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Fotografia: Chikolaev

Ed Harris Tape é o primeiro passo do duo nos trabalhos de originais.

Silab & Jay Fella: “Somos underground e profissionais como o Ed Harris”

Fotografia: Chikolaev

Publicado durante a semana passada, Chullage foi o convidado de Sam The Kid em Na Mira, rubrica na qual o “puto” de Chelas veste a pele de entrevistador. Esta era certamente uma das entrevistas mais aguardadas pelos espectadores da nostálgica TV Chelas e o rapper que é autor de um dos hinos máximos do hip hop tuga, “Rhymeshit Que Abala“, curiosamente num beat do próprio Samuel, deu-nos uma autêntica lição de história da cultura.

Entre as quase três horas de conversa, a lenda da Arrentela notou que no rap da Margem Sul, para muitos o berço do movimento hip hop no nosso país, já pouco ou nada tem do seu traço original. E isso não tem de ser algo visto como bom ou mau. É o que é. A Internet abriu portas a toda uma nova e alargada cobertura geográfica, em termos de ritmos e sons, que é por isso normal que o ADN local se desvaneça nas gerações seguintes, criando artistas mais mestiços no que toca a influências.

Mas Chulla conseguiu detectar uma ou outra excepção à regra, tendo dado como exemplo Silab e Jay Fella, que lançam hoje o EP de estreia pela Mano a Mano, um trabalho que não deixa dúvidas quanto à sua origem: paisagens melódicas assentes em grooves quentes e carregadas de cor a fazer contraste com a poesia que se estuda nas ruas, da mais introspectiva ao egotrippin‘, que parece ter bebido tanto do próprio Chullage, como de Sanryse, Black Company ou até mesmo Da Weasel.

Em Ed Harris Tape, a dupla estreia-se ainda na produção, assinando cinco das nove faixas presentes neste EP de apresentação. BlasphAMAURADJ Maddruga, Pedro Braula Reis, Pedro QuaresmaWake Up Sleep, TNTDekor e Richard Beats integram a lista de créditos do disco, que lá mais para a frente será alvo de uma edição física em CD.



Começo por vos perguntar como é que se conheceram e de onde surgiu a ideia de formarem uma dupla.

[Silab] Isso é uma história muito longa [risos]. Foi quase na brincadeira. Fazer umas músicas, umas rimas. As coisas foram começando a ficar um bocado mais sérias…

[Jay Fella] Foi na escola. Eu andava no sexto ano, para aí. Ou no sexto ou no sétimo. Ligámos-nos mesmo através da música. Ele ouvia um som que eu também ouvia e tínhamos amigos em comum. A música surgiu num assunto durante um intervalo e começámos a falar a partir daí.

Mas o projecto Silab & Jay Fella arrancou por volta de que ano?

[Jay Fella] Nós os dois já rimamos desde 2005, para aí. Silab & Jay Fella é que é uma cena já mais recente. Começou na altura da nossa primeira mixtape, não é?

[Silab] Foi para aí em 2011 ou 2012. Porque nós já tivemos uns três nomes diferentes para o conjunto [risos].

Quais eram as vossas referências quando começaram a rimar? Tanto enquanto dupla como em termos individuais, até porque vocês têm estilos bastante distintos um do outro.

[Silab] Temos bastantes referências em conjunto de rap clássico. Nas, Wu-Tang, Bigggie… Um gajo andava sempre a ouvir esses sons. Depois acabámos por divergir um bocado em alguns estilos de música. Eu, se calhar, ouço alguns estilos de música que ele não ouve. E ele também ouve estilos que eu não ouço. Mas, dentro do rap, há um momento que é tipo uma explosão. Nós já falámos disso uma vez. É quando aparece o Pratica(mente) e o Serviço Público. Esses álbuns de rap português, e mesmo os do Boss AC, deram-nos uma grande pica para fazer rimas. Isso acho que é uma influência que temos os dois.

[Jay Fella] Ya. Foi exactamente o que ele disse. Pessoalmente, a cena que mais me marcou — e eu já andava a tentar brincar — foi quando saiu o Pratica(mente) do Sam The Kid. Aquilo teve logo um grande impacto. Tentei imitar aquilo. Não deu, mas ya [risos]. Depois foram outros, como o Allen Halloween, o NGA, Boss AC, Bambino, pessoal da Margem Sul, o Chullage… Esse pessoal todo mais clássico.

Já tocaste aí em duas referências mais locais. Eu noto bastante o ADN da Margem Sul na vossa música e, curiosamente, estava a ouvir o Chullage há dias no Na Mira e ele falou de vocês nesse sentido também. É algo que não tenho sentido muito em relação a MCs da nova escola provenientes daí. No vosso caso até consigo identificar muitos traços do Sanryse.

[Jay Fella] Ya. É uma consequência. Se calhar o próprio Sanryse ou as outras pessoas que nós ouvimos da Margem Sul foram beber dessas influências. Por exemplo, eu ouço bué o Tom e eu sinto muito M.A.C. nele. Não é algo que tu digas que é M.A.C., só que tu sentes que há ali uma certa envolvência naquilo. Naquela altura eu ouvia o pessoal da minha zona, os DaGun. Esse pessoal gostava bué de misturar o inglês, especialmente o Dubble Z. Talvez esse pessoal tenha bebido de Mirasquad, não sei. Sei que foi uma altura em que uns tinham influências de um lado, outros tinham influências do outro. Da minha zona, ouvia bué DaGun e Factos Reais.

Vocês entraram para a Mano a Mano de forma muito silenciosa. Não lançaram sequer nenhum single enquanto dupla desde então. Como é que surgiu esse convite?

[Silab] Não diria que existiu um convite ou uma proposta. Nós na altura estávamos a gravar em casa, como fizemos nas mixtapes, e estivemos a ver de sítios para gravar. O contacto até foi do Jay. Ele mandou mensagem e nem sabia que estava a falar com o TNT.

[Jay Fella] Não. Não sabia. Na verdade, eu estava à procura de um sítio para gravar porque andava a pensar, “temos de apostar nisto a sério, vamos gravar num estúdio.” Acho que na altura o nosso mic até estava com um problema. Estava à procura de sítios e vi na net uma cena da Mano a Mano. Mais tarde falei, mandei os meus sons e apercebi-me que estava a falar com o TNT dos M.A.C.. “Não pode ser” [risos]. Até fui confirmar. Foi uma cena bué natural. Depois fui descobrir a Mano a Mano e estava lá o Blasph, o Beware Jack, o Nerve… Tudo MCs que a gente curte de ouvir. Foi bué natural. Nem houve um convite formal. Foi “apareçam aí. Estamos aí todos juntos”. E a cena foi crescendo.

Isso aconteceu há uns três anos, certo?

[Silab] Eu diria, se calhar, quatro. Já nem sei. Mas fazendo as contas… Três ou quatro anos.

Tiveram a ideia de fazer o EP logo nessa altura?

[Silab] Não. Nós quando começámos a estar mais tempo com o pessoal da Mano a Mano é que nos foi dada essa ideia de que tínhamos de fazer um trabalho com beats originais. Uma cena mais profissional. Um álbum, um EP ou uma coisa do género. Então começámos o processo de ver produtores que tinham beats que fosse do nosso estilo e acabámos por encontrar bués. O TNT também nos passou beats dele, que acabámos por usar para o trabalho. Foi um bocado assim. Fomos construindo isto ao longo do tempo.

E o processo de criação durou mais ou menos quanto tempo?

[Silab] Eu diria que foi como um jogo de futebol. Houve um intervalo e uma segunda parte [risos]. Nós tivemos uma fase em que fizemos uns quantos sons. Aliás, quase todos. Idealizámos ou escrevemos quase todos. Depois tivemos uma fase em que tirámos um dos sons porque tínhamos um som novo. Entretanto fomos fazendo beats em conjunto, os dois. Algumas dessas cenas acabaram por entrar. Foi feito em duas fases e completou-se durante este período.

[Jay Fella] O processo de criação em si foi simples. O que foi mais demorado foi a escolha de beats. “Este beat sim, este beat não, este beat sim”. Mas o processo de criação e de fazer os refrões até nem foi uma cena que demorou muito. Depois haviam certos sons que a gente já não estava a sentir e então metemos outro, fomos fazendo beats.

A ideia que me deu era de que a demora fosse, talvez, por estarem ainda a aprender a produzir, visto que foi a vossa estreia nesse capítulo. E ainda por cima mais de metade do EP é produzido por vocês.

[Silab] De certa forma, sim. Mas também, de certa forma, não. Porque os beats que estão no EP, nossos, são beats que fizemos muito no início disto tudo.

[Jay Fella] Até porque nós quando fizemos os beats nem eram a pensar para entrar no disco. Fomos fazendo. Depois percebemos que gostávamos demasiado dos beats para não os ter no disco. “É um grande beat, ya. Vamos ter de meter isto no álbum”. Foi isso.

Como é que se desenrolou essa fase da produção? Desbravaram terreno por vocês próprios, tentaram aprender através de tutoriais, tiveram “aulas” com alguém da Mano a Mano?

[Silab] Eu trabalho com computadores há bué tempo por causa da minha profissão. Então sempre tive aquele bichinho de ir para o Fruity Loops mexer. Juntar um bocado os skills do PC com os da música. Mas, para ser sincero, nunca tinha perdido muito tempo com isso. Quando começámos com o EP deu-me bué vontade de fazer beats. Comecei a fazer uma cenas um bocado… [risos] É o início. Depois há um ponto de viragem para nós, que foi quando começámos a trabalhar com o Tazer [Wake Up Sleep]. Fizemos um trabalho para um documentário e estar a vê-lo produzir deu-nos mais pica para fazer beats. Pelo menos para mim, foi a partir daí que eu comecei a querer fazer beats melhores.

E de que forma é que trabalham na faixa propriamente dita? Primeiro vem a letra, o beat ou vão-se fazendo em simultâneo?

[Jay Fella] Quando fazemos um som em conjunto, escolhemos o beat e começamos a escrever separadamente. Delineamos o tema mas escrevemos separadamente. No caso dele, tem maior facilidade em escrever, ele gosta mesmo de escrever. Acredito que ele, se calhar, consiga até puxar de uma letra sem beat. No meu caso, não curto muito de estar a escrever sem o beat. Eu preciso de ouvir o beat. Comigo surge primeiro o instrumental e só depois a letra.

Talvez por seres mais melódico.

[Jay Fella] Ya. Talvez. Só pode ser isso. Eu ouço o beat e só depois é que vem a letra, vem tudo. O beat é que tem de me puxar. A ele, ou o beat puxa-lhe ou então ele arranca uma letra sem beat. E está bom. Depois mete a letra num grande beat.

[Silab] Por acaso, no EP, acho que até escrevi todas as letras com beat. Mas nem costumo fazer assim. Tenho letras soltas e vou metendo em beats. No EP, por acaso, aconteceu escrever tudo para os beats. E contigo aconteceu aquela cena da letra do “God Bless”, que é mais antiga…

[Jay Fella] Ah, ya. A letra do “God Bless” é muito antiga. A letra tem… Está feita desde a primeira mixtape. Ou seja, essa letra tem uns quatro, cinco anos ou mais. Teve um update a nível de estilo. Na primeira mixtape ainda estava um bocado cru em termos de estilo. Apliquei-lhe este estilo com que eu estou agora mas a letra é quase toda igual. É interessante, porque eu preciso sempre de um beat para escrever, como te estava a dizer, mas espetei ali aquela letra. Tive a sorte de cair bem.

Relativamente às faixas que não foram produzidas por vocês, tiveram a hipótese de trabalhar ao lado dos respectivos produtores ou recebiam os beats já feitos?

[Silab] Foi um processo de escolha. Delineámos dois ou três produtores que gostávamos e tivemos a ouvir beats deles. Uns já estavam feitos, outros faziam parte de projectos deles. Pedimos os beats.

[Jay Fella] Eles não produziram ao nosso lado. Escolhemos beats que já existiam e foi isso.

E o que é que vos levou à escolha do título, Ed Harris Tape?

[Silab] One million dollar question [risos].

[Jay Fella] Ele é que surgiu com o nome e eu gostei imenso.

[Silab] Eu surgi com o nome porque precisávamos mesmo de um nome [risos]. Eu sugeri Ed Harris Tape, com um conceito do tipo: o Ed Harris é um actor que é fixe mas não é um gajo mega conhecido. É um grande actor. Eu, pelo menos, curto bué do gajo. Até falei com o TNT sobre ele e ele também curtia bué do Ed Harris. Tu também. Achámos que Ed Harris Tape era um nome fixe porque o trajecto dele tinha um bocado a ver com o que nós estávamos a fazer.

[Jay Fella] É um bocado underground mas ele é profissional em tudo o que faz, apesar de tudo. Houve essa similaridade e tentámos fazer essa ponte.

[Silab] Mas a principal razão foi porque precisávamos mesmo de um nome [risos].

É uma ideia fixe, esse conceito de conseguir brilhar mesmo estando na sombra.

[Jay Fella] Ya. É tipo isso. Tivemos sorte por ter arranjado essa similaridade.

Que planos é que têm para o resto da promoção do disco? Vai haver formato físico, mais vídeos, têm datas para concertos em mente?

[Silab] O formato físico vai sair, mais tarde, em CD. Já estamos a tratar de mais um videoclipe e provavelmente haverá um terceiro, mas ainda estamos a pensar por alto o que é que podemos fazer. Concertos, é esperar o que vai acontecer a seguir, porque está tudo um bocado estranho hoje em dia.


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