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Scúru Fitchádu

Un Kuza Runhu

Edição Independente / 2020

Texto de Francisco Couto

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Scúru Fitchádu, que se pode traduzir do crioulo cabo-verdiano para algo como “escuro cerrado”, em português, é um projecto um pouco à parte do que se tem desenvolvido em Portugal, mas que, ao mesmo tempo, não faria sentido se tivesse surgido noutro país e noutra altura. A projecção artística de Marcus Veiga resulta de uma fusão de estilos musicais esteticamente opostos e desemboca na criação de um (sub-)género musical único, que se situa entre o funaná de Cabo Verde e o punk e o hardcore. Esta ideia de fusão, que parece à primeira vista ser um pouco absurda, já tinha demonstrado resultados positivos no seu EP homónimo lançado em 2016. No seu mais recente lançamento, Un Kuza Runhu, Sette Sujidade aventura-se pela primeira vez no campo dos LPs, conservando a mesma energia e poder de destruição que desde sempre nos apresentou.

“Os últimos serão os primeiros” é uma das primeiras frases que podemos ouvir no início deste álbum, que nos encara desde o primeiro segundo com BPMs elevados, gritos e beats pesados. “Disgadja si nta podê” introduz-nos àquilo que vai ser o disco: samples de citações pesadas e de músicas punk e metal, basslines pujantes cobertas de distorção, um ferro muito activo e agressivo que acompanha os ritmos acelerados e repescados à essência do funaná.

A isto adiciona-se ainda a poesia assertiva de Marcus Veiga, que ganha maior força com a intensidade da sua entrega com voz gritada a plenos pulmões e de alma aberta — o almadense, ao estar por detrás de toda a composição e produção deste projecto, realça dessa forma a autoridade e autenticidade.

As letras, que estão traduzidas para inglês no Bandcamp, criam várias vezes cenários extremamente visuais e expressivos, partilhando todas um imaginário sombrio, violento e subversivo. Sente-se a raiva de Scúru e a frustração que sente neste mundo governado por um sistema que sobrevive de desigualdades e discriminação. Em “Ôji txuba ta txobê Molotova”, afirma que “nada para li ka ta konta, restan ação direta” (nada importa, resta-nos a acção directa); em “Rassa Mufinu” promete que o “oprimidu ta torna Kurpadu propi” (oprimido vai-se tornar no agressor); “Manus Planus Danus” começa com um sample que afirma não apoiar violência, mas ser a favor de self-defense, e é nestes pormenores que entendemos que a origem da desordem que reina o seu universo não é obrigatoriamente má, mas sim um resultado natural de uma vida de subversão e cansaço, cansaço não só físico mas também emocional de testemunhar a desigualdade étnica, sexual e classista que persistem na nossa sociedade. A própria língua escolhida pelo músico, o crioulo cabo-verdiano, é representativa de uma comunidade marginalizada e a sua génese provém de uma desconstrução da base lexical da língua portuguesa, algo que vai de encontro à sonoridade conceptual de Un Kuza Runhu.



A faixa-título soa a algo que os Death Grips fariam se tivessem nascido ou crescido em Portugal, “Manus Planus Danos” leva-nos a riffs que parecem saídos dos Electric Wizard com um cheirinho de drum’n’bass, “Fomi 21” é a canção que mais presta homenagem à raiz cabo-verdiana, na qual canta com mais melodia e baixa um pouco o ritmo, tal como acontecem em “Badju Veneno”, que termina o álbum com os olhos virados para o céu e de braços abertos, embalado por uma concertina de uma aura tradicional e um beat muito menos industrial que o que está presente na maioria das músicas.

Scúru Fitchádu parece um daqueles fenómenos que, antes de ouvirmos, parece algo impossível de se concretizar, mas, depois da materialização, torna-se algo que parecia destinado a acontecer. A fusão sónica da aura e estética punk com o ferro e o funaná flui de uma forma surrealmente natural, um casamento perfeito que sentimos que só Sette podia ter alcançado.

Atentando à história do funaná, que nos leva aos tempos de um Portugal colonizador, percebemos que as suas raízes, tal como as do punk, nasceram na subversão, e que ambos eram repudiados pelo status quo da altura. Aos cabo-verdianos, por exemplo, era-lhes proibido que tocassem funaná, estilo no qual o povo “colonizou” o acordeão português e lhe deu uma nova vida — esta é uma das opções das várias que a tradição oral atribui à origem de um dos géneros musicais de Cabo Verde. Apesar da geografia separá-los, a ligação entre estes dois estilos é mais forte do que aquilo que parece: têm na sua essência a revolta e a liberdade. E é deste espírito que Scúru Fitchádu bebe para produzir Un Kuza Runhu, a origem de algo novo que lhe pertence só a ele e às suas raízes. Vemos um músico que afirma não ter técnica nem teoria musical por aí além oferecer algo fresco ao mundo, com uma integridade e simplicidade que desarma pela naturalidade. Vemos um artista que, sem recorrer a grandes escolas de arte europeias, se mete praticamente no mesmo patamar de artistas avant-garde, com a diferença que, ao invés de recorrer ao poder da sua técnica, recorre à energia que alimenta o seu espírito batalhador e a sua vontade de transformar esta sociedade num sítio mais justo. Sette Sujidade tenta-nos contagiar com essa mesma energia através da música, a sua arma, para que a chama da revolução reapareça nos corações de quem o ouve. Estão a ouvir?


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