O som do big bang: cassetes de 1977 mostram como era o hip hop dos primórdios

[FOTO] Joe Conzo (Direitos reservados)

O impacto da série The Get Down, disponível em Portugal para assinantes do serviço Netflix, voltou a chamar a atenção para os primórdios de uma cultura que é hoje global. Antes dos primeiros discos serem editados, antes da MTV ter alargado as margens da cultura nos anos 80, a que soava, afinal de contas, o hip hop. O site Ambrosia For Heads chamou recentemente a atenção para uma cassete de 1977 postada no soundcloud pelo user hass718, um precioso documento que mostra claramente como os DJs do Bronx criaram, a partir de uma mistura de grooves disco, de breaks funk e algo mais as bases de um som absolutamente revolucionário.

Há uns anos, em entrevista com Afrika Bambaataa, aquando da sua primeira visita para tocar no Lux, o pioneiro explicava a que soavam as primeiras festas e os pontos de origem desta cultura:

 


bambaataa


Qual é a tua primeira memória do Hip Hop? Quando é que percebeste que algo novo estava a acontecer, uma nova cultura estava a ser criada?

Nós vínhamos todos de uma era de Soul, Funk e Disco Sound. E o Hip Hop, basicamente, assumia-se como o novo Funk. Além disso havia toda aquela cultura importada da Jamaica com o Grandmaster Flash e o Kool Herc e o que eles faziam com o “toastin’” que levou a que alguns irmãos começassem a rimar em cima do DJ. Foi por volta de 1974, quando os elementos todos se começaram a juntar – os MC’s os artistas de Graffiti, os B-Boys e as B-Girls e os DJ’s – que decidimos chamar a esta nova cultura Hip Hop. Mais tarde o quinto elemento – o Conhecimento – foi adicionado à cultura. Mas foi quando todas as peças se encaixaram num todo coerente que percebemos que aquilo era Hip Hop. Antes chamávamos-lhe outra coisa qualquer, sei lá, Boing Oing (risos).

E tiveste imediatamente a percepção de que estavas perante uma revolução?

Sim. Quando consegui juntar toda a gente e decidi encarar o que estava a acontecer como uma Cultura percebi o poder que a organização poderia ter. Porque antes cada um fazia a sua cena sem se preocupar com a “bigger picture”. Mas com a Universal Zulu Nation, com a organização e a consciência de que fazíamos todos parte de algo maior veio a certeza de que iríamos estar aqui muito tempo!

Podes descrever-me um pouco da atmosfera das primeiras festas?

Havia festas em diversos locais, sempre com muita gente – havia locais que levavam entre quinhentas a mil pessoas e estavam sempre cheios. E depois cada um dos DJ’s tinha o seu estilo muito distinto de tocar. Eu era mais conhecido como o Master of Records, porque conhecia os breakbeats mais loucos escondidos nos discos mais improváveis. Eu tinha um estilo mais louco, mais selvagem, mas outros, como o Flash, tocavam mais Funk ou Disco. Depois também começaram a aparecer os MC’s, cada um cultivando um estilo. E isto, claro, electrizava o público, os B_boys e as B-Girls que andavam sempre eles próprios à procura de novos passos, novas maneiras de espantar toda a gente. Naquelas festas a criatividade sentia-se no ar!

As pessoas já iam para as festas à espera de serem surpreendidas?

Mais ou menos. Havia certas coisas que elas praticamente exigiam ouvir. O meu público, provavelmente, era o mais progressista. Mas os estilos também eram diferentes: numa festa podias ter um DJ que durante 20 minutos cortava o “Good Times” dos Chic, com alguns MCs a rimar em cima, mas eu tinha sempre que levar uma tonelada de discos para as festas porque nunca tocava mais do que dois minutos de um disco. E depois havia muita concorrência, porque quando eu estava a tocar havia literalmente gente com cadernos de notas a apontar o que eu tocava.

Muito bem, podes falar um pouco sobre o início da Zulu Nation?

A Universal Zulu Nation começou em 1973 e o objectivo principal foi acalmar a violência dos gangs e muito do pensamento destrutivo que as pessoas tinham na comunidade afro-americana. Depois começámos a organizar-nos e a ter aquilo a que chamávamos “Infinity Lessons”, aproveitando para estudar uma série de professores, do honorável Elijah Muhammad até Malcolm X, Martin Luther King. O objectivo era congregar uma série de culturas, ideologias, nacionalidades e religiões sob um mesmo tecto. À medida que fomos viajando e a estabelecer-nos noutros países começámos um movimento internacional, promovendo a troca de informação. Por exemplo, se a Zulu Nation se estabelecesse em Portugal alguns irmãos viajariam depois para França, conheceriam Zulus de lá e trocariam experiências. E, ao mesmo tempo, todas estas pessoas se apoiavam, oferecendo lugares onde outros Zulus pudessem ficar, trocavam informações, partilhavam os seus pensamentos e reflexões sobre os mais variados assuntos.


crazy legs


 

Os compêndios oficiais revelam que o Hip Hop nasceu no Bronx, algures na primeira metade dos anos 70 (Novembro de 73, de acordo com Afrika Bambaataa…). Kool Herc foi um dos primeiros DJ’s a perceber que a pista se agitava de forma mais descontrolada quando os discos de funk que tocava chegavam àquela parte em que a canção se despia de todos os adornos deixando apenas uma das combinações possíveis de baixo, congas e bateria para carregar o groove. Geralmente, esses “breaks” dos discos duravam apenas escassos compassos, mas Kool Herc percebeu muito rapidamente que se arranjasse duas cópias do mesmo disco, poderia alternar entre os espaços de “break” de ambos, prolongando assim o impacto do pulsar rítmico na pista de dança. O Hip Hop foi depois erguido em torno desta simples ideia: o DJ foi obrigado a desenvolver skills que lhe permitissem manter o “break” fluído e o MC apareceu para, em cima desses “breaks”, incentivar a multidão à festa. Na pista de dança, os elementos mais dotados, capazes de traduzir mais acrobaticamente esses “breaks”, ficaram conhecidos por Break-Boys ou B-Boys. E esta era a sua banda sonora: sejam bem vindos a 1977!

 

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu
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