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Sereias

Sereias

Lovers & Lollypops

Texto de Rui Eduardo Paes

Publicado a: 18/04/2022

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O que têm os Sereias de diferente? O facto de o vocalismo rock ser substituído pelo formato spoken word? Não, em Portugal já o faziam há muito os Mão Morta e, convém afirmá-lo, bastante melhor. Está essa diferença no criticismo social das letras? Também não: nada de novo a este nível surge que não tenha sido ouvido dos grupos punk nacionais na década de 1980, e com o mesmo elementarismo e a mesma crueza simplista e dir-se-ia até que adolescente. É como se, de então para cá, este tipo de escrita nada tivesse aprendido. Confesso, de resto, que nunca me impressionaram especialmente as palavras e a declamação de António Pedro Ribeiro. 

Será então a atitude que se distingue? Outra negativa, se bem que a postura provocatória e confrontacionista dos Sereias seja um dos pilares base do projecto e um dos seus fortes. Nada de verdadeiramente substancial poderia vir daí (quantas vezes a provocação é gratuita?), mas vem: o mais não seja, estes rapazes do Porto têm-nos mostrado que, neste país, o incómodo continua a importar.

Num concerto a que deles assisti numa vila do Oeste foi a dado momento inserido, em português, um extracto das líricas de “The End”, dos The Doors – aquele em que Jim Morrison, numa alusão ao teatro grego da Antiguidade por via do conceito freudiano que ficou conhecido como Complexo de Édipo, diz que quer “matar o pai e foder a mãe”. Foi um escândalo, com várias pessoas no público a protestarem e a abandonarem a sala. A canção dos Doors é de 1967 e isto aconteceu há uns quatro anos: meio século depois a ignorância (e a incapacidade de pensar que uma coisa são os fantasmas da psique ou as interpretações que se fazem desta e outra a realidade dos comportamentos) mantém-se, infelizmente, intacta.

O que é realmente distinto nos Sereias, e os singulariza no nosso panorama musical? Pois a música em si mesma: um punk que é alimentado por reminiscências da história do rock mais contracultural, desde o progressivo ao chamado pós-rock, bem como por generosas contribuições do funk, do jazz e do experimentalismo electroacústico. Neste segundo álbum dos Sereias há ecos de PIL, de The Fall, de Pere Ubu, de This Heat, mas há também, e sobretudo, algo que imediatamente identifica um estilo Sereias. É esta vertente que torna a banda numa referência incontornável da actualidade e numa das propostas mais cativantes do rock que por cá se pratica. Apesar de lá estar, também, António Pedro Ribeiro, mas para todos os efeitos passa por este anarquista que já foi candidato à Presidência da República a provocação que ainda nos é necessária. Pronto, estás perdoado.


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