SBSR’19 – Dia 3: rainha Janelle Monáe, uma mãe que chora e uma irresistível armadilha montada pelos Migos

[TEXTO] Alexandra Oliveira Matos, Alexandre Ribeiro e Rui Miguel Abreu [FOTOS] Manuel Abelho [VÍDEO] Luis Almeida

Nós últimos anos, o Super Bock Super Rock tem dedicado um dos dias do festival ao hip hop e, sem grande margem para dúvidas, ontem foi esse o dia, com TNT, Estraca, Migos, ProfJam e Mike El Nite incluídos na programação.

Antes desse rodopio particular, Pedro Mafama entrou em acção perante um público algo apático que demorou a carburar — apesar de ainda estar a dar os primeiros passos (o EP Má Fama saiu no final de 2017), a sua música justificava certamente outro horário. Mas tudo a seu tempo.

Vestido com roupas marroquinas com um toque especial — um estampado da marca Parmalat –, outfit assinado por Martim Alvarez, o artista lisboeta, coadjuvado pela “mana Kamila”, foi tentando lutar contra a inércia que via à sua frente, atirando bombas como “Jazigo”, “Lacrau”, “Arder Contigo” ou “Como Assim”. E a conquista do público fez-se música a música, mostrando-se confiante e, em certas partes, arrogante q.b. — os elogios aos seus próprios instrumentais foram um pormenor delicioso e sinónimo de uma segurança que só poderá trazer coisas boas daqui para a frente.

Mais para o final, e em jeito de remate, alguém gritou entusiasticamente: “és o futuro da tuga”. Arriscamos mais: é possível que Portugal, a certa altura, se torne pequenino para um som com raízes de tantos sítios diferentes e com um potencial tão grande. Só é preciso sonhar mais alto (e dar-lhe espaço e meios para se atirar de cabeça).



Com “Flow” na bagagem e muitos anos de palco, TNT enfrentou um público disperso à frente do LG. “Pouco a pouco um gajo vai conquistando aqui e ali”, disse sobre o seu percurso, mas poderia estar também a falar deste concerto.

Ladeado de guitarra e bateria que aceleravam os beats que saíam da mesa de DJ Sahid, com AMAURA a dar um balanço quente aos refrões, Daniel Freitas passou por “Fod** o Rap” do primeiro trabalho a solo, “Catarse” de MDO até “Forever Young” do EP com o mesmo título lançado este ano. À frente, os braços de amigos da Margem Sul acarinhavam-no mostrando que a persistência do rapper continua a fazer sentido.

De forma muito discreta, TNT vai afirmando um olhar particular e personalizado sobre a cultura, abraçando a tradição sem deixar de buscar o presente e até o futuro. E sabendo ceder o lugar quando é preciso e se justifica, como aconteceu no momento em que ofereceu o palco a AMAURA, talento enorme com quem tem vindo a colaborar. Bonito!



A passagem de ProfJam pelo palco principal do Super Bock Super Rock merece figurar na história da música portuguesa deste milénio: um artista que se ergueu de forma independente, que afirmou uma linguagem própria, consegue congregar à sua frente uma multidão imensa que agarra desde o primeiro segundo para depois a levar numa viagem recheada de emoções fortes. Não é para todos. Mas foi assim com o Prof Mário.

Vestido de branco, como vem sendo habitual nas apresentações de #FFFFFF, e com farto bigode escola Burt Reynolds, o “Xamã” enfeitiçou-nos a todos, sobretudo quando chamou ao palco a mãe, uma simpática senhora chamada Fátima, para, abraçado a ela ou de joelhos no chão, lhe dedicar a verdadeira canção de amor que é “À Vontade”. O gesto não deixou ninguém indiferente e só corações empedernidos não terão vertido uma lágrima. “Se não fosse a minha mãe e o meu pai eu não estaria aqui a ver-vos”, disse, antes de pedir aos seus devotos seguidores que não esqueçam igualmente os progenitores: “e se não fossem os vossos pais vocês não estariam aqui”. Óbvia verdade, mas ainda assim poucas vezes lembrada. Estes “sermões” que lhe saem em “voz da missa” só acontecem porque Prof não enjeita a missão de levar a palavra às massas…

Com Mike El Nite, “DJ on the mic”, a dar-lhe as “backs” de forma enérgica e Gui a marcar o pulso na bateria, Prof ensinou que o algodão doce do auto-tune não engana a força das palavras, rimou acapella, desfilou flows para todos os gostos e deixou claro, quando recordou temas como “Xamã” ou “Mortalhas”, que já há muito que anda a matar o game, não é só de agora.

Mas, naturalmente, foi com material mais recente que o público mais vibrou, material aliás que justificou a vinda à boca de cena de alguns convidados. Além do já referido “À Vontade”, que contou com Fínix MG em palco a entregar o seu verso com a força habitual, houve ainda Lhast a brilhar na enorme “Tou Bem” e, extra alinhamento de #FFFFFF, YUZI a entrar com “Gwapo”, a prova de força da família Think Music em que o patrão Prof declara que o seu metafórico objectivo é o Ferrari na garagem. Saber que na ida até ao topo Mário não vai esquecer a “cota” diz-nos muito sobre a importância da família para este homem de bigode farto: a sua, de sangue, a outra, da música, a Think Music, e a outra ainda, bem mais vasta, que completa com os fãs. E são muitos, deu para perceber.

ProfJam sai desta 25ª edição do Super Bock Super Rock como um dos grandes vencedores do festival e prova, como Slow J já tinha feito, que o hip hop nacional tem estofo para aguentar embates de magnitude máxima. A música já está lá, os artistas mais destacados idem aspas, faltam agora as produções de encher o olho como a que os artistas americanos levaram ao mesmo palco. Lá chegaremos.



Já tínhamos dito que a reacção do público a “Tadow” na actuação de FKJ fazia prever uma boa recepção a Masego e assim foi.

Pegando menos vezes no saxofone – comparando com a actuação há menos de um ano no Super Bock em Stock – o músico de origem jamaicana faz-se valer de uma voz quente e uma energia incomparável que contagiam o público. O EP “The Pink Polo” e o seu primeiro álbum, lançado em 2018, Lady Lady foram uma excelente banda sonora para um pôr do sol bem cor de laranja num céu amarrotado a que muitos quiseram tirar fotografia. Pelo meio vários covers dão-nos a certeza de que o artista se inspira em Andre 3000, Pharrell, entre tantos outros, tentando construir a sua personalidade artística a partir daí.

E está num bom caminho: ninguém cria esta mistura que vai do jazz ao house, sem nunca perder a temperatura, como ele.



Quando entrou em palco, lindíssima nas suas fantasiosas vestes que evocam uniformes circenses ou talvez das marching bands universitárias que tanto têm inspirado grandes mulheres negras ultimamente, Janelle Monáe não tinha à sua espera uma moldura humana condizente com o seu mega-talento, mas quando o abandonou, a estrela americana deixou um mar de gente rendida aos seus pés, prova clara da força da sua música, da sua postura e da sua mensagem. A ultra-emotiva “Cold War” serviu para nos relembrar pelo que importa lutar: pelas mulheres, pelas mulheres trans, pelas pessoas LGBTQI+, por quem emigra e trabalha e luta para fugir à opressão, pelas minorias. “Vamos impugnar Donald Trump”, exclamou. A julgar pela força da música talvez já não falte muito…

Neste concerto que coloca um ponto final na tour Dirty Computer Experience, Monáe evocou o seu mestre Prince que neste mesmo festival assinou, quase há uma década, um tremendo concerto. O guitarrista Kellindo citou o solo de “Purple Rain” que transportou um celestial coro para uma superior dimensão, para um “safe space” onde, ainda que por um momento apenas, todos nos sentimos melhor.

A música de Janelle Monáe tem essa qualidade de elevação, de nos deixar a todos despertos, bem “woke”, conscientes de que podemos ser melhores. E talvez isso explique porque não atingiu ainda a mesma esfera pop de Arianas ou Swifts: há demasiado lastro sério nas suas canções, que são de resistência e de transformação, para a açucarada estratosfera mais comercial. Mas, hey, se a Rainha Bey lá chegou, porque não ela?

Seja como for, a perfeitamente coreografada e exultantemente visual apresentação de Janelle, mais uma nesta presente temporada de grandes presenças femininas nos maiores palcos nacionais — de Solange, Erykah Badu e Rosalía a Grace Jones ou Lana Del Rey —, mostra que ela está pronta para voos ainda mais altos. E o material tem a força para a catapultar para as estrelas.

“Django Jane”, “Q.U.E.E.N.”, “Electric Lady”, “PrimeTime”, o tema que desembocou na vénia púrpura a Prince, o hino às vaginas “Pynk”, “Yoga”, “I Like That” ou o tremendo final com a “princepesca” “Make Me Feel” e ainda “Cold War” e “Tightrope” foram executadas com absoluto brilhantismo, com a sua voz a não falhar uma nota, poderosa, carregada de alma e de força, cristalina, mas também magoada quando tem que ser, consciente do peso das palavras que carrega.

Janelle tem estofo para se juntar às maiores deste mundo, mas ontem deixou claro que não o fará a qualquer custo e que a música é o campo de batalha em que pretende antes de mais nada lutar por um mundo melhor, muito mais do que atingir o primeiro lugar dos tops. Mas se continuar a despertar assim consciências, com uma música híbrida em que o r&b é tubo de ensaio com que cria fórmulas de fusão em que cabem o p-funk, a soul, os blues, o modernismo electrónico ou o classicismo vaudevilliano do jazz, Janelle há-de lá chegar. É inevitável. Um dia teremos todos que celebrar um mundo pós-Trump, certo?



Em modo poupança de energia para o concerto de Migos. Ainda a tentar fechar a boca depois de ver Janelle Monaé rebentar com o palco principal. Arrastámo-nos até ao palco LG julgando que seriam poucos os festivaleiros por ali, mas estávamos redondamente enganados. Estraca já conquistou o público e trouxe um espectáculo pensado ao mais ínfimo pormenor.

Ao flow e energia irrepreensíveis do jovem rapper juntaram-se o DJ Andrezo, o veterano Bdjoy a fazer as vezes de mestre de cerimónias e ainda, para algumas músicas, três b-boys. Nem o grafitti ficou esquecido e no tempo do concerto um writer coloriu o palco com a palavra Estraca numa parede de cartão. Mais do que a spray, marcou-se aqui a vontade de reescrever o presente com lembranças do passado da cultura hip hop.

As rimas do olhar de Estraca sobre o mundo eram no entanto o antónimo do que víamos no público. Desde a crítica a Pinto Balsemão num festival de cobertura SIC até à crítica às “tias de Cascais” que víamos no público cantar alto e bom som as suas letras: não sabemos se foi o rapper do bairro da Musgueira que deu um tiro no pé ou se existiam por ali mais papagaios que fãs “reais”.



Primeiro pensa-se enquanto se dança, depois dança-se para mais tarde reflectir. De Atlanta para o Meco, em estreia absoluta em Portugal, Quavo, Takeoff e Offset foram recebidos como se se tratassem da maior boy band da actualidade: houve desmaio, choro e histeria aquando da sua entrada em palco, um início caótico que teve “MotorSport” como banda sonora.

Dos três cabeças de cartaz, os Migos eram os únicos que nunca tinham passado por solo nacional e isso pode ter feito diferença nas contas finais. Recorrendo apenas à visão privilegiada a partir da zona VIP, a moldura humana à frente do trio pareceu a maior dos três dias. Nada que espante quem esteja atento ao que se passa no mundo: nos últimos anos, os autores de Culture tornaram-se nome de primeira liga do rap e da pop, chegando a escrever para Beyoncé e Jay-Z — “APESHIT” foi “montada” por Quavo e Offset.

“Hannah Montana”, “Slippery”, “Narcos”, “Walk It Talk It”, “T-Shirt” ou “Bad and Boujee” foram disparadas com as mesmas armas: o triplet flow, o auto-tune, as vozes pré-gravadas e os ad-libs. A pirotecnia era dispensável, mas pouco importou para a festa, uma celebração total com direito aos habituais moshs em concertos trap. E Monáe no backstage a divertir-se tanto quanto nós…

A cultura (que neste caso inclui a música, a roupa e as palavras) fez-se notar através de artistas e público, um quadro que ignora completamente classes sociais e estatutos.



Para fechar as contas da melhor maneira, Mike El Nite saiu das costas de ProfJam e foi directamente para o centro do Palco Somersby. Noite em grande para a Think Music, editora que, apesar de já ter alcançado um nível de popularidade considerável em pouco tempo, parece ter um enorme potencial de crescimento.

De J-K a Fínix MG, passando por Rita Vian, Kaixo e Diogo Sousa (baterista que o acompanha ao vivo), o autor de Inter-Missão, a pedra-basilar da apresentação, levou a palco uma série de colaboradores que, de certa forma, têm ajudado a alimentar a ideia de que o rap sempre foi uma caixa demasiado pequena para si. Porém, a maior surpresa (e a confirmação do que dissemos anteriormente) aconteceu com a entrada de Pedro Mafama para a estreia de um novo tema produzido por rkeat. Com este triunvirato, não há anca que resista. Nem existem terrenos proibidos. Ficamos ansiosamente à espera da versão oficial.

O Justiceiro também teve a sua quota-parte e “T.U.G.A”., a par de “Dr. Bayard”, foi um dos momentos mais celebrados da actuação. Apesar do seu percurso no festival distanciar-se daquilo que aconteceu com Slow J e ProfJam, não seria estranho vê-lo, se entretanto editasse um álbum com maior envergadura, chegar ao palco principal. A visão está lá.

Depois de Kendrick Lamar, Future e Travis Scott, mais o primeiro e o último do que o segundo, mostrarem em anos anteriores que o hip hop é uma aposta certeira, os Migos deram força a essa proposta, “ajudados” pelos nomes distribuídos pelos restantes palcos. E ninguém nos pediu nada, mas nós sugerimos na mesma: J. Cole, Childish Gambino ou Drake caíam tão bem na programação de 2020 do Super Bock Super Rock…


ReB Team

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