Conhecido como Siriusmo, Moritz Friedrich construiu um dos percursos mais singulares da música eletrónica alemã a partir de uma lógica muito própria. O nome artístico nasce da junção da sua primeira banda, Sirius, com “Mo”, as duas primeiras letras do seu nome, e rapidamente se tornou sinónimo de uma eletrónica irreverente, melódica e profundamente pessoal. Ao longo de mais de duas décadas, editou música por várias editoras, entre elas a Grand Petrol Recordings, a Boys Noize Records e, sobretudo, a Monkeytown Records, casa fundada pelos Modeselektor, onde lançou álbuns como Mosaik e Comic.
Em paralelo com a produção musical, Siriusmo sempre cultivou um universo visual muito marcado, com um passado ligado ao graffiti, à pintura e à ilustração, e uma colaboração de longa data com o artista gráfico Jens Tümmel, responsável por grande parte da identidade visual do projeto. Temas como “Diskoding”, “Allthegirls”, “High Together” ou “Nights Off”, bem como remisturas de faixas de Breakbot, Bag Raiders, Moderat ou Zombie Nation, ajudaram a fixar o seu nome numa fase em que o MySpace era rei, os blogs ditavam tendências e uma geração descobria a cena, que hoje é conhecida como bloghaus.
Apesar da relação distante com os palcos, Siriusmo chegou a juntar-se aos Modeselektor para uma digressão europeia sob o nome Siriusmodeselektor, passando por festivais como o Sónar e o Glastonbury. Em Buletten & Blumen, regressa ao formato de álbum com a mesma liberdade criativa de sempre. Nesta entrevista ao Rimas e Batidas, fala-nos do seu processo criativo, das colaborações e amizades que moldam o projeto, e do trabalho recente na banda sonora do próximo filme de Quentin Dupieux, também conhecido como Mr. Oizo.
Antes de mais, obrigado por aceitares este convite. Arrisco dizer que esta será a tua primeira entrevista com um meio de comunicação português. Por curiosidade: já alguma vez estiveste em Portugal? Conheces produtores ou artistas portugueses?
Obrigado pelo convite. Sim! E sim, estive em Portugal de férias no ano passado, pela primeira vez. Eu e a minha mulher ficámos completamente impressionados com as pessoas, o património cultural e a natureza — como qualquer turista, suponho. Não estou muito familiarizado com a cena musical portuguesa, mas tenho definitivamente alguns bons discos portugueses na minha coleção.
Buletten & Blumen soa muito surreal e colorido, identidades e temáticas que sempre estiveram ligadas ao teu universo musical. O que representa este título para ti? Para quem não fala alemão, soa forte e cool, mas depois de o traduzirmos torna-se numa grande e divertida surpresa. Como chegaste a este nome?
Inicialmente queria chamar-lhe Baum [“árvore” em alemão], porque gosto do som da palavra, mas alguns amigos acharam-no aborrecido. Depois fui à festa de aniversário de um amigo. Levei buletten [almôndegas] como finger food, havia flores em cima da mesa, e foi assim que o nome nasceu. “Buletten” também é uma espécie de alcunha para os berlinenses, e flores são algo bonito. É um bom contraste e encaixa bem na música.
O álbum soa muitas vezes mais como uma viagem pelo teu universo sonoro interior do que como um disco eletrónico convencional. Pensaste nele como uma coleção de momentos independentes ou como um todo estruturado?
Nada foi cuidadosamente estruturado. Foi mais uma espécie de diário de “testes”. No fim, fiquei bastante feliz por ter conseguido terminar alguma coisa, no meio de tantas pequenas maquetes guardadas nas minhas pastas.
Tens lançado música pela Monkeytown Records há vários anos, de Comic e Mosaik a EPs e compilações. Que importância teve esta relação de longo prazo para a tua liberdade criativa e continuidade?
Sou uma pessoa de hábitos e tenho a sorte de trabalhar com uma editora gerida por amigos. Isso torna muitas coisas mais fáceis — há confiança, comunicação e por aí fora. Lançar música, com toda a parte organizacional por trás, é algo que seria demasiado caótico para gerir sozinho.
O primeiro single, “Koko”, usa as últimas palavras de Koko, a gorila que ficou famosa por comunicar através de língua gestual. O que te atraiu nesse momento e como transformaste algo tão emocional em música?
Quando encontrei aquele pequeno vídeo da Koko no YouTube, tocou-me bastante. Não tanto pela mensagem em si, que é obviamente editada, provavelmente com boas intenções, mas por toda a situação: aquela criatura linda, num ambiente criado por humanos, a usar língua gestual, a ser filmada. Para mim, há algo de muito trágico nisso. Quis libertar a Koko de volta à natureza com a minha música, a correr por uma selva infinita, em liberdade.
O vídeo de “Koko”, criado com Nizzarob (Rolf Bremer), é simultaneamente tocante e ligeiramente absurdo, um equilíbrio muito presente no teu trabalho. Como surgiu essa colaboração e quão próximo é o teu trabalho com artistas visuais?
O Rolf é um amigo de longa data e, ao longo dos últimos 20 anos, já fez vários vídeos para mim, como “Einmal in der Woche Schreien” ou “Tränen aus Bier”. Gosto muito de trabalhar com amigos, no geral.
“Hongkong House” conta com a participação da família Liu, os pais da tua mulher, Friendly Liu, e soa quase como se estivesses a convidar o ouvinte a entrar em tua casa. Gravaste conversas espontâneas que depois foram trabalhadas na música?
Em 2024, os pais da minha mulher vieram visitar-nos a Berlim e conheceram o meu estúdio. Eles próprios criaram o texto, gravámos toda a gente e divertimo-nos imenso.
A Friendly Liu também trabalhou no vídeo de “Hongkong House”, inspirado no filme de stop-motion Hong Kong Café Let’s Fight Together. As ideias visuais partem mais da tua imaginação ou preferes dar liberdade total aos teus colaboradores?
Como a música usa as vozes da família da Friendly e é uma homenagem à cidade, à língua (cantonês) e à cultura, pedi-lhe que fizesse um vídeo a partir de um filme de stop-motion que ela tinha realizado há alguns anos. Para quem gosta da cultura dos cafés de Hong Kong, ou tem curiosidade sobre isso, recomendo vivamente o filme.
A tua música mistura melodias quase infantis e brincalhonas com um trabalho sonoro muito preciso e experimental. As melodias surgem mais por instinto ou através de um processo técnico?
Acho que as melodias vêm sobretudo do instinto, enquanto os sons podem ser, por vezes, mais técnicos. Passo bastante tempo à procura de sons interessantes, a destruí-los, a “dobrá-los”, seja como for. Experimentar é uma parte muito importante do meu processo.
Em “Hongkong House” surgem texturas não eletrónicas, quase com um toque de tango ou rumba. Já em “Watch Me Fail”, a faixa evolui de um universo glitchy e bouncy para algo próximo de uma jam de acid jazz. Estas referências são intencionais ou surgem naturalmente durante o processo?
Misturar texturas eletrónicas e não eletrónicas é divertido. No final, quero criar algo que soe natural e vivo. Muitas músicas surgem por acaso, enquanto experimento coisas. É raro começar com uma ideia muito precisa.
Nunca pareceste muito interessado em encaixar facilmente em géneros eletrónicos específicos. Evitar essas fronteiras é uma decisão consciente ou algo que acontece naturalmente?
Acho que acontece de forma natural. Quando gostas de muitas coisas diferentes, acabas por experimentar coisas diferentes. Às vezes pode ser bom focares-te numa só direção para evoluir, mas, de qualquer forma, eu não sou DJ. Estou apenas a experimentar aquilo que me interessa.
O teu universo visual parece inseparável da música. Neste álbum trabalhaste com Jens Tümmel (Vizual Worlock), HAND (Sascha Bachmann) e Karo (Karoline Hinz). Quão importante é esta “família criativa” para a existência do projeto Siriusmo?
Os meus amigos são como família e valorizo muito as suas opiniões. Quando conheces alguém há anos, existe um entendimento profundo, humor semelhante, diversão. Já não é preciso explicar tanto as coisas.
Colaboras com Jens Tümmel há muitos anos. Como descreverias esse diálogo criativo? A música influencia mais o visual ou é uma troca constante?
Somos amigos de infância. Ambos desenhamos e pintamos, mas o estilo de banda desenhada dele encaixa particularmente bem na minha música, acho eu.
Foste convidado por Mr. Oizo para trabalhar na banda sonora do seu próximo filme, Full Phil. Como surgiu esse convite e o que te levou a aceitar a tua primeira banda sonora para cinema?
O simples facto de o Quentin Dupieux me ter convidado já é razão suficiente para dizer que sim. Sinto-me honrado e estou a divertir-me muito com este trabalho.
A tua música tende a ser melódica e calorosa, mesmo quando é glitchy e psicadélica, enquanto o trabalho do Mr. Oizo é conhecido por ser mais mecânico e dissonante. Como é que estas abordagens se cruzam no processo?
Trabalhar numa banda sonora é diferente de colaborar numa faixa. Numa música, trocamos pistas e vemos o que acontece. Num filme, ele partilha a sua visão e os seus desejos, e eu tento criar algo que se enquadre.
Trabalhar em cinema mudou a forma como pensas espaço, silêncio e tempo na música?
Sim. A razão pela qual começamos a mexer nos sons é diferente. Não é tão orientada para o ritmo.
Não atuas ao vivo há quase uma década, o que surpreende tendo em conta o quão física e lúdica é a tua música. O que te levou a afastar-te dos palcos?
Muito simples: stage fright [medo do palco]. Na verdade, gostava do contacto direto com o público; na maioria das vezes era como um abraço quente depois do concerto. Ver diferentes cidades e partes do mundo é um enorme privilégio, e desfrutei muito disso. Tenho memórias incríveis desse período. Mas os dias antes dos concertos e o momento em palco são demasiado intensos para mim, e não sou um bom performer. As pessoas provavelmente sentem isso.
Com Buletten & Blumen cá fora, sentes vontade de regressar aos palcos, seja em clubes, festivais ou num novo formato? Muitos ouvintes gostariam de te ver ao vivo novamente, especialmente em Portugal.
Vamos ver. Neste momento, não tenho a certeza.
Se o Siriusmo regressar aos concertos, seria uma continuação do passado ou algo completamente novo?
Acho que teria de ser uma mistura de coisas antigas e novas. Na minha perspetiva, tudo o que faço soa mais ou menos igual, de qualquer forma.
Depois de álbuns, EPs, projetos visuais e agora cinema, o que continua a entusiasmar-te na criação musical?
Ainda gosto muito de fazer música, da procura por harmonias e sons. Em certos aspetos, continuo a ser um adolescente. Percebes o que quero dizer? Acho que perdi o momento em que me poderia ter tornado verdadeiramente “profissional”. Ainda sinto que, quando começo algo novo, não sei nada. Isso pode ser positivo, mas por vezes seria útil ter mais conhecimento. Tudo depende do que se pretende alcançar.
Quando alguém termina a audição de Buletten & Blumen, o que gostarias que ficasse com essa pessoa?
Que tenha sido, pelo menos, interessante, e que uma ou duas faixas consigam tocar emocionalmente quem as ouve.
Alguma surpresa reservada para o futuro próximo?
Não há surpresas planeadas, mas o próximo disco está quase terminado. Espero que seja lançado em breve.