Num tempo em que parece que já tudo foi feito nos campos do jazz, do funk, da pop ou do rock, os quatro discos hoje em destaque provam que é possível continuar a dobrar os limites de qualquer coisa para encontrar, já para lá do horizonte, novas formas de comunicar através de linguagens herdadas de outras épocas. Mais do que artistas, são verdadeiros cientistas musicais aqueles sobre os quais nos debruçamos mais detalhadamente nos parágrafos que se seguem no final de uma semana que se mostrou carregadinha de lançamentos.
Quem também se junta a esta intrincada equação são: Dinis Mota (By Your Eyes), Latte (escrevi canções e são todas iguais), Capital da Bulgária (Ensina-me a Gostar), Carlão (Quinta-Essência – 75/25), Deejay Telio (+ Reservado), Bandua (Bandua (Remixes)), NBC (Carrossel), SonoTWS (Se Não Sabe Agora Sabe, Vol. 1), Central Cee (ALL ROADS LEAD HOME), Fcukers (Ö), RAYE (THIS MUSIC MAY CONTAIN HOPE.), Robyn (Sexistential), José González (Against The Dying Of The Light), Model/Actriz (Swan Songs), Nickelus F (The Undisputed), Juvenille (Boiling Point), RJ Pasin (The Indomitable Human Spirit), Kota the Friend (Local Art Dealer, Vol. 1), Slayyter (WOR$T GIRL IN AMERICA), Chief Keef (Skeletor), Fetty Wap (Zavier), Yeat (ADL), Fivio Foreign (Still Standing), DJ Nobu (Shō), Dälek (Brilliance of a Falling Moon), Pan-American (Fly The Ocean In A Silver Plane) e Spencer Cullum (Spencer Cullum’s Coin Collection 3).
[Flea] Honora
O anúncio chegou sem que ninguém estivesse à espera e as primeiras amostras surpreenderam instantaneamente pela positiva. A maturidade trouxe uma sensibilidade que desconhecíamos de Flea, carismático baixista dos históricos Red Hot Chili Peppers. Depois das audições em loop dos singles de avanço, chegou hoje a versão completa de Honora, álbum de estreia do músico nascido na Austrália, selado pela Nonesuch Records e apetrechado de colaborações não menos incríveis — o guitarrista Jeff Parker e o baterista Deantoni Parks fazem parte da banda nuclear que gravou o disco, mas as contribuições estendem-se a gente como Thom Yorke e Nick Cave. O alinhamento consiste em 10 músicas, muitas delas composições originais do próprio Flea, mas também recriações de canções icónicas de Frank Ocean ou dos Funkadelic. Para escutar e chorar por mais.
[Irreversible Entanglements] Future Present Past
Foi em bom português que os Irreversible Entanglements avisaram para o que vinham no trabalho que se seguia na sua discografia. “Juntos Vencemos” antecipou este novíssimo Future Present Past e trouxe um sabor a samba ao jazz mutante do grupo em que militam Moor Mother, Luke Stewart, Keir Neuringer, Aquiles Navarro e Tcheser Holmes. A mensagem era clara: apelar à união em tempos de incerteza e divisão, mantendo a toada social e política que sempre marcou a obra do quinteto. Música livre, com nervo e uma força sobre-humana para nos ajudar a resistir às energias maléficas que se tentam impor um pouco por todo o mundo.
[Beatriz Pessoa] Muito Mais
45 minutos divididos por 13 faixas equivalem a uma epopeia pop levada a cabo por Beatriz Pessoa no seu novo LP. Muito Mais marca uma reinvenção radical da cantautora e funciona como um grito de liberdade por parte de quem se quer desprender de quaisquer amarras estéticas. Entre pop vintage, jazz glossy e até mesmo trap, salsa e música barroca, o sucessor de PRAZER PRAZER (2023) respira fluidez e mostra-nos mais uma performance exemplar em estúdio por parte de uma das vozes mais promissoras da nova geração da música portuguesa.
[FdeVACA] Circus Suburbia
Circus Suburbia ergueu-se como um território íntimo em que nëss e Bernardo Bertrand (aka Menino da Mãe) abrem as portas da sua criatividade ao máximo e dão asas à exploração enquanto FdeVACA. Eletrónica granular, vozes etéreas, drones expansivos, pop angelical, krautrock em letargia e pós-punk de rigor laboratorial são fios presentes na teia sonora sobre a qual a dupla resume cansaços e encantos em quatro longos e meditativos temas, que tanto podem servir para ajudar a revigorar no início de um novo dia ou fazer-nos sucumbir na despedida de uma jornada não tão alegre.