Soft Machine // The Harvest Albums 1975-1978

[TEXTO] Rui Miguel Abreu 

Os Soft Machine foram, quase sempre, uma entidade fluída e no período representado pela presente antologia – o que compreende os anos que decorreram de 1975 a 1978 e que corresponde à sua ligação à editora Harvest, braço “progressivo” da EMI – tal realidade não se alterou, com o núcleo central formado pelo teclista Mike Ratledge (o único músico que então resistia desde a formação original em 1966), pelo baterista John Marshall e ainda pelo igualmente teclista e saxofonista Karl Jenkins a ser complementado sobretudo pelo baixista Roy Babbington, por guitarristas como Allan Holdsworth (estes últimos quatro músicos, aliás, vindos dos notórios Nucleus de Ian Carr) ou John Etheridge e também pelo saxofonista Alan Wakeman.

Quando chegaram a Bundles, o primeiro álbum que gravaram para a Harvest depois de terminarem uma ligação à CBS que durava desde 1970, os Soft Machine já contavam com sete álbuns de estúdio no activo e uma pletora de registos ao vivo que espelhavam o facto de serem, antes de mais, um colectivo de palco. Da sua formação original no mítico caldeirão de Canterbury que os plantou directamente no centro da cena “underground” britânica que haveria de desembocar na escola do rock progressivo que dominou boa parte dos anos 70, o grupo reteve sobretudo a sua atitude exploratória, abandonando no entanto as colorações mais psicadélicas em favor de uma crescente ligação ao jazz mais livre ou de fusão. Pelo caminho, os Soft Machine foram perdendo – ou talvez seja melhor dizer que foram oferecendo ao resto do universo musical – membros como Robert Wyatt (o baterista original da banda que após o acidente que o deixou paraplégico haveria de encetar uma magnífica carreira a solo), Kevin Ayers (também com fértil carreira a solo), Daevid Allen (guitarrista australiano que depois de se ver impedido de regressar a Inglaterra devido a questões de visas acabou por se quedar por França onde integrou os notórios Gong) ou Andy Summers (antes de ingressar nos Police), tudo gente com vincadas personalidades musicais, o que atesta a própria efervescência criativa do grupo.

O período documentado nesta caixa que reúne então os álbuns de originais Bundles (1975) e Softs (1976) e ainda o registo ao vivo Alive and Well: Recorded in Paris (1978) representa, na verdade, a fase final do grupo, que viu o seu último membro fundador, Mike Ratledge, abandonar o barco ainda durante a fase inicial das gravações de Softs.

É verdade que as discografias oficiais ainda registam a entrada de Land of Cockayne, trabalho de 1981 gravado por Marshall, Bobbington e Etheridge, e, já de 2018 (!!!), o álbum Hidden Details (que conta igualmente com os préstimos do mesmo trio de 1981), trabalhos que serviram, sobretudo, para justificar a permanência do grupo nos palcos. Aliás, a existência neste milénio de “encarnações” da banda como os Soft Ware, Soft Works e Soft Machine Legacy (por insistência, sobretudo, de John Marshall) traduz, antes de mais, a declaradamente humana necessidade que músicos que nunca lograram lançar êxitos capazes de gerar reformas douradas têm de continuar a trabalhar.

Estes “Harvest Albums” são, portanto (e é difícil resistir à tradução directa do nome do selo), os das derradeiras “colheitas” efectuadas pelos Soft Machine, mas, escutando logo as primeiras notas da guitarra de Allan Holdsworth em conjugação com os sintetizadores de Mike Ratledge na primeira parte da suite “Hazard Profile”, percebe-se que o grupo nunca pretendeu despedir-se de forma discreta.

Allan Holdsworth já tinha demonstrado ser guitarrista de classe superior quando assumiu o solo de “Hector’s House” no álbum Belladonna que Ian Carr lançou em 1972 (importante reforçar, uma vez mais, a ligação directa entre os departamentos de recursos humanos dos Soft Machine e dos Nucleus…), mas o tema que marcava o arranque de Bundles era, sem dúvida, uma espécie de declaração de intenções, posicionando a guitarra num inédito lugar de destaque nunca antes realmente preenchido na discografia dos Soft Machine. E isso pode ler-se como uma tentativa do colectivo britânico reclamar um lugar de maior relevância no então agitado mapa internacional do chamado jazz de fusão.

Como acontecia com os Nucleus, a estratégia de usar riffs como ponto de partida para um mais expansivo “fogo de artifício” nos solos é nítida: esta era música pensada para espantar audiências masculinas em palcos espalhados pela Europa e Estados Unidos e aí Holdsworth cumpria com distinção, apontando directamente ao terreno explorado pelo igualmente britânico John McLaughlin nos Mahavishnu Orchestra desde 1971. Claro que o guitarrista não estava sozinho: o papel de Marshall na bateria é fundamental para ancorar os Soft Machine num terreno mais “rock”, embora as percussões também sejam usadas para o natural “show off” improvisacional, como tão bem demonstrado em “Four Gongs Two Drums”; de igual forma, os sopros de Karl Jenkins também ganham amplo espaço em “Peff”, numa estonteante viagem com rajadas altamente processadas; já Ratledge, dedicava-se a mostrar a prodígios dos teclados como Keith Emerson ou Rick Wakeman que poderia facilmente rumar a terrenos mais rock se o desejasse, como o seu contributo para “Hazard Profile Part Five” deixava muito claro.

Mas nem tudo era maximal com enxurradas de notas sem fim. No tema que fecha Bundles, “The Floating World”, figuras circulares de sintetizadores e as flautas do convidado Ray Warleigh remetem para outros terrenos, mais interiores e contemplativos, quase new age, provando que os Soft Machine eram capazes de múltiplas nuances no seu som. E, talvez aproveitando essa ideia, o álbum seguinte, Softs, arrancava sob a mesma tranquila toada, com a guitarra acústica de John Etheridge a vincar a diferença, após o abandono do electrizante Holdsworth.

Este foi o álbum em que o input de Mike Ratledge foi já bastante diminuto, limitando-se a aparecer em dois dos 11 temas que completam o alinhamento, sem solos dignos de nota. Jenkins assumiu aí os teclados (pianos acústicos e eléctricos, Moogs…) bem como as orquestrações, posicionando-se na dianteira do grupo e abrindo assim espaço para outro saxofonista, Alan Wakeman, que brilha discretamente no tenor e no soprano. Mas se Bundles mostrava uns Soft Machine em busca de um lugar no altamente lucrativo circuito internacional do jazz de fusão (Miles Davis, Weather Report, John Tropea, Billy Cobham, Mahavishnu Orchestra, Herbie Hancock ou Chick Corea e os seus Return to Forever eram estrelas de brilho tão fulgurante como as que chegavam da galáxia rock, igualmente capazes de arrastar multidões para as maiores salas), o sucessor Softs parecia divergir um pouco para o campo vizinho do rock progressivo, aproveitando as capacidades igualmente extraordinárias do guitarrista John Etheridge, capaz de solar à velocidade da luz, como perfeitamente demonstrado em “The Tale of Taliesin”, ou de passagens mais líricas, ideais para o acender de isqueiros em pavilhões lotados, como em “Out of Season”. A expressiva linguagem de Wakeman, sobretudo no soprano, que aproveitava a toada funky de “Ban-Ban Caliban” para percorrer a distância que separava a Terra de Andrómeda, também oferecia argumentos no mesmo sentido aos Soft Machine. O espaço parece também ser o destino do interlúdio electrónico proporcionado por Jenkins em “Second Bundle”, delicioso momento que antecede o solo de John Marshall em “Kayoo” que depois desemboca num assombroso e algo cubista duelo/diálogo com Etheridge em “The Camden Tandem”, um daqueles momentos calculados para elevar a temperatura nos concertos. Ainda assim, o grupo, tal como conhecido até aqui, não voltaria a gravar.

O último disco da fase Harvest recebeu o erróneo título Alive and Well e foi gravado em Paris ao longo de uma residência de quatro noites no teatro Le Palace em Julho de 1977, algumas semanas  após uma mítica passagem pelo Dramático de Cascais, num concerto produzido pela mesma equipa que montava o célebre festival Cascais Jazz. Apesar de ser um álbum ao vivo (gravado pelo engenheiro Alan Perkins com o estúdio móvel Manor Mobile e posteriormente retrabalhado no estúdio Advision, em Londres), Alive and Well continha material original, que prosseguia as experiências jazz-rock dos trabalhos anteriores, com John Etheridge a manter a dianteira, e Steve Cook a substituir Roy Babbington no baixo. Por esta altura o saxofonista Alan Wakeman também já não se encontrava no grupo, com Jenkins e Marshall a optarem por recrutar o violinista Ric Sanders, inspirados, provavelmente, pelas proezas alcançadas em similares terrenos jazz-rock por Jean-Luc Ponty ou Jerry Goodman, ambos com passagens consideráveis pelos Mahavishnu Orchestra. Sanders não se revelou, no entanto, um músico tão inspirado quanto os seus homólogos do grupo liderado por John McLaughlin, com os principais argumentos de Alive and Well a serem por isso mesmo repartidos pelas derivas inspiradas de Etheridge na guitarra e pelo pulso constante de Marshall na bateria. A química da dupla, aliás, justifica que se tenha prolongado até ao presente, em encarnações como os já referidos Soft Machine Legacy.

Há um momento dissonante neste derradeiro registo para a Harvest: o tema “Soft Space”. Foi o único resultante exclusivamente de trabalho de estúdio e não terá sido por falta de material, já que no início desta década, uma edição expandida deste álbum pela mesma Esoteric que agora carimba esta caixa reunia mais de 40 minutos de música inédita resultante das gravações em Paris. Poderia, portanto, ser uma tentativa de antecipar o que seria o futuro imediato do grupo, caso esta “máquina mole” não tivesse derretido definitivamente: o tema, completamente electrónico, procurava de forma algo ingénua, a pista de dança projectada a partir de Munique, por Giorgio Moroder, mas também de alguns estúdios de Paris, recorrendo a sequenciadores para um pulso mecânico que destoava de forma radical do habitual trabalho de John Marshall.

O tema soa hoje como um curioso e bastante kitsch artefacto de uma era em que os sintetizadores começavam a ser encarados como interfaces para uma nova linguagem e não como meros acrescentos modernistas à parafernália rock convencional. Mas está muito longe do que o já citado Moroder, os Space de Didier “Ecama” Marouani (os mesmos do clássico “Magic Fly”, editado em 1977) ou os Voyage de Sauveur Mallia (que também se estrearam em 1977…) apresentaram ao mundo na mesma época. Terão os Soft Machine saído à noite durante a sua residência parisiense e procurado recriar em Londres o som escutado nos clubes de Montmartre vizinhos do Le Palace? Escutando este “exótico” “Soft Space” parecem restar poucas dúvidas disso mesmo.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu