Som Riscado 2019: gira o disco e nunca toca o mesmo

[TEXTO] Vasco Completo [FOTOS] Camille Leon

O Som Riscado, evento dedicado a música de cariz mais exploratório, teve lugar neste último fim de semana, em Loulé. A quarta edição do festival trouxe uma renovada componente formativa que se reflecte nos vários dias e eventos do mesmo. De quinta-feira a domingo, a festa, focada na música experimental e na ligação entre o som e a imagem, levou até à cidade algarvia grandes nomes da música nacional e ainda uma participação internacional de relevo.

Num ano em que vemos o cancelamento do Mêda + e dos Jardins Efémeros – na Guarda e em Viseu, respectivamente –, urge reforçar a importância destas iniciativas fora das grandes cidades. Este tipo de propostas culturais mais ricas e desafiantes não devem estar confinadas a meios urbanos mais populosos, indo contra a democratização do acesso às artes. Como tal, temos também o dever de, para além de ajudar a manter vivos os projectos regionais mais estabelecidos, apoiar também as novas iniciativas que vão surgindo.

Além disso, festivais como o Som Riscado plantam sementes para o futuro. O formato foi, para esta edição, reformulado, reforçando-se a sua componente educativa e formativa. Pela maior cooperação com escolas e universidades do sul do país e com estudantes de artes da região, e pela tipologia de eventos realizados, nota-se uma intenção de educar os mais jovens, para que mais iniciativas deste estilo, mais ricas, dissonantes e arriscadas, possam surgir de modo a dinamizar a arte que é feita e consumida fora de grandes centros urbanos. Educar para formar novos públicos, portanto.

E podemos notar alguma influência deste pensamento da organização do Som Riscado na audiência dos vários espectáculos: num mesmo concerto vemos crianças, adolescentes, adultos e pessoas mais idosas. Além disso, em todos os concertos dispomos duma sala bem preenchida, e isso é de louvar, principalmente tendo em conta o tipo de música que estava a ser tocada, experimental, exploratória e “difícil”. Numa conversa informal, Paulo Pires, da organização do Som Riscado, disse-nos que “é preciso arriscar”, e foi isso que vimos durante estes dias.

No primeiro dia deu-se o mote para o festival com o “Concílio Riscado dos Deuses”: uma performance de Carlos Zíngaro, seguida duma conversa com o conceituado músico português, acompanhado de Vítor Rua, André Tentugal, Noiserv e Lixoluxopóetico.

O segundo dia, sexta-feira, acolheu várias masterclasses e workshops que se repetiram ao longo dos dias do festival. O ponto alto aconteceu à noite com a performance “Manipula#Som” de Radar 360º. Como nos confessou o actor na conversa pós-espectáculo, este não é um projecto multidisciplinar, mas transdisciplinar. Pela junção de vários elementos – das artes circenses, da música, da imagem, da dança… –, elevou-se a performance a uma categoria mais indefinível como um todo. Com uma equipa de quatro elementos que só contou com uma cara em palco, o espectáculo é para todas as idades, embora se perceba que as crianças se deixem fascinar mais facilmente.

Como rematou um amigo do actor durante a conversa que se deu de seguida, o tema do espectáculo podia resumir-se assim: “era uma vez este homem que vivia num mundo de sons”. E era, de facto, como um “Acoustics 101” no auditório do Cine-Teatro Louletano. Pelo uso de sensores, microfones e ainda sons sintetizados e processados, o jogo e interacção entre o espaço, os movimentos e os sons criaram um imaginário inteligente e rico timbricamente.



Na manhã seguinte pudemos apanhar a última masterclass de Vítor Rua. O músico confessou que esta teria um teor mais aproximado de conferência que daquilo a que tinha sido intitulada. Com a intenção de tratar “Novas abordagens ao Som e à Música”, este professor, com tanto para ensinar e dizer, não se conseguiu estender e 3 horas revelaram-se curtas para tanta informação.

A masterclass de André Tentugal, considerando a relevância que a ligação entre som e imagem tem no Som Riscado, apresentou-se como uma das mais interessantes. O realizador e músico português, com um currículo de luxo no campo do videoclipe, deu dicas sobre novas possibilidades low budget e DIY para a criação videográfica, numa indústria em que ainda se registam algumas dificuldades no que toca a rendimentos para artistas em crescimento (e não só).

Logo a seguir deu-se uma das três performances de Lixoluxopóetico. “Não, o acento não é uma gralha”, esclareceu Paulo Pires, organizador do festival. É que João Oliveira, homem que assina este projecto, utiliza um aspirador como parte de um instrumento, tocando também objectos bizarros por si construídos, antenas, molas, aspiradores e até cactos. Através desta parafernália ouviu-se o músico numa performance em que o som e a pesquisa tímbrica processada foram o centro. Da curiosidade fácil, com a estranheza visual dos objectos, tão pouco musicais à partida, o público demonstrou-se entretido e impressionado, claro. Umas vezes mais melódico, outras vezes mais espacial e imprevisível. No fim, inverteram-se os papéis: João chamou quatro intervenientes (à vez) para serem por si orquestrados, que experimentarem os seus instrumentos, aliando a experiência e a criatividade ao seu espectáculo.



Da mesma maneira que Lixoluxopóetico utiliza materiais não-musicais, Chassol, pianista e compositor francês, utiliza sons e gravações audiovisuais e hamoniza-as, num método ao qual chama “ultrascore” (do qual falaremos mais numa entrevista com o músico, a sair em breve!).

Christophe apareceu animado em palco e falou em francês com o público que o compreendeu bem. A experiência audiovisual do concerto baseou-se no seu disco de 2015, Big Sun. Acompanhando com uma exactidão impressionante os vídeos, Chassol e o seu baterista musicaram todas as imagens que passaram, dando ainda espaço a alguns improvisos. De um jazz mais espaçado ao piano a ritmos dançáveis e festivos, o público apaixonou-se pela emoção da música do francês. Depois da actuação, o manager confessou-nos que este foi um dos seus concertos favoritos de Chassol e companhia… Acredite quem quiser.

Na manhã seguinte, na sua masterclass, Chassol agradeceu a presença generosa, surpreendente para um domingo bem cedo. Explicou como se dá o seu processo de escolha temática e de vídeo, mostrou alguns projectos seus anteriores e ainda futuros (exclusivos bons para quem lá esteve), demonstrou como harmoniza e reconhece a melodia por uma voz falada. Um rapaz ainda desafiou Christophe a tentar com o português, depois de terem perguntando qual era a língua mais difícil de encontrar a melodia. Em cerca de 10 segundos, o francês melodiou a frase do rapaz e harmonizou por cima… Só visto (e ouvido).



Voltando atrás, ainda antes de fechar o sábado à noite, Vítor Rua & The Metaphysical Angels tocaram no Solar da Música Nova. O músico português introduziu o seu concerto com uma reflexão sobre a música para que este grupo aponta, referindo a sua individualidade estilística pela aglutinação sónica indefinível que cruza jazz, rock, música improvisada, experimental… o que seja. O que importa é que o seu álbum Do Androids Dream Of Electric Guitars? não se deixa encaixotar.

A bordo desta nave com guitarra, bateria, piano, contrabaixo, trompete e clarinete baixo, Rua afirmou que poucos são os percursores desta música (aponta Zappa como uma possibilidade vaga). O que aconteceu depois, com vídeos da Betty Boop inicialmente e outros mais psicadélicos de seguida, ficou para os que foram. A fisicalidade da música, a um nível de intensidade muito elevado para o que sala pedia, há-de ter preenchido os requisitos do que os músicos de noise normalmente pedem. Puxando pelos limites acústicos da sala, ouvimos música agressiva, mas com momentos ambient e mais harmónicos. Passado um momento em que assistimos a Vítor Rua a orquestrar a sua banda (por vezes desatenta aos seus sinais), vemo-lo depois de guitarra no chão, a ser arrastada, qual mítica figura de punk rock em pleno caos organizado dos Metaphysical Angels.



Noiserv encerrou o festival no domingo e a sua instalação-concerto, em colaboração com o fotógrafo louletano Luíz da Cruz, sucedeu num formato original. David Santos encontrava-se no meio do auditório do Solar da Música Nova cercado por três telas brancas em que se projectavam imagens da cidade, baseadas na sua música. Um momento emocionante e muito bonito, com algumas pessoas sentadas em redor da instalação e outras a contorná-la incessantemente, enquanto o público mais jovem brincava curioso em frente às telas.

Entre exposições, masterclasses, instalações-concerto, espectáculos transdisciplinares e performances, foi difícil ficar entediado num festival com muito para oferecer, numa região do país que, por norma, se pode queixar da falta de programação cultural diversificada. Talvez isso aconteça noutras alturas, mas, no Som Riscado, gira o disco e nunca toca a mesma canção.


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