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Shabazz Palaces: “Penso que perdemos o conceito de ‘paciência’ e o valor disso”

[ENTREVISTA] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

No cosmos, no universo, o caos é uma realidade e nem tudo corre como se estivesse a ser gerido por um algoritmo exacto: caso desta entrevista, atormentada por falhas na chamada WhatsApp… Ainda assim, Ishmael Butler, a parte vocal dos Shabazz Palaces, soa animado, bem disposto, confessa-nos a vontade de ir ver a nova versão de Blade Runner ao cinema, mas admite não ter ainda opinião formada, apesar do ruído generalizado na imprensa internacional. E, quando se prepara para nos dizer algo de relevante sobre o futuro próximo do duo que mantém com Tendai Maraire, a chamada cai, para não mais voltar.

Talvez a história continue a desenrolar-se, mais logo, no Lux, em Lisboa, em noite de feliz aniversário da Galeria Zé dos Bois. A dupla actua ainda na próxima quinta-feira, em Braga, no gnration.

 



Reparei que a vossa discografia tem evoluído com precisão, saindo novos trabalhos a cada três anos desde 2011. É uma coincidência cósmica ou é o resultado de um plano elaborado? 

É apenas uma coincidência.

Mas esse ritmo assenta-vos bem, obviamente.

Sim, eu tenho que pensar sobre isso porque também reparei. Mas sim, existe provavelmente algo cosmicamente rítmico…

Não é, como seria expectável, em 4/4, mas de três em três anos. É um ritmo diferente… 

R: Sim sim (risos) Eu gosto de ritmos diferentes.

Vamos falar sobre os dois álbuns que lançaram. Tu vês estes lançamentos como os dois lados de uma mesma moeda ou entidades separadas?

Não… Eles são duas coisas diferentes. Eles foram terminados em alturas diferentes e por isso é que não foram lançados juntos. Dois estúdios diferentes, duas cidades diferentes. Eles estão apenas ligados pelo nome e profundamente envolvidos de uma certa maneira, mas, fora disso, eles são duas coisas diferentes, dois álbuns diferentes.

A tecnologia está a moldar as nossas vidas actualmente. Vocês, americanos, até têm um presidente que fala para a nação através do Twitter. As tuas memórias remontam para outro tempo. O que é que pensas sobre o assunto? Nós ganhámos ou perdemos algo com a maior presença da tecnologia nas nossas vidas?

Perdemos… Hum… Penso que perdemos o conceito de “paciência” e o valor disso. E começámos a sentir que o imediatismo é a única coisa que tem valor. Por isso, qualquer coisa que esteja fora disso parece antiquado. Nós temos pouca consideração pelas coisas que são antigas e manifestamos sempre a mesma preocupação superficial acerca de tudo. Nós não queremos saber de pessoas que sabem coisas intrinsecamente porque sentimos que temos o conhecimento na palma da nossa mão. Nós só vemos o resultado da aprendizagem e não vemos o trabalho para aprender algo como uma mais-valia. Penso que perdemos isso.

É a era da gratificação instantânea. 

Bem, eu nem sei se é gratificação. É apenas a idade do imediatismo. Nem sei se as pessoas estão a sentir profundamente ou completamente aquilo que realmente importa. Apenas acredito que estamos a experienciar as coisas mais rápido sem aprofundarmos nada. Temos que ter consciência das nossas emoções.

Quando vocês, os Shabazz Palaces, estão a falar da vossa música, vocês têm algum código privado para se referirem ao vosso estilo? Quando falas com o Tendai, como é que te referes à vossa música? “Toca aí esse bounce cósmico-psicadélico para ver o que me sai”?

Sim, de certeza que temos. Tem evoluído durante um longo período de tempo através do conhecimento que temos um do outro, de vivermos perto um do outro, de vivermos a vida perto um do outro, e depois tocando e viajando juntos. Tenho a certeza que existe um léxico construído em conjunto e é, provavelmente, pesado e calão, mas nós não o codificámos. De vez em quando, nós surgimos com frases ou certas coisas que ficam durante algumas horas, alguns dias, algumas semanas, mas é sempre uma troca de influxo e envolve mais do que nós os dois. Existem muitas pessoas que, musicalmente e socialmente, orbitam a nossa atmosfera e que partilham o mesmo tipo de fluxo de léxico e calão.

Sim, eu perguntei-te isto porque alguns dos mais criativos críticos que tenho lido recentemente estão a lutar para descrever a vossa música, por isso penso que tem que existir algo… Vocês estão a pisar novos territórios e isso requer novas ideias da nossa parte, das pessoas que estão a escrever sobre vocês. 

Certo. Hum, isso é bom. É uma conquista boa se conseguires alcançar alguma singularidade na tua expressão artística.

Podes-me dizer o que esperar dos concertos que vocês vão dar em Portugal? Quem é que vai estar no palco e qual vai ser a diferença para as vossas passagens anteriores por cá?

O Tendai e eu vamos estar em palco. O que é que vai ser diferente desde a última vez que estivemos aí? Wow, muitas coisas. Essencialmente, eu penso que vai ser mais relaxado, confortável, audaz e capaz. Também temos um grande apreço por essa cidade, pelo país e pelas pessoas. Nós recebemos sempre muito boa energia quando vamos aí, por isso não sei o que hei-de esperar, mas estou ansioso por descobrir.

Seattle deve ter evoluído desde que vocês lançaram o vosso álbum de estreia. Como é que o cenário actual em Seattle?

Como é? É saudável. É forte. A América está a mudar. A América está a arder. A América está a explodir e a implodir…

(A chamada cai e existe um tempo de espera até voltarmos à conversa)

Uma última questão. Eu sei que vocês andam a viajar pelo mundo para apresentar estes últimos dois projectos, mas já têm planos para futuros lançamentos?

R: Sim, estamos a pensar em lançar…

(Novos problemas e a chamada é terminada)

 


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