que extraiu com o seu arco a adicionarem uma camada extra de drama e espessura emocional a um tema que já vivia originalmente de uma aura melancólica profunda.

Também se escutou uma inesperada vénia aos Velvet Underground, que Surma confessou ser uma paixão gigante que tem, sob a forma de uma inusitada versão de “Femme Fatale”. Quando a artista anunciou de que canção se tratava e logo depois disparou um padrão rítmico de elevada velocidade de BPMs, na minha cabeça pelo menos surgiu imediatamente a pergunta “mas como raio vai ela ser capaz de cantar aquela fantástica balada em cima desta base tão frenética?” Mas na verdade, a coisa resulta, com Surma a demonstrar que as melhores versões são mesmo as que oferecem aos originais um novo ângulo, as que resultam de abordagens oblíquas e não as que tentam ser meras reproduções. Se é mesmo para voltar a pintar a Gioconda, então que seja com bigode, certo?

Com caixas de ritmos e sintetizadores, com guitarra e baixo eléctricos, com três microfones cada um servido pelo seu banco de efeitos, com a preciosa participação de João Hasselberg, com uma língua que soa tão inventada quanto familiar, Surma foi criança e fada, dançou, cantou, repetiu “espero que gostem” vezes demais já que foi sempre óbvio, desde o primeiro momento em que a plateia esgotada efusivamente a aplaudiu, que todos estavam a adorar. E no final ainda nos prendou com um inédito que nas suas palavras “é um bocadinho Rosalía”. Também dá para dançar, certamente, mas é mesmo Surma, totalmente entregue à sua arte particular, de pés assentes na Terra, em busca do mundo que lhe pertence por direito.

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