Este final de semana não nos quer dar tréguas aos ouvidos. A acompanhar o temporal que se faz sentir lá fora, são muitos os discos que têm chovido nas plataformas digitais nas últimas horas. 11 deles estão em destaque ao longo desta peça, que se somam a ElectroSoul de DJ Harrison, que já rodava por cá em jeito de entrevista com o seu autor.
Se os níveis de “humidade” musical não vos chegarem, atentem também nas edições protagonizadas por alga (Terceiro Solstício), DAYA (DAYA), Fabiano do Nascimento & E Ruscha V (Aquáticos), ElCamino & ILL Tone Beats (God Is Love), Nija (What I Didn’t Say), Julian Lage (Scenes From Above), Jay Exodus & Camoflauge Monk (Art of Expression 2), Bushy B (Lifestyle), 42 Dugg (Part 3), Curren$y (Everywhere You Look), PVA (No More Like This) e Vários Artistas (Naive Melodies).
[Roc Marciano] 656
Estão de volta as rimas com mais finesse de Nova Iorque, aliadas às batidas minimalistas tricotadas com retalhos de soul e jazz. É Roc Marciano a alimentar de novo as ruas com um braggadocious ímpar, mesclando egotrip clínico, ostentação e orgulho de quem escalou a pirâmide do hip hop sem boleia alheia, e uma generosa dose de sarcasmo capaz de fazer corar qulquer opp. 2026 ainda agora começou e o veterano, que nos tem habituado a um output bem consistente ao longo dos últimos anos, já está a fazer das suas, após um 2025 marcante em que desfilou versos sobre beats do lendário DJ Premier (The Coldest Profession) e produziu discos para Knowledge The Pirate (The Round Table) e Errol Holden (MULBERRY SILK ROAD).
[Bateu Matou] EP1
Com presença assegurada no Festival da Canção deste ano com o tema “Nos Teus Olhos”, revelado ontem, os Bateu Matou voltam a acender a chama do baile com um EP1 de quatro faixas. Este registo funciona como prelúdio para o novo álbum que a banda prevê lançar mais no final deste ano e serve também de chamariz para a edição de estreia da residência “O Nosso Baile”, que vai ter lugar na Casa Capitão, em Lisboa, no dia 22 de Fevereiro. Num clima social altamente instável como este que atravessamos no presente, o grupo afirma que: “Precisamos de baile mais do que nunca — um sitio seguro, rodeados da nossa gente, elevados na mesma clave e abraçados pelo mesmo refrão. Mesmo tristes, o baile recebe-nos de braços abertos.” O histórico cantautor angolano Paulo Flores é o único convidado registado e participa no single previamente revelado “Dombolô”.
[IDK] e.t.d.s. A Mixtape by .idk.
Apesar de se tratar de uma mixtape, IDK não concebeu o seu mais recente projecto com leviandade. Antes pelo contrário: e.t.d.s. A Mixtape by .idk. conta com um leque de verdadeiros pesos-pesados da produção de hip hop, recorrendo a batidas assinadas por gente como Madlib, Conductor Williams, No I.D., KAYTRANADA ou até mesmo o pioneiro do drum and bass Goldie. Ao microfone, também não faltam lendas a acompanhá-lo nas rimas, desde os malogrados DMX e MF DOOM a Black Thought, Pusha T ou RZA. Facilmente se percebe que e.t.d.s. A Mixtape by .idk. é um blend eclético entre vários tipos de sonoridades que pairam em torno dos universos do hip hop e da electrónica e este é um disco que facilmente nos agarra e faz cair na tentação de apertar no replay umas quantas vezes.
[Pedro Ricardo] Sem Caminhar Eu Vou
De forma algo discreta, Pedro Ricardo lançou em 2023 o seu registo de estreia Soprem Bons Ventos, que de forma orgânica foi conquistando ouvidos (e corações) e um certo estatuto de culto por entre melómanos do mundo inteiro — dos seus mais de 30 mil ouvintes mensais no Spotify, uma parte considerável vem, por exemplo, dos EUA e do Reino Unido. O plano que se seguiu foi ainda mais ambicioso, envolvendo uma mudança temporária para o Brasil e a estreia na escrita para flautas e cordas com o objectivo de chegar a um novo LP, Oxalá Cante com Tempo, cuja edição ocorre a 27 de Março e é precedida por um par de EPs, sendo este Sem Caminhar Eu Vou o primeiro dessa saga. Por entre a rica tapeçaria sonora criada por este alfaiate que cruza jazz, electrónica e música tradicional portuguesa e brasileira encontramos também a voz de António Zambujo, que interpreta duas das seis faixas. No curta-duração que se segue será Ana Margarida Prado a convidada especial do músico e compositor.
[Ari Lennox] Vacancy
O R&B de Ari Lennox torna-se mais aveludado em Vacancy, descrito pela artista como o capítulo inicial da sua “soft girl era”. A voz poderosa da cantora comunica-nos agora mensagens ainda mais confessionais e a sonoridade dos instrumentais aproxima-se mais das coordenadas da neo-soul, o género musical que mais moldou o seu ADN artístico. Na primeira edição enquanto artista da Interscope (depois de uma ligação à Dreamville, de J Cole, que tem funcionado como subsidiária da histórica label fundada por Jimmy Iovine), Lennox entrega aos seus fãs um conjunto de 15 canções que nos falam sobre o espaço vazio que ainda mora no seu coração e teima e não ser ocupado.
[Camper] CAMPILATION
E é precisamente Ari Lennox uma das vozes convocadas para dar outra vida aos instrumentais de Camper neste CAMPILATION, um verdadeiro manifesto da soul e do R&B moderno que funciona quase como um retrato das várias gerações que têm vindo a marcar esta estética. Há, por isso, um vasto leque de participações registadas por entre estas 11 canções, muitas delas vindas de nomes de grande peso na indústria da música — dos veteranos Stevie Wonder e Jill Scott aos mais contemporâneos Terrace Martin, Ty Dolla $ign, Syd e Brandy.
[Calcutá] Soon After Dawn
Após a inauguração do seu catálogo com o primeiro trabalho a solo de Afonso Serro (Piano Impromptus) mesmo na recta final de 2025, a recém-formada editora Ovo Estrelado soma hoje a segunda edição ao carimbar um novo projecto de Calcutá, pseudónimo artístico da compositora, multi-instrumentista e exploradora sónica Teresa Castro. A paleta sonora de Soon After Dawn é híbrida e hipnótica, sendo que no decorrer destes oito temas podemos escutar um emaranhado que entrelaça influências folk, drone e ambient. São 35 minutos de um ritual musical íntimo, quase fantasmagórico por vezes, que nos prende numa escuta contemplativa e profunda.
[PEEKABOO] are we dreaming?
Apesar de ser oriundo de Detroit, as antenas de PEEKABOO têm fintado o techno e sintonizam-se com as frequências da bass music e dos seus antecessores — como o drum and bass, o dubstep, o grime ou o UK garage. O seu novo álbum are we dreaming? é uma ode a isso mesmo e está recheado de malhas capazes de fazer estremecer qualquer soundsystem, às quais se aliam ainda uma série de convidados bem sonantes, como P Money, Skrillex, Flowdan ou Flava D.
[Mr Papz & Buda XL] Dor de Burro (Original Sound Track)
É como que um antídoto face à velocidade a que o sector da cultura se tem movido; um disco-comprimido com quase duas horas de duração, divididas por 29 faixas, para combater o ritmo frenético do mundo em que vivemos, especialmente dentro da bolha digital. Sem artimanhas, Mr. Papz e Buda XL assinam este Dor de Burro, que funciona como uma Original Sound Track para aquilo que é a vida real, onde não existe receio em exibir as coisas como elas são, sem necessitar de polvilhar com purpurinas para disfarçar ou parecer mais bonito. É rap sincero com sentido apurado para a exploração de novos territórios que nos vem selado pela Contentor Records, e para o qual contribuem muitos dos rostos habituais desta casa editorial da Amadora — spock, Erre K e Horus P, entre outros —, bem como alguns afiliados do colectivo — como são os casos de Sir Scratch ou Splinter.
[Luca Argel] O Homem Triste
O Homem Triste coloca a voz, o violão e as composições de Luca Argel nas mãos de Moreno Veloso, que aqui actuou enquanto produtor do novo disco do artista luso-brasileiro. Em pouco menos de 30 minutos, o cantautor explora a fragilidade masculina através de nove canções que traduzem silêncios e emoções reprimidas sobre uma estética acústica em que cabe também uma formação de cordas orquestrada por Marcelo Caldi. Entre a MPB e a folk intimista, Luca Argel procura forças no acto de expor fracassos e tristezas, símbolo de uma maturidade artística que convida à empatia e ao cuidado.
[Rapaz Ego] Fazer as Pazes
Num comunicado enviado às redacções, Rapaz Ego refere que o seu novo álbum lhe “saiu do pêlo”, sendo por isso o seu mais íntimo registo até à data. Afinal de contas, é sempre preciso algum estômago na hora de Fazer as Pazes, mas o artista mostra como é possível criar canções pop envoltas em algum experimentalismo a partir desse processo doloroso. João Borsch, Miguel Marôco, Gonçalo Bicudo e Rodrigo Sousa formam a banda que o acompanha neste processo de pacificação musical.