Semibreve – Dia 2: Entre o céu e o inferno

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Adriano Ferreira Borges

O segundo dia de Semibreve, em Braga, era também o que mais prometia em termos de programação: o arranque ficou a cargo de Lawrence English que conduziu uma oficina dedicada ao “ouvinte radical” no Mosteiro de Tibães, mas o primeiro evento em que marcámos presença, na Casa Rolão, foi a conversa com a fantástica e extremamente modesta Beatriz Ferreyra, 80 anos completados em Junho passado, dona de uma história rica e uma oradora deveras cativante.

Ferreyra começou por explicar a escolha das três obras apresentadas no dia anterior no Pequeno Auditório do Theatro Circo, revelando, por exemplo, que “Echos”, a peça que parte da manipulação da voz de Mercedes Cornu, é uma forma de manter viva a memória de uma familiar que em tempos quis ser cantora, tendo morrido antes de ver cumprida a sua vontade: “ao menos assim, sempre que executo esta peça, a sua voz continua a fazer-se ouvir, 40 anos depois de ter morrido”. O GRM, a abordagem intuitiva à criação, a sorte, a condição feminina, os pares e os mestres com que se foi cruzando – como Parmegiani, Schaeffer ou Ligeti – ou o papel da arte foram outros dos pontos cardeais da sua breve comunicação no espaço incrivelmente acolhedor do jardim da Casa Rolão.

 


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Uma caminhada até ao Seminário Menor revelou depois o incrível projecto arquitectónico da renovada Capela Imaculada, da autoria do arquitecto António Fontes. Foi aí que se apresentou Steve Hauschildt, o membro dos já extintos Emeralds, que aproveitou o cenário especial para nos elevar a todos a um estado de superior concentração – espantosa a quantidade de gente que escutava de olhos cerrados… – através de uma música de cariz ambiental, praticamente sem ritmos percussivos, construída a partir de pulsantes arpeggios que arrancava de um controlador MIDI e de um pequeno sintetizador. No dia anterior, Hauschildt – que foi, além de protagonista deste concerto, atento espectador em vários das outras apresentações – passeava-se com uma t-shirt estampada com o logo do mítico DX7. Mas a escolha de indumentária acabou por não ser coincidente com os sons, bem menos “digitais” e mais quentes do que os que o teclado histórico da Yamaha oferecia.

A viagem de recorte mais celestial proposta por Steve Hauschildt acabou por ser um bálsamo que preparou quem depois seguiu para o Theatro Circo para uma dupla dose de quase tortura sónica imposta por Fis e Deathprod.

 


 

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Antes da descida ao abismo imaginado pelo neo-zelandês Fis, porém, ainda espreitámos a instalação de Laurie Spiegel para um vídeo de Maya Deren, com música de delicados tons ambientais, imaginada para sustentar uma narrativa visual e quase abstracta erguida em torno de obras de uma plasticidade muito particular. Esta instalação, como outras presentes igualmente no Theatro Circo ou no espaço do gnration, propõe uma relação especial entre som e imagem, entre a imaterialidade das frequências sonoras e a dimensão concreta do espaço. Destaque especial para Permafrost, a peça do português Gil Delindro e do canadiano Adam Basanta – visitável no gnration -, de forte impacto visual, com uma série de rochas suspensas que interagem com uma instalação sonora numa reflexão sobre a passagem do tempo – e a escala humana – no planeta que habitamos.

Pergunta recorrente no final de actuações mais, digamos, “desafiantes” – que ontem ouvi ser colocada algumas vezes a pessoas à minha volta e com que eu mesmo fui confrontado tanto no final da “performance” de Fis como da de Deathprod – é a ultra-simplista “e então, gostaste?” que parece indicar que só se considera um único nível de relação com a música. Nunca se questionam as pessoas sobre o nível de incómodo, de desconforto, de perturbação ou até de sofrimento que uma obra de arte pode induzir. Talvez uma mais justificada pergunta depois da queda no abismo que a música de Fiz parece traduzir fosse “e então, sofreste?” Sim, muito, mas ainda bem: era suposto. Colocar música assim no mesmo plano reactivo da de, por exemplo, e para colocar as coisas num oposto tão extremo quanto possível, Alice Coltrane ou Iasos ou Laraaji ou até de Brian Eno nos seus momentos mais “ambientais” é não perceber a intenção primeira e primária do seu criador: a de agitar, perturbar, testar os limites do conforto.

Fis, ladeado por um manipulador de imagens que, trabalhando com motivos aquáticos quase nulos de luz, parecia confrontar-nos com a ideia do “maelstrom” melvilliano – esse medo primal do desconhecido abissal – submeteu-nos a todos a uma hora de descida ao lado mais negro do inconsciente colectivo, traduzindo em ruído trovejante o mais severo dos pesadelos. “Gostaste?”não era, de facto, a pergunta correcta neste contexto.

 


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A apresentação de Deathprod não foi mais fácil, embora a sua mise en scéne tenha sido radicalmente distinta: pano de fundo de palco ausente, revelando a parede técnica que o delimita, e um único foco de um azul nocturno a incidir verticalmente sobre a sua figura, sentada a uma secretária, como um solitário funcionário kafkiano num escritório gigante nu e opressor de tão vazio de humanidade. A “música”? Um pulsar cataclísmico e industrial de graves que parecem resultar de deslocações tectónicas, ruído branco, explosões estroboscópicas. A ideia é explorar o extremo, o negro, o vazio, o profundo. Não é suposto “gostarmos”, mas é suposto aplaudirmos, efusivamente até, o que fizemos.

 


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A exigência física destas duas apresentações pediu um intervalo – que implicou sacrificar a presença na actuação de Blessed Initiative – antes da deslocação até ao bem mais descontraído gnration, onde o ambiente era de uma mais solta interacção social. Uma ronda pelas diferentes instalações revela um público atento e curioso, aberto a novas propostas estéticas e musicais, generoso na entrega que está disposto a oferecer a artistas que, por outro lado, retribuem com ideias desafiantes e de carácter vincadamente exploratório.

Em palco, Rabih Beaini aproveita esse contexto para debitar uma amálgama de frequências graves de “aparência” analógica, gloriosamente granulares e carregadas de detalhes harmónicos que parecem massajar os ouvidos, soando como um merecido bálsamo depois da “tortura” sofrida no Theatro Circo. A noite, no entanto, terminou – para quem assina estas linhas, claro – antes da subida ao palco da dupla nacional Sabre. A antecipada viagem pelo lado mais cósmico da paisagem rave poderia ter reposto as energias e realinhado os chacras, mas o corpo, quando é submetido a este tipo de tratamento sónico, também tem o seu próprio querer. E depois de um dia inteiro a percorrer a distância entre as paisagens mais celestiais e os abismos mais infernais, o que ele queria era dormir…

 


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Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu