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Fotografia: Camille Leon

Quebrar a sequência com os olhos fechados.

Sickonce: “Gosto muito do trabalho que tem sido feito pela Moriko Masumi”

Fotografia: Camille Leon

No final da semana passada, Sickonce, o alter-ego de produtor de Rafael Correia, lançou Uchū pela editora de Ghost Wavvves, Moriko Masumi. Depois de quatro volumes de Sequence e de um excelente álbum colaborativo com Perigo Público, editado pela Kimahera, o artista trouxe um EP que se diferencia daquilo que tem feito mais recentemente.

Este Uchū é um excitante desvio – sem ser uma inversão de marcha – da estética mais lo-fi hip-hop a que Sickonce se atirou nos vários volumes de Sequence. Há um lado mais experimental e electrónico, sentido particularmente nos sintetizadores e nas batidas mais desconstruídas, ligando-se mais à beat scene de Flying Lotus, Nosaj Thing ou Mndsgn, usando texturas e ambientes mais introspectivos, trabalhados duma maneira equilibrada entre o sampling e os instrumentos.

O seu método irregular, a sua necessidade em criar desafios e a viagem psicológica, espaço-temporal e geográfica de viver uma quarentena levou Gijoe até Uchū.



Para alguém com uma produção tão vasta e intensiva quanto tu, não deve ser fácil seleccionar o destino de cada ideia musical, imagino. Como curaste este EP?

Eu não tenho um método de trabalho fixo. Tanto posso estar a trabalhar com um projecto específico em mente como, muitas vezes, posso estar apenas a registar ideias. Estas músicas vieram desse segundo método, mas rapidamente percebi que pertenciam a um mundo próprio e foi fácil juntar e terminá-las, aí sim já com um conceito na cabeça e uma linha condutora. 

Tanto quanto percebi, os títulos estão todos em japonês, certo? Porque escolheste traduzi-los e porque fez sentido para este trabalho específico, sobre espaço e tempo? Como te surgiram estes temas para estas faixas?

A língua veio da relação com o universo que imaginei nessa fase avançada de colar tudo com uma narrativa. Estávamos todos em casa e, por acaso, achei fácil viajar para esses ambientes espaço-temporais e geográficos. Mas é apenas na minha cabeça. Não quis impor demasiado essa visão… acho que no fim ficou livre a diferentes interpretações e eu gosto disso. O feedback tem sido engraçado porque me estão a dar diferentes interpretações. 

Como se deu a tua relação com a Moriko Masumi? Porque fez sentido lançar Uchū pela editora?

O convite foi feito por um amigo de longa data que a música me deu a conhecer. Não hesitei porque sabia que tinha coisas que faziam parte desta zona sonora e que se calhar iam ficar guardadas por não ser a sequência natural dos Sequence.

Trabalhar com a Moriko Masumi foi fácil porque gosto muito do trabalho que tem sido feito [por eles].

Neste trabalho os teus beats têm grooves e timbres incríveis, mas a textura dos teclados, o espaço que deixas para o desenvolvimento harmónico e para os samples contidos, são pontos muito fortes do EP. Por onde costumas começar na composição? 

Mais uma vez, não tenho um método fixo, mas normalmente vem sempre de uma ideia específica ou até técnica nova que imaginei e quero experimentar. Mas pode ser rítmico, melódico, completamente técnico… não gosto quando não é desafiante. O que eu acho que faz parte constante do meu método é a minha mania (quase obsessiva) de dar um twist a meio do processo criativo. Se estiver a ir muito para algo que já conheço ou que já fiz ou ouvi, obrigo-me a sair e misturar outras coisas.

Quanto disto é samplado e quanto é tocado por ti? Como sabes qual é a medida para cada uma das técnicas durante o arranjo das faixas?

Diria que neste 50/50 – não em cada faixa mas no todo. Acho que neste momento não consigo usar só um dos métodos. Adoro software, adoro máquinas… a não ser que tenha de responder a um trabalho em uma hora e aí o sampling acelera o processo. A medida certa é a que fizer sentido para responder ao que tenho na cabeça. Não sobrevalorizo nenhum dos métodos.

És muito individualista na tua metodologia de produção? A tua composição é um processo muito solitário ou costumas partilhar muito os teus resultados para fazer alterações ao longo do trabalho?

Acho que divido muito, chamo muita gente a participar, músicos. Mas na verdade 80% das minhas ideias são feitas sozinho. Só depois na recta final é que chamo alguém para trabalhar, dependendo do projecto. Neste caso foi completamente a solo.

Tencionas editar este trabalho em formato físico, ou aliá-lo a vídeo, por exemplo?

Adoro vídeo e valorizo imenso o formato físico, como acho que dá para perceber pelo meu percurso, mas neste momento estou a curtir a velocidade de edições que este método mais focado nos pequenos EPs digitais está a permitir. Para outros trabalhos mais longos, sim, tenho ideias. Para este acho que é assim como está. Fica mais no ar…

Tens trabalhado como professor na área da produção musical na ETIC nos últimos anos. Como é que isso tem influenciado a tua forma de produzir e trabalhar nos teus discos?

Muito! Aprendo todos dias com as dúvidas deles, com formas diferentes de pensar e com o que tive e tenho de me preparar para esta função. Estou completamente viciado em saber mais e em experimentar novos métodos.

Falas, no Bandcamp, sobre como este é um trabalho para se contemplar de olhos fechados. Falando nisso, tencionas trabalhar num projecto de maior envergadura num futuro próximo, como um álbum?

Sim e estou exactamente a libertar muita música em formatos mais pequenos e variados para chegar ao ponto de “calma” e foco que preciso para ver claramente esse terceiro álbum em nome próprio. Acho que estes últimos EPs e uns participativos estão a ajudar muito a alinhar ideias.

O que tens alinhado para os próximos tempos?

Mais EPs curtos a solo mas principalmente em parcerias. O próximo é Sickonce x Subtil (está pronto). Irá também sair (em formato físico) MODA VESTRA que é o projecto que tenho com o acordeonista e fantástico músico jazz João Frade. Este ano prevejo mais uns seis/oito trabalhos, no mínimo.


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