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Texto: ReB Team
Fotografia: Rae Blackman
Publicado a: 30/01/2026

Onde cabe tudo isto?

Sexta-feira farta: novos trabalhos de Jordan Ward, Stereossauro, Cara de Espelho ou Expresso Transatlântico

Texto: ReB Team
Fotografia: Rae Blackman
Publicado a: 30/01/2026

São 12, mas podiam ser 15 os discos hoje em destaque nesta mais recente edição da Sexta-feira farta no Rimas e Batidas, não fossem algumas dessas edições terem sido já abordadas por cá ao longo dos últimos dias: LAVOISIER, de Ace, conheceu o formato físico antes do digital (e mereceu uma breve entrevista com o rapper); já Cinema Imaginado 4 (de Bruno de Almeida) e The Good Book III (de The Alchemist & Budgie) foram alvos de notícias individuais a dar nota dos seus lançamentos.

Haja tempo para nos acompanharem nesta aventura musical que continua nos paragrafos que se seguem. E caso tenham desse mesmo tempo para dar e vender, podem sempre expandir os horizontes e ligarem-se também ao que nos trouxeram Madkutz (FURIA), Marta Del Grandi (Dream Life), Shackleton (Euphoria Bound)J, oel Ross (Gospel Music), A. G. Cook (The Moment (The Score)), Nafe Smallz (IT’S NOT YOU IT’S ME), xaviersobased (Xavier), fakemink (The Boy Who Cried Terrified), Zukenee (ZUMINATI) e Tashi Dorji (low clouds hang, this land is on fire).


[Jordan Ward] BACKWARD

Depois de apontar a FORWARD em 2023, Jordan Ward vira-se agora para BACKWARD para nos entregar um conjunto de músicas introspectivas e cheias de soul, que reflectem sobre o seu crescimento pessoal e artístico, fases de desorientação, auto-questionamento e assuntos familiares. À sensibilidade poética que notamos ao longo dos versos, junta-se a doce voz do artista, uma das que mais aplausos tem recebido por cá dentro do espectro do R&B, e também a produção executiva de Lido, responsável pela coesão sonora que faz deste disco uma obra moderna, mas também preocupada em homenagear o passado. Smino, TiaCorine e SAILORR são os convidados presentes em BACKWARD.


[Stereossauro] Tristana II

Em Tristana II, Stereossauro reinventa profundamente a personagem central que nos apresentou no primeiro registo nascido da sua colaboração com a fadista Ana Magalhães. A melancolia dos dias cinzentos despede-se da narrativa e dá lugar à luminosidade das noites felizes, tal como a guitarra portuguesa se vê trocada por paisagens electrónicas mais mexidas, que vão do house e techno ao drum and bass, criando uma experiência sonora visceralmente dançável e contemporânea que serve de metáfora para uma narrativa de libertação e entrega ao risco. Tristana II é apresentado ao vivo no dia 20 de Fevereiro, no Festival Impulso (Caldas da Rainha), e no dia 7 de Março, no Texas Bar (Leiria).


[Cara de Espelho] B

Os Cara de Espelho voltam a expandir o território da música de intervenção com o seu segundo LP, B,  onde lançam um olhar mais aprofundado sobre as contradições do quotidiano — desde a cegueira das seitas e o vazio do consumismo até à podridão da retórica política — através de uma sátira inteligente. A paleta sónica do disco expande de forma orgânica o universo singular da banda formada por Carlos Guerreiro, Luís J Martins, Maria Antónia Mendes, Nuno Prata, Pedro da Silva Martins e Sérgio Nascimento, cruzando instrumentos tradicionais e electrónica discreta com alguma experimentação.


[Expresso Transatlântico] Trópico Paranóia

Ao segundo álbum, a travessia do Expresso Transatlântico percorre a tensão entre a exuberância dos trópicos e a claustrofobia da paranóia moderna, forjada nas paisagens díspares da Serra da Estrela, Foz do Arelho e Brotas, que se infiltram no ritmo e nas texturas das canções. Sob a produção do experiente Paulo Furtado (aka The Legendary Tigerman), Trópico Paranóia marca uma nova etapa no amadurecimento do grupo composto por Gaspar Varela, Sebastião Varela e Rafael Matos, aprofundando a sua fusão de tradição portuguesa com rock poeirento, denso e bem cinematográfico.


[ByStorm] My Ghosts Go Ghost

O rapper RiTchie with a T e o produtor Parker Corey continuam a carregar a tocha dos Injury Reserve sob o nome ByStorm, homenageando o legado do malogrado amigo e parceiro Stepa J. Groggs a cada novo lançamento. Por entre a contemplatividade de My Ghosts Go Ghost, o par transforma o luto e o peso do passado numa jornada de busca por claridade e ânimo para seguir a frente. A paisagem sónica empurra o hip hop para terrenos mais experimentais, com arranjos fracturados de guitarras sombrias, caos jazzístico e elevadas doses de glitch, sobre a qual RiTchie pinta rimas confessionais que abordam temas como dificuldades financeiras ou fantasmas que o prendem ao passado.


[Casta de 85] Casta de 85

Casta de 85 cria uma nova via rápida que liga o hip hop de Lisboa e Porto através das vozes de Beware Jack e M’Cirilo, dois MCs com carreiras de mais de uma década — o primeiro com diversos trabalhos a solo e colaborativos editados, entre eles Classe Crua ao lado de Sam The Kid; o segundo é um dos talentos apadrinhados por Mundo Segundo no seu 2º Piso. E é precisamente nesse mítico estúdio de gravação a Norte, sob a tutela do próprio “Ancião”, que Beware Jack e M’Cirilo encontraram lugar para este novo culto de rimas que é Casta de 85, que hoje se estreia com um EP homónimo integralmente produzido por Blumen e com três faixas, zero versos frouxos e dois convidados — os lendários Ace e DJ Cruzfader.


[Don Toliver] OCTANE

As paisagens siderais do Mount Wilson Observatory foram fulcrais para inspirar Don Toliver a forjar o seu mais recente LP. Em OCTANE, o rapper e cantor alarga os horizontes da sua arte e procura dar contornos ainda mais experimentais à sua fusão de trap e R&B, já bem psicadélica por si só. O intuito foi criar uma experiência digna de se equiparar a uma condução a alta velocidade, já que o autor é adepto confesso do mundo automóvel, com as letras a acompanhar os níveis de adrenalina de cada instrumental: Don Toliver serve os seus versos com uma honestidade perturbadora face a temas como automedicação, gastos compulsivos e relações bipolares. O que para muitos pode ser um drama, para este nativo de Houston, Texas, é combustível para ir a estúdio e matéria-prima que resulta em canções para as massas.


[Duques do Precariado] Encarnação

A moreia na capa dá o mote: assim como um peixe feio pode ser uma excelente opção para a nossa alimentação, também as canções de difícil digestão dos Duques do Precariado são ultra-aconselháveis para a saúde da nossa sociedade. A banda de Lisboa assume-se “anti-máquina e pró-carne” em Encarnação, uma obra centrada na imperfeição humana e que celebra a presença física e o compromisso mútuo entre os músicos, numa resposta colectiva ao desamparo da condição social contemporânea. São 12 temas que tratam de assuntos mundanos e grandes questões existenciais com a mesma dose de ironia, alicerçados em arranjos que privilegiam o som acústico.


[Carlos “Zíngaro”, Helena Espvall & Vítor Rua] Where Strings Learn to Breathe Before Sound

Mais no início desta semana, a Profound Whatever trouxe-nos Where Strings Learn to Breathe Before Sound, um novo registo discográfico que é fruto de um encontro entre três ilustres cosmonautas do som. Carlos “Zíngaro”, Helena Espvall e Vítor Rua assinam aqui uma performance que valoriza mais a escuta do que o acto de tocar, onde o silêncio não é ausência, mas sim uma espécie de guia ético. A suite, dividida em três solos que são estudos de intimidade — o violino lírico de Zíngaro, a guitarra preparada de Rua e o redobrado som do violoncelo de Espvall —, culmina num movimento em trio de uma austeridade hipnótica, onde os instrumentos se aproximam por subtração, deixando o som emergir apenas quando a sua ausência já não é suportável, como uma memória frágil e precisa da própria essência da existência sonora.


[MARO] SO MUCH HAS CHANGED

Com duas importantes datas ao vivo já marcadas para os Coliseus, dias 26 e 28 de Março em Lisboa e Porto, respectivamente, MARO lança para o mundo o disco que serve de mote para essas apresentações diante do seu público. SO MUCH HAS CHANGED é um diário musical ao qual Mariana Secco confessa alguns dos seus pensamentos mais íntimos numa altura em que deu entrada na casa dos 30. Este trabalho comprova essa maturidade, já que não se deixa ancorar em formulas passadas e pavimenta um novo rumo estético para a cantautora e produtora portuguesa.


[LORD JAH-MONTE OGBON] As of Now

A espera foi longa, mas chegou hoje ao fim. O norte-americano LORD JAH-MONTE OGBON tinha-se juntado à inglesa Lex Records ainda em 2024, deixando no ar a promessa de uma nova obra que foi sendo antecipada com o lançamento de vários singles. Depois desse build up, As of Now vê agora a luz do dia e vem apetrechado de 17 faixas, que são como que um retrato das várias encruzilhadas nas quais o MC se viu envolvido, confrontando ansiedades e feridas emocionais com braggadocious voraz e humor desarmante. Chuck Strangers, iiye (aka Pink Siifu) e Navy Blue são alguns dos autores das batidas aqui usadas por LORD JAH-MONTE OGBON.


[Geologist] Can I Get A Pack Of Camel Lights?

Can I Get A Pack Of Camel Lights? marca a estreia a solo de Geologist, o músico Brian Weitz que integra os Animal Collective. Editado hoje pela Drag City, é um projecto procura responder a uma pergunta que o autor colocou a si mesmo: como soaria um álbum de hurdy-gurdy se tivesse sido concebido no ambiente experimental do selo americano SST nos anos 80? Essa busca levou Geologist numa caleidoscópica viagem instrumental e pessoal, onde o hurdy-gurdy é distorcido, amplificado e manipulado para imitar desde a guitarra eléctrica até ao shofar. O longa-duração navega por texturas pós-punk, jazz espiritual, krautrock, folk e electrónica, criando um grande número de paisagens ao longo dos seus 49 minutos, privilegiando o experimentalismo e a busca por uma sonoridade singular.

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