SCHOOLBOY Q // Blank Face LP

review schoolboy q

[TEXTO] Alexandre Ribeiro

The Godfather e Scarface ou Boyz n the Hood e The Wire? Blank Face LP é ensaio musico-visual sobre a rua, o dinheiro e as mulheres. Existe uma certa riqueza visual no reportório de ScHoolboyQ – e que muito deve às influências que se identificam mais adiante -, mas até onde consegue ir o MC de Los Angeles, Califórnia, na tentativa de construir uma narrativa coesa?

Kendrick Lamar – que deu o concerto mais arrebatador do Super Bock Super Rock – nem devia ter espaço nesta crítica, mas é impossível dissociar dois companheiros de editora que lutam pela palavra no que toca ao hip hop. Numa troca amena de tweets com Jimmy Ness – jornalista com trabalho editado pela Complex, Forbes ou Pigeons and Planes -, eu discutia o verdadeiro valor de ScHoolboyQ, estando na origem um tweet afirmando que Q era melhor do que K.Dot. Percebi o ponto de vista – Ness falava que não precisava de ser liricamente mais dotado para ser melhor, o que até concordo: existem MCs que escrevem de forma superlativa, mas não conseguem entregar a mensagem de forma consequente. Oxymoron ficou muito aquém das expectativas para mim, mas foi de mente aberta que recebi este novo trabalho.

 



O nome do álbum parece ter as inspirações certas: a capa de Blank Face parece ir “samplar” a capa de Enter The Wu-Tang, álbum de estreia dos Wu-Tang Clan, e em “Groovy Tony” temos uma referência clara a Ghostface Killah, um dos membros mais proeminentes do colectivo de Nova Iorque, com o Tony a corresponder, muito provavelmente, a um dos pseudónimos do MC: Tony Starks. A East Coast a influenciar o som da West Coast.

Assumo que “Groovy Tony” e “THat Part” – dois dos singles a saírem antes do lançamento do álbum – deixaram-me bastante esperançoso: a segunda é, para já, das minhas faixas favoritas de 2016. “Groovy Tony” tem um instrumental – e rimas – com um mood que nos puxa para uma história de, lá está, Godfather, imaginando-se um cenário onde acompanhamos um assassino desconhecido na busca pela sua vítima. Um cenário mais elegante do que uma simples história de tiro e fuga. “THat Part” é, claramente, uma faixa egotrip com um banger autêntico como pano de fundo e “o melhor pior verso” por parte de Kanye West: o flow de Yeezy ajuda-nos a entrar em transe total, uma espécie de narcótico em forma de rima.

 



Um aspecto a realçar: a escolha dos instrumentais. Incrível o manancial de talento que ScHoolboyQ seleccionou para compor, juntamente com as suas rimas, uma tela repleta de um imaginário bem vívido. Três exemplos claros do que falo: “TorcH” é hip rock a assentar na perfeição no flow de Q e a voz rouca de .Paak – sim, ele ainda não desapareceu do mapa; “Ride Out”, que tem um verso brutal de Vince Staples, deve muito a Clams Casino – a produção é de Sounwave -;”Big Body” é um instrumental bouncy de Tyler, The Creator a piscar o olho a Pharrel Williams. A variedade, neste caso, não é sinónimo de falta de coesão, e isso é de louvar.

Apesar de Blank Face LP contar com malhas que irão perdurar na nossa memória durante algum tempo, a duração do álbum parece quebrar um pouco e canções como “Whateva U Want”, “John Muir” ou “Neva Change” facilmente sairiam do alinhamento para tornar o momento de audição mais coeso. Curiosamente, essas faixas encontram-se no meio do álbum, recuperando o fôlego a partir de “Str8 Ballin”, outro instrumental formidável de Nez & Rio e um dos melhores desempenhos de Q durante o seu quarto trabalho de originais.

 



Chegamos ao fim com “Tookie Knows II” – Nez & Rio outra vez no beat – e sentimos que Q está mais perto de chegar à sua melhor forma. Comemos pipocas, encolhemo-nos na “cadeira” e sentimos calafrios em alguns momentos, mas, no fim, não nos sentimos ligados ao filme. Esperemos pela próxima sessão!