O tempo parece continuar a não querer colaborar, mesmo com uma das grandes festas do ano aí à porta. Seja dentro ou fora de casa, os mais foliões certamente não vão querer deixar de celebrar o Carnaval, e hoje o Rimas e Batidas propõe cinco máscaras musicais diferentes para usarem nos próximos dias: há soul de recorte requintado, R&B de vanguarda, exploração sonora sem fronteiras, um manifesto anti-pop e uma estreia discográfica de um talento a dar cartas no jazz. Sem esquecer unlikely, maybe, de Bruno Pernadas, que já passou por cá sob a forma de um faixa-a-faixa; Malandra, dos Ão, que prontamente teve direito a crítica; e 96 ao Infinito, que marcou o regresso dos históricos Dealema aos lançamentos e que muito em breve estará em destaque por cá numa grande entrevista que servirá também para assinalar as três décadas de actividade do quinteto portuense.
Se os confettis chegarem ao fim, podem reabastecer o stock com as mais recentes propostas de Karyna Gomes (Kantigas di Liberdadi), Nina R.A.E. (Românticos Não Morrem), Chris Crack (Too Late to Start Following the Rules Now), Buddy (Round Me), Tiana Major9 (November Scorpio), Ras Kass (LEOPARD EATS FACE), Chet Faker (A Love for Strangers), Charli xcx (Wuthering Heights), Salami Rose Joe Louis (Inside, with Trio, at Pattys), The Olympians (In Search of a Revival), Anish Kumar (AK Cuts: Vol. 2), DJ Tennis (fabric presents DJ Tennis), Chuuwee (Te Odio), Work Money Death (A Portal to Here), Buddah Bless (Buddah Bless The Streets), Hemlocke Springs (the apple tree under the sea), Waka Flocka Flame (LeBron Flocka James 2K26), A Boogie wit da Hoodie (Before Artistry), The Would-Be-Goods (Tears Before Bedtime), Sk8star (Designer Junkie), femtanyl (MAN BITES DOG), Feng (Weekend Rockstar), Colin Stetson, Greg Fox & Trevor Dunn (Nethering), Aaron Shaw (And So It Is), Tomeka Reid (dance! skip! hop!), Placid Angels (Canada), Momoko Gill (Momoko), KMRU (Kin) e Danny L Harle (Cerulean).
[Jill Scott] To Whom This May Concern
Está de volta uma das grandes divas da soul, 11 anos após a pegada discográfica deixada em Woman (2015). Aos 53 anos, Jill Scott lança o sexto álbum da carreira, To Whom This May Concern, composto por 19 faixas que fundem neo-soul, jazz, hip hop e até house, recorrendo a muita instrumentação orgânica, a produtores consagrados de vários quadrantes — DJ Premier, Adam Blackstone, Om’Mas Keith ou Andre Harris são alguns deles — e a uma lista de convidados que reflectem a aura visionária de uma cantora veterana sem medo de apontar para o futuro — há rimas de Tierra Whack, Ab-Soul, JID e Too $hort por aqui. O LP procura canalizar o que é descrito como sendo a “energia de uma mulher madura”, explorando temas como ancestralidade, cura comunitária e resistência. Foi esta a forma encontrada por Jill Scott para afirmar que “velhos são os trapos” e To Whom This May Concern é um poderoso manifesto de autonomia, sabedoria e empoderamento, que eleva a cantora a matriarca espiritual da música negra contemporânea. Escuta mais do que obrigatória.
[Brent Faiyaz] Icon
Esteve para ser um dos destaques do último trimestre de 2025, mas as demoras na sua conclusão empurraram-no para o arranque de 2026. Ainda assim, não é nada que impeça Brent Faiyaz de confirmar o seu estatuto de Icon neste que é o seu terceiro longa-duração. Curto mas coeso, o sucessor de Larger than Life (2023) alcança os 33 minutos de rotação sem nos deixar a impressão de que estamos a consumir uma fórmula repetitiva, fruto da abordagem contemporânea com que o cantor de Columbia, Maryland, navega no mar do R&B e da escolha das pessoas certas para o ajudarem a chegar à sonoridade desejada — desde Chad Hugo (ex-The Neptunes) e benny blanco (colaborador próximo de Ed Sheeran) ao habitual parceiro Paperboy Fabe ou à nova sensação da pop de estética mais urbana Tommy Richman. Nas letras, a honestidade de Faiyaz chega a causar desconforto de tão íntimos que são os detalhes que nos confessa ao ouvido, dando continuidade à escrita vulnerável a que nos habituou.
[Força Maior] Morte Lilás
Morte Lilás apresenta-nos a dupla Força Maior, com Pedro Alves Sousa no saxofone e electrónica e Pedro Tavares no sampler e processamento sonoro. Gravados numa quinta centenária em Ferreirim, os cinco temas trazem-nos o que parecem ser memórias sonoras escavadas por entre paisagens rurais, num diálogo entre instrumentação orgânica e apetrechos electrónicos. Morte Lilás oscila entre a quietude contemplativa de texturas que se alongam como sombras ao fim da tarde e a pulsação contida de ritmos que emergem como flashbacks involuntários, criando uma tensão entre a ruína física do local de gravação e a meticulosa progressão musical que o álbum atravessa, convidando o ouvinte a habitar um espaço liminar onde o tempo parece suspenso.
[VSP AST] LOBOTOMIA POP
Após vários singles e um EP, LOBOTOMIA POP chega-nos como o álbum de estreia de VSP AST e propõe uma cirurgia à própria ideia de música pop, adicionando-lhe texturas de punk e esquizofrenia digital para criar uma massa sonora deliberadamente disforme, mais próxima da estética laboratorial que hoje nos vem servida com o rótulo de hyperpop. Longe de ser uma colecção de canções, o disco funciona como um diário clínico de um paciente que se recusa a anestesiar a dor e a pressão, transformando-as em colapsos sonoros e reinvenções musicais. É neste bloco operatório que VSP AST assume a lobotomia como ritual de passagem necessário para sobreviver à saturação de um certo “revivalismo morto” que aponta que a indústria está a atravessar.
[Fábio de Almeida] Requiem for a Dragon
Fábio de Almeida é um saxofonista e compositor português radicado em Tilburg, nos Países Baixos, e foi por lá que se ligou à Dox Records para o lançamento do seu primeiro LP, Requiem for a Dragon. Esta é uma obra que se materializa como uma espécie de ritual de emancipação pessoal e artística, em que o “dragão” do título não é uma besta a abater, mas a própria personificação do medo que é exorcizado através da música. As oito paisagens sonoras aqui reunidas não são de catalogação fácil e pairam entre o lirismo jazzístico mais contido e a improvisação de cariz cinematográfico, com alguma electrónica metida ao barulho para dar origem a um tecido sonoro mais vivo e orgânico. Gravado no Fattoria Musica (Osnabrück), Requiem for a Dragon contou com a participação dos músicos Sjoerd van Eijk (teclas/sintetizadores), Stef Joosten (baixo eléctrico) e Pedro Nobre (bateria).