Semibreve – Dia 1: florestas naturais, labirintos digitais e fantasias electro-acústicas

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Adriano Ferreira Borges

O centenário Theatro Circo, em Braga, estremeceu ontem quando Wolfgang Voigt nos largou a todos no meio da densa floresta que evoca enquanto GAS. Ao longo de uma hora que pareceu eclipsar-se em segundos, vivemos todos imersos numa alternativa realidade de árvores altas que impedem a entrada de luz do sol, sentindo no corpo um misterioso e arrebatador tremor. Os efusivos aplausos no final – os mais intensos deste primeiro dia de Semibreve no Theatro Circo – traduziram também o libertar da tensão que a “actuação” de Voigt impõe, como quem se encontra depois de um tempo perdido num bosque denso, vislumbrando finalmente a luz depois de vaguear algum tempo sem rumo certo na penumbra.

O alemão Wolfgang Voigt interrompeu o silêncio editorial de GAS este ano com a edição de Narkopop, sucessor de Pop, trabalho lançado em 2000 na Mille Plateaux, a etiqueta em que apresentou, a partir de 1996, uma série de quatro visionários trabalhos que cruzavam techno e uma visão muito particular da música ambiental erguida a partir do uso microtonal de sons samplados no universo da música clássica, evocando – de acordo com as raras entrevistas de Voigt concedidas na época – memórias de juventude de passeios na floresta.

 


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Foram precisamente essas as coordenadas da apresentação de GAS ontem em Braga: com a totalidade do fundo de cena do palco do Theatro Circo preenchida com a projecção de imagens da floresta – alternando entre imagens reais, com movimentos circulares de câmara que induziam uma certa vertigem em quem procurava centrar-se no ecrã gigante, e momentos de abstracção com planos sucessivamente sobrepostos que iam decompondo essa mesma “realidade” numa tangente progressiva para a pura abstracção, como se a dada altura a floresta deixasse de ser um conjunto de árvores e sombras para passar a ser uma indescritível massa sombria – ,Voigt conduziu-nos a todos por um labirinto sonoro de texturas densas, drones contínuos e abrasivos em que por vezes se infiltrava o distante ribombar de percussão techno, como se o único ponto de referência para quem se encontrava perdido na floresta fosse o eco distante de uma qualquer rave nalguma clareira. A rave como salvação para quem se encontra perdido: como metáfora, não está mal.

Antes de GAS, os Visible Cloaks de Spencer Doran e Ryan Carlile, vindos de Portland, nos Estados Unidos, propuseram uma viagem diferente, forçando igualmente a entrada num labirinto, mas este de pura natureza digital. A evocação de um certo muzak corporativo dos anos 90, uma espécie de “microsoft rock” se quiserem, faz-se partindo do universo das fantasias exóticas digitais imaginadas por estetas como Jon Hassell ou Haruomi Hosono – o seu clássico Video Game Music de 1984 parece ser inspiração para a dupla americana (no tema “Valve”, do recente e extraordinário Reassemblage lançado na Rvng Intl., aliás, samplam um trabalho da artista japonesa Miyako Koda que, certamente não por acaso, tem o envolvimento de Hosono) – a que se acrescenta a perspectiva electrónica contemporânea, sobretudo a que se impôs a partir dos trabalhos de gente como Daniel Lopatin ou James Ferraro.

 


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Com as coloridas e abstractas imagens digitais da artista Brenna Murphy a darem o mote para as suas derivas, os Visible Cloaks procuram insuflar alguma ideia de performance através do uso de instrumentação mais “física”: o que parece ser um “wind synth”, uma espécie de cruzamento entre sintetizador e clarinete, que se toca como um instrumento de sopro, mas que soa decididamente electrónico, e um emulador de vibrafone ou marimba, igualmente electrónico, mas que se toca com baquetas. Dois instrumentos “exóticos” que servem uma ideia muito própria de exotica musical. Não esquecer que Spencer Doran foi o autor da presciente mixtape Fairlights, Mallets and Bamboo – Fourth-World Japan 1980-1986 em que explorava, precisamente, a memória de um futurismo digital nipónico que o mundo parece estar agora a redescobrir através de uma série de reedições. Por outro lado, a já referida influência das coordenadas de trabalhos de gente como James Ferraro ou Daniel Lopatin – sobretudo o fascínio que nunca esconderam pelo tal muzak corporativo armazenado em CDs com capas genéricas no arranque dos anos 90 – faz-se igualmente sentir nesta música. Jon Hassell descrevia as suas criações como “possible musics”. O que os Visible Cloaks fazem pode ser entendido como “possible futures”. Muito, mas mesmo muito interessante.

O cartaz do primeiro dia no Theatro Circo propunha ainda uma descida ao Pequeno Auditório, uma negra câmara subterrânea onde a veterana Beatriz Ferreyra nos conduziu pela imersiva audição de três peças que se estenderam por cerca de 40 minutos. As obras – “Dans un point infini”, “Echos” e “L’autre rive”, de 2005, 1978 e 2007, respectivamente – estruturam-se a partir da manipulação de sons de violinos, no primeiro caso, da voz da cantora Mercedes Cornu, no segundo, e de gravações de percussão no último. Ferreyra, tal como no passado companheiros que certamente conheceu no Groupe de Recherches Musicales, como Pierre Henry, não executou as obras, antes tocou o próprio espaço controlando, a partir de uma mesa de mistura, a dispersão dos sons por oito canais. De olhos fechados, era possível sentir a evolução das sibilantes frequências da primeira obra, das respirações ou dos fragmentos rítmicos das outras peças, surpreendendo-nos de todos os lados, numa espécie de jogo de cabra-cega, em que nada vemos, mas em que conseguimos ouvir tudo o que nos rodeia. Maravilhoso e, uma vez mais, o tempo pareceu eclipsar-se num instante. Além de manipular o espaço sonoro, pelos vistos, a grande Beatriz Ferreyra parece igualmente capaz de vergar o tempo, quando nos mergulha nas suas fantasias electro-acústicas.

Depois deste vigoroso arranque no Theatro Circo foi ainda possível rumar ao gnration para escutar Kyoka e Karen Gwyer. Hoje, sábado, o programa inclui apresentações de Steve Hauschildt, Fis, Deathprod, Blessed Initiative, Rabih Beaini e Sabre.

 


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Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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