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Slum Village no Sumol Summer Fest: “mudámos de membros com o tempo, mas o legado permanece”

 

[FOTOS] Ricardo Miguel Vieira

 

A performance dos Slum Village ao vivo é uma espécie de viagem de Inter-Regional até ao passado, daquelas com imensas paragens até ao destino. Pelos carris fora, a carruagem segue em modo boom bap, mas é nos exímios apeadeiros que os passageiros – o público, portanto – visitam as bestiais paisagens das produções do mestre do beatmaking J Dilla. E o espectáculo no Sumol Summer Fest incluiu um sem-número de etapas: a herança de Dilla esteve presente, muito presente, e a audiência vibrou com as rendilhadas produções do mais querido filho do hip hop de Detroit.

A passagem do colectivo-tornado-duo – hoje representando por T3 (um dos fundadores) e Young RJ (na foto acima) – pela Ericeira não foi um básico exercício revivalista, longe disso. Ainda que se tenham feito acompanhar por um singular DJ, oferecendo ao espectáculo um carácter mais set, os Slum Village prepararam algo maior do que uma performance à-la-club para a juventude que preencheu o recinto do festival naquele incrível final de tarde: a inédita apresentação em palco do seu mais recente disco, Yes!, editado em Junho pela Ne’Astra Music Group. “Esta é a primeira vez que tocamos ao vivo qualquer música do nosso novo álbum. Aqui mesmo. Hoje”, anunciou T3 em entrevista exclusiva ao Rimas e Batidas minutos antes da actuação.


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O público diante do palco Sumol à hora em que Detroit desceu sobre a Ericeira rondava uma média de idades sub-17. Ou seja, muitos não eram nascidos quando o histórico grupo, então formado por J Dilla, Baatin (também ele já desaparecido) e T3, lançou o disco de estreia Fantastic Vol. 1, de 1996. T3 e Young RJ mostraram-se cientes dessa estratificação, mais não seja porque a experiência em festivais determina que a audiência está dispersa entre referências sonoras, oportunidade para os Slum Village mostraram o que há-de novo e partir à conquista das novas gerações. “Um festival é sempre diferente de um concerto regular, porque recebemos mais energia, o público está pronto para festejar e divertir-se e isso não significa necessariamente que conheçam a tua música”, explica T3.

Yes! foi lançado nove anos após o desaparecimento de J Dilla, figura indissociável do colectivo, não só porque foi um dos fundadores, mas também por ser homem por detrás de grande parte das produções ao longo da discografia do grupo. Estamos em 2015 e o novo trabalho dos Slum Village ainda consegue resgatar beats do espólio do incansável Jay Dee. “Nós revolvemos algum do material antigo que tínhamos até ao [Fanstastic] Vol. 2 (2000)”, conta Young RJ. “Nove das faixas foram produzidas pelo J Dilla, três por mim e uma pelo Black Milk. Se gostaram do Vol. 1Vol. 2, então Yes! é o velho-tornado-novo.” T3 sublinha, por outro lado, a importância de também se manterem a par do que se passa de novo no hip hop para que as suas sonoridades ainda se enquadrem com o actual panorama global do género, mesmo que adoptem a via da ressuscitação de produções do mestre Dilla. Daí que Yes! conte com as participações de nomes como Bilal e BJ The Chicago Kid ao lado de intemporais como De La Soul ou o próprio Illa J, que já foi parte mais activa do colectivo. “Não te podes isolar do mundo, tens de ouvir o que é novo e antigo. Eu oiço muitos dos novos rappers que vão surgindo, bem como a cenas old school; já o RJ aposta muito no vinyl diggin’. Essa mistura acaba por resultar em algo criativo e permite-nos manter frescos.”


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Em palco, T3 e RJ fluem com os beats, uns que clamam por hip hop, outros que piscam o olho ao R&B. Clássicos como “Selfish“, “Fall In Love” ou “Yes Yes” levaram os seguidores mais acérrimos do agora duo a soltar uns cheers entre a multidão, enquanto as músicas surgiam sem interrupções, agulha imparável nos pratos. E Yes!, título de palavra fácil (mas forte), com as faixas a cruzarem-se entre o set, marcaram o pôr-do-Sol ericeirense. “[Este disco] é um Summer feel good album, é tudo o que possas pensar de forma positiva”, descreve T3. “[O título Yes!] é engraçado também porque somos conhecidos pelos álbuns de uma só palavra, como Fantastic, por exemplo. Não temos de ser demasiado complicados sobre a nossa arte, pode ser arte quando fazemos as coisas de forma simples.”

Não deixa de ser curioso que os Slum Village permaneçam firmes numa abordagem positiva quando provêm de uma cidade caída em desgraça. Detroit foi, outrora, uma espécie de capital para os movimentos de defesa dos direitos afro-americanos – espelho da sua importância na cultura negra nos Estados Unidos – e o motor económico do continente norte-americano, alimentado pelas construtoras automóvel. Tudo mudou com a crise imobiliária de 2008. A cidade virou fantasma e muitos dos seus recantos são verdadeiros quarteirões-fantasma. A 18 de Julho de 2013 realizou mesmo a proeza de se tornar na primeira cidade a declarar a bancarrota no EUA. “Somos sempre influenciados pela nossa cidade”, diz RJ. “Quando ouves Slum, estás basicamente a ouvir sobre o que está a acontecer na cidade.” Talvez seja o duo a personificação de um renascer da alma dessa mítica cidade do estado do Michigan. Talvez essa alma nunca se tenha perdido por entre os escombros.

No final do espectáculo paira no ar a boa sensação de que esta foi uma performance que cumpriu. Um som clássico que chega aos mais novos e que, ainda assim, os consegue empolgar. São quase vinte anos de carreira, a completar no próximo ano. São quase vinte anos de muitas mudanças e especialmente perdas. Mas se há algo que fica, garante T3 (na foto abaixo), é a herança de Slum Village para o hip hop underground norte-americano, e para todo o mundo. “Estamos a fazer isto há muito tempo, claro que mudámos os membros com o tempo, mas o legado permanece. Somos felizes por isso, por sermos de Detroit e por fazermos música.”

 

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