Silvestre sobre All The Things: “É o meu EP mais aberto e menos sério desde que comecei a fazer música”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

Silvestre editou ontem All The Things. O projecto entra para o catálogo da Padre Himalaya e está disponível no formato 12”.

Drum breaks com sabor a 90s, hip hop alienado e house vira-lata marcam o mais recente lançamento de Silvestre pela sua Padre Himalaya. Editado apenas em vinil, All The Things marca uma fase criativa em que o produtor se sente “mais feliz e menos preocupado”, despido daquela preocupação de arrasar pistas de dança e, consequentemente, mais focado no desenvolvimento de linguagens alternativas que permitem criar uma narrativa em cima das mesmas. “Este é, sem dúvida, o meu EP mais aberto e menos sério desde que comecei a fazer música, e ainda bem”, explica o artista ao ReB. Uma conclusão de fácil compreensão, se compararmos o novo lançamento ao EP homónimo ou a Sport Theories — de 2014 e 2016, respectivamente — ambos alicerçados em fundamentos de um techno de cariz industrial.

Silvestre e o amigo Renato fundaram a Padre Himalaya há dois anos, uma net-label que faz a ponte entre Lisboa e Londres e tem em All The Things a sua quarta edição. Entre as festas e a música mais orientada por um espectro puramente electrónico, Silvestre alinha também em devaneios pelos caminhos alternativos do hip hop sob o alter-ego Retarded Temaki, que este ano se estreou com um trabalho homónimo pelo colectivo COLÓNIA CALÚNIA.

O Rimas e Batidas falou com o produtor português, actualmente a residir no sul de Londres, acerca do novo EP, a Padre Himalaya e o contraste entre a cena electrónica independente de Portugal e Inglaterra.

 



Criaste a Padre Himalaya com o Renato há dois anos, certo? Como é que surgiu esta ideia e o que esteve na base da formação da label?

Sim Já tínhamos lançado um EP meu, free, em 2014, mas foi há dois anos que começámos a fazer as coisas de forma mais organizada com o primeiro disco do Renato. A ideia foi simples: editar música nossa inicialmente e depois de pessoal que curtíssemos, independentemente do género e tentar não nos levarmos demasiado a sério.

Sei que têm lançado alguma música e organizado algumas festas entre Portugal e Inglaterra. O que é que destacas neste percurso? Já existiu algum momento que vos tenha marcado, ao ponto de sentirem que estão no caminho certo?

Houve dois momentos que destaco. O primeiro disco do Renato, porque foi um desafio perceber e organizar tudo o que é necessário desde a música até chegar às lojas. Ter ouvido o disco e ver o artwork no final foi alto feeling, porque ainda hoje oiço os sons e continuo a achar foda e original. O segundo o momento foi o nosso terceiro disco, do Mohammad Reza Mortazavi. Aí foi um processo ainda mais longo, porque tive de explicar a um artista completamente fora do nosso circuito o que queríamos e convencer a confiar no nosso projecto. Ele foi impecável, passou uns dias connosco em Lisboa, gravámos no estúdio de um amigo, Bernardo Barata, e depois uma parte foi gravada por ele em Berlim. O trabalho final foi mixado e masterizado pelo Hugo Santos. Faço um esforço para não meter expectativas, mas neste disco em particular, por todo o esforço envolvido e por ser um género diferente do que tínhamos editado antes, estava bué curioso para ver como seria a reacção do pessoal e o feedback acabou por ser mesmo bacano, culminando com irmos tocar todos a um espaço que gosto muito que é o Café Oto. É daqueles discos que acho que vai envelhecer bem.

Sinto que há uma comunidade portuguesa ligada à electrónica muito forte por aí — lembro-me de casos como o IVVVO ou a malta da Rádio Quântica. Tu que acompanhas a coisa mais de perto, sentes a expressão que Portugal tem nas pistas de dança do Reino Unido?

Sim. Houve algum pessoal que já bazou de Londres, como o Trikk e a malta da Rádio Quântica. No geral, estando em Londres ou não, tem havido uma conexão maior entre artistas portugueses e o resto do mundo. Aqui, a Príncipe continua a ter um grande impacto. Impressionante a quantidade de artistas de espectros diferentes que conhecem e gostam do trabalho deles, e bem! E continuam a lançar grandes malhas, como por exemplo o disco do P.Adrix, que vive em Manchester.

Em que estado se encontra a club scene desse lado?

Neste momento eu vivo no sul de Londres, por isso acho que conheço melhor esta zona do que outros lados. Infelizmente têm fechado alguns clubs devido à constante gentrificação de certas zonas. Mas eu sinto que no sul houve pessoas que foram criativas e, em vez de procurarem clubs para fazer festas, alugam espaços em zonas mais deslocadas. Acho que fica muito mais fixe. Há dois grupos aqui que destaco que se chamam Body Motion e GDANSE!. São festas sempre fora de clubs, numa zona industrial atrás do estádio de futebol do Millwall. Acho que em termos do pacote todo — música, ambiente e espaço — nunca fui a festas tão fixes. As pessoas deslocam-se de propósito ao spot, e isso é tudo. Quem está lá vai mesmo pela música, e cria-se uma vibe bué positiva na festa toda. Não há bares lá à volta. As únicas pessoas que às vezes vês são de uma igreja que aluga armazéns parecidos, por ser mais barato, e às vezes vês pessoas a sair da missa enquanto há pessoal a entrar para uma rave. É um bocado random mas eu acho piada.

Há espaço e portas abertas para que projectos independentes/alternativos como a Padre Himalaya consigam sonhar com voos maiores?

Há espaço, sem dúvida. Temos tido apoio de artistas, lojas de discos e espaços para fazer festas. E musicalmente dá para apresentar um som mais dissonante e estranho aqui com maior facilidade, a comparar com outras cidades. Isso é o que gosto mais. Podes tocar numa festa com muita ou pouca gente, a pista não vai vazar com facilidade. Podes seguir com uma linha estranha, desde que tenha uma ligação e sentido.

Fazendo o contraste: daquilo que acompanhas em Portugal, como é que avalias o momento que vive a cultura clubbing? Que diferenças consegues apontar entre, por exemplo, Lisboa e Londres?

Não vivendo em Portugal, a minha opinião será sempre incompleta, apesar de ir aí com alguma regularidade. No entanto, acho que está a melhorar, sem dúvida. Há alguns espaços bem fixes a aparecer e mais público. Por exemplo, toquei no Damas e curti muito! Depois Portugal tem uma coisa engraçada que é: se um artista estrangeiro for tocar aí é especial, porque não sabes quando ele vai voltar e há alguma beleza nisso. Estou também curioso para saber se a Margem Sul se vai tornar mais importante para cenas mais underground. O aumento das rendas é uma merda, mas pode ser uma oportunidade para tentar construir uma comunidade melhor noutro sítio. Até ser destruída outra vez.

Em termos de diferenças, em Londres de facto tem havido mais festas fora dos clubs habituais. Alugar um spot, safar um sistema de som e quem se interessar mesmo vai lá pela música e para ter uma experiência diferente. Também há uma variedade maior nos line-ups porque a cidade tem mais pessoas e há um investimento maior em arte. Sinceramente, eu gosto das duas cidades por motivos diferentes.

És tu quem assina o mais recente lançamento da Padre Himalaya. Do ponto de vista pessoal, o que simbolizam estas sete faixas no contexto do teu trajecto até aqui?

Simbolizam uma fase da minha vida em que ando mais feliz e menos preocupado, e por isso algumas faixas são mais simples e actuam como DJ tools, com uma abordagem um bocadinho mais punk na sua construção e detalhes. Há alguns sons ambiente e mais dreamy que têm a ver com a minha personalidade, mas este é, sem dúvida, o meu EP mais aberto e menos sério desde que comecei a fazer música, e ainda bem.

O título não poderia ter sido melhor escolhido. All The Things tem, de facto, um pouco de cada ingrediente que cabe no espectro da electrónica — dos drum breaks mais primitivos às texturas experimentais e abstractas. Descreve-me o processo que te levou até estes temas, desde a escolha dos samples ao teu input para com cada um deles.

O primeiro som em particular era uma prenda de anos a um vizinho meu de Portugal e ficou bacano, meti-o lá. E depois, de facto, vai sendo uma mudança de vibes do primeiro ao último som, uma confusão do caralho. A nível de samples: YouTube e breaks de alguns discos em segunda mão. Depois eu trabalho com um sampler, que é o ixiQuarks, e com o Ableton Live.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira