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Shabazz Palaces no Lux Frágil: Ouvir, aprender e transformar

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Sebastião Santana

Barulhos imperceptíveis, psicadelismo, vozes em reverse e a intro de “Forerunner Foray”. A entrada dos Shabazz Palaces não poderia estar incluída na secção “normal”, algo expectável de uma dupla que se rege por outras leis. Quando nos voltámos a encontrar depois daquele transe inicial, Tendai Maraire e Ishmael Butler já ocupavam os seus lugares à nossa frente. Nave pousada e a aula de afro-futurismo estava prestes a começar.

Em noite de Halloween e véspera de feriado, as pessoas presentes no Lux Frágil não aderiram à noite temática — sim, as máscaras ficaram em casa — para festejarem o 23.º aniversário da Galeria Zé dos Bois. Para soprar as velas a um dos pilares da divulgação da cultura alternativa em Portugal, a dupla de Seattle foi escolha acertadíssima, carregando consigo muitos dos valores da ZdB: arrojo, inovação e experimentação são alguns dos pontos de ligação.

 


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E o que é que separa os Shabazz Palaces de todos os outros? Bem, muita coisa, mas podemos começar pelas singularidades da paleta sonora criada pelo duo. Perante uma plateia que preencheu (quase) todo o andar térreo do espaço à beira-rio, a música de Tendai e Butler desdobrou-se em mil géneros – se quisermos catalogar – , viajando também pela discografia da banda e pelo passado, presente e futuro da música afro-americana. E não só: se fechássemos os olhos, era possível imaginarmos um Fela Kuti nascido nos anos 80 ou 90 a integrar-se sem qualquer problema neste projecto. Jogos imaginativos que só fazem sentido quando associados ao musical de ficção científica congeminado pelos Shabazz.

Durante cerca de hora e meia, os temas ganharam expressão alienígena através da entrega idiossincrática do membro-fundador dos Digable Planets, manipulando e distorcendo as palavras que saíam disparadas pelas colunas do PA. “Kill White T, Parable Of The Nigga Who Barrels Stay Hot, Made By Hardkings@freecasino.blk” (2009), “Swerve… the reeping of all that is worthwhile (Noir not withstanding)” (2011) ou “An echo from the hosts that profess infinitum” (2011) foram algumas das músicas interpretadas em palco, exemplos claros da musculatura rítmica e modernidade do grupo. De Quazarz — o universo abordado nos dois álbuns lançados em 2017 —, o destaque vai para “Shine a Light”, clássico instantâneo que foi construído à volta do sample de “I Really Love You”, faixa de Dee Dee Sharp. Ao contrário do que se possa pensar, os fantasmas do passado não existem apenas para nos assombrar…

 


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Na audiência, nomes do panorama nacional como Bruno Pernadas ou DarkSunn assistiam a esta espécie de libertação colectiva que partia do groove avassalador de Maraire e desaguava nos versos crípticos de Butler. Depois de todo aquele jazz-hip hop-afrobeat-electrónica, o final chegou com palavras de apreço. “Obrigado”, atirou Ishmael Butler em português. Esperem: afinal, os alienígenas já vivem entre nós…

 


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