Semibreve’18 – Dia 2: dos abismos do silêncio às entranhas da indústria

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Adriano Ferreira Borges

Sinal claro do vincado aspecto “exploratório” do cartaz do Festival Semibreve é o constante “gostaste?” que se escuta no final de quase todos os concertos. Como se o “gosto” fosse o único medidor possível para as por vezes difíceis e exigentes experiências dos espectáculos apresentados em eventos desta natureza. Por outro lado, uma pergunta assim pressupõe uma resposta imediata, mas nem todas as experiências se processam à mesma velocidade…

Ontem, sobretudo nas apresentações de Sarah Davachi com Laetitia Morais, Grouper e Alfredo Costa Monteiro, “gostaste?” poderia mesmo ser a mais inadequada das perguntas. “Intrigou-te?”, “foi difícil?”, “percebeste?” poderiam ir mais directas ao âmago das experiências proporcionadas por cada uma dessas apresentações.

A jornada musical começou com a actuação de Caterina Barbieri no Salão Medieval da Reitoria da Universidade do Minho. De facto, todos os anos há um nítido esforço do Semibreve para trazer a cidade — na sua dimensão histórica, monumental, arquitectónica — para dentro do festival, descobrindo novos cenários para algumas das suas mais desafiantes propostas. Ontem, escutar as passagens corais da música de Barbieri contidas por pedra milenar teve qualquer coisa de sublime.

Caterina Barbieri apoia a sua apresentação num sistema modular simples a que acrescenta um pequeno controlador MIDI. Daí extrai uma música profundamente evocativa, capaz de explorar todas as nuances entre o ruído e o quase silêncio, soando bastas vezes como uma rave a que se subtraiu a propulsão rítmica. E há igualmente a dimensão coral, vozes sobrepostas como osciladores num sistema polifónico a que a própria Caterina dá uma dimensão performativa extra quando se integra expressivamente no conjunto dando a sensação de estar a cantar ao vivo, ilusão rebatida pela ausência de um microfone que pudesse estar a captar a sua voz.

 



Um par de horas mais tarde, o frio minhoto de cariz outonal e o já bem vindo cheiro a castanhas assadas marcaram o caminho até ao Theatro Circo. O programa depositava em Sarah Davachi — que se apresentou ao lado da artista visual Laetitia Morais — a responsabilidade de inaugurar a complexa e exigente noite que se estendia à nossa frente.

No centro do palco, uma mesa com o equipamento de Davachi e Morais posicionava-se frente à tela gigante. Aí começaram por ser exibidas processadas imagens de areias, correndo como numa ampulheta numa clara alusão ao tempo. Imagens de dunas do que parecia o Saara antecederam depois outras imagens de viagem na Índia (com registos dos rituais banhos no Ganges, de templos, etc.) e no Nepal. Muito menos abstractas do que a música de Sarah Davachi eventualmente pediria, estas imagens perdiam-se algures entre um evidente desejo de dimensão documental e um mais real pendor de amador registo de férias. Eram desprovidas de estrutura narrativa, mas também demasiado literais para uma mais livre e aberta leitura plástica.

A música de Davachi poderia — se calhar deveria até… — ter sido apresentada sem essa componente visual. Os seus drones simples têm poder hipnótico por si mesmos sendo quase estudos sobre o carácter do tempo e da (im)permanência, desafiando o nosso poder de concentração tão subtil é a sua deriva. De olhos fechados, algures entre estados de alerta, perto do abismo do sono, a sua música suspende o tempo e a consciência. Experiência pesada.

 



A performance de Liz Harris não foi mais linear ou pacífica ou simples. Num palco com o maior volume de parafernália de todas as apresentações até aí efectuadas, Grouper dispôs-se entre mesa de mistura, sistema de playback de sons electrónicos e gravações de campo, efeitos, guitarra eléctrica e piano acústico. A resgatá-la muito subtilmente à escuridão absoluta um simples foco vertical, difuso, com luminosidade suficiente para a vislumbrarmos, mas pouco mais.

Aparentemente nervosa, Liz não esconde que estas apresentações são fisicamente exigentes, como se cada canção só se materializasse se arrancada às suas entranhas. Espectral, a sua música parece existir suspensa por delicadas teias sobre o abismo do silêncio, sempre a ameaçar o mergulho no vazio. Perante a delicadeza e a fragilidade sonora da actuação, inexplicável que não se tenha pedido à pessoa com tosse recorrente para sair porque perturbou de facto a ténue arquitectura sonora da prestação.

Sem uma única palavra dita, entre material de Ruins e do muito recente Grid of Points, Liz assinou uma preciosa viagem entre o escuro e o silêncio, expondo-nos à beleza etérea da sua música, com as canções a esboroarem-se na sua voz, como se não fossem mais do que transparentes bolas de sabão que parecem conter toda a beleza do mundo, flutuar na própria luz, mas incapazes de sobreviver mais do que alguns breves momentos. “Assombrou-te?” poderia ser a mais adequada das perguntas no final do seu concerto que trocou as voltas ao tempo e parece ter terminado apenas alguns instantes depois de ter começado.

 



A noite no Theatro Circo ainda reservava mais uma experiência limite com a prestação de Alfredo Costa Monteiro no Pequeno Auditório. Uma mesa no centro do palco, iluminada por um único foco, suportava mesa de mistura e um conjunto de objectos que, à distância a que nos encontrávamos, eram de difícil identificação mas que pelo som emitido poderiam tratar-se de molas em tensão, pequenos motores, tubos e respectivos microfones de contacto.

Explorando os espectros harmónicos dos objectos à sua disposição, Costa Monteiro foi esculpindo uma densa massa sonora que a espaços parecia traduzir o ambiente de uma siderugia ou as entranhas de uma cidade, como se as canalizações metálicas dos edifícios pudessem sustentar uma estranha sinfonia de ruídos e frequências. Foi provavelmente o concerto que mais gente “forçou” a sair talvez por ser o mais “exigente” e o menos “musical” de todos os que até aí foram propostos. Como Pierre Schaeffer defendeu, “a música tem que encontrar uma passagem entre os ruídos e os instrumentos”. “Tem que escapar”, vaticinou ainda o criador da música concreta. Foi exactamente uma fuga assim — às normas e aos limites — que Alfredo Costa Monteiro nos proporcionou ontem, ele mesmo posicionado nas entranhas de um edifício carregado de história, aproveitando todas as potencialidades da sala, incluindo a ausência de rede celular que transformou o seu telemóvel em mais uma fonte de “interferência” na massa sonora com que esmagou todos os resistentes que se mantiveram até ao final da sua apresentação.

O final na noite ainda guardava actuações de SØS Gunver Ryberg e DJ Stingray, mas nem a perspectiva de uma intensa massagem techno foi capaz de arrastar o autor destas linhas até ao gnration. A dose do Theatro Circo foi letal para a estamina disponível.

Hoje, o programa musical do Festival Semibreve conclui-se no Theatro Circo com as actuações de Keith Fullerton Whitman ao lado de Pierce Warnecke e ainda de Robin Fox. A partir das 17h00.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu