SBSR’19 – Dia 2: da surpresa Roméo Elvis aos titânicos Ezra Collective

[TEXTO] Alexandra Oliveira Matos, Alexandre Ribeiro e Rui Miguel Abreu [FOTOS] Manuel Abelho [VÍDEO] Luis Almeida

Perdidos na variante vindos da praia: tomamos assim a liberdade de mudar a terceira faixa de Santa Rita Lifestyle do Conjunto Corona. Os festivaleiros parecem ter apanhado a toalha da areia o mais depressa que conseguiram e ainda em roupa de banho correram para o palco EDP para gritar “Gondomar” mais vezes que o próprio Valentim Loureiro — bem o disse dB que de 45 minutos de concerto pelo menos 10 seriam a gritar como o político. Se o primeiro dia foi marcado por uma afinada Nova Lisboa, o segundo dia de Super Bock Super Rock começou com uma ode aos arredores da Invicta e todas as suas idiossincrasias.

Nada intimidados pelo calor que, talvez, tenha inibido os moshs habituais, David Bruno, Kron Silva, Logos e o Homem do Robe tocaram sem falhas o mais recente álbum. À actuação temperada quanto baste de hidromel não faltou o ingrediente PZ para “Perdido na Variante” e, perto de casa, Blasph para dar aquele “Pontapé nas Costas” no trabalho Lo Fi Hipster Trip. Apesar do bem-sucedido e relacionável estilo de vida de Santa Rita, com lúdicas paragens em bombas de gasolina, o público continua a vibrar com “Chino no Olho”. A música de Cimo de Vila Velvet Cantina, de 2016, é sem dúvida um clássico.



Directamente da Bélgica, Roméo Elvis, um fenómeno no seu país, pode ter encontrado um dos maiores desafios da sua carreira em Portugal. Porém, o cenário não foi tão dramático como se possa pensar: apesar do menor reconhecimento, a linha da frente da audiência percebia perfeitamente o seu idioma: franceses e belgas uniram esforços para sustentar a performance do artista e, spoiler alert, a missão foi bem-sucedida.

Chocolat, o seu disco de estreia e a peça-chave da digressão, cedeu a maioria dos temas para a apresentação. Servido por quatro músicos que poderiam muito bem ser os BADBADNOTGOOD belgas — a sensibilidade para se adaptarem a beats de todas as estirpes sem tirar-lhes identidade foi um dos pontos altos –, Elvis mostrou-se comunicativo e nunca parou de dar indicações, mesmo que algumas delas possam, naturalmente, ter-se perdido na tradução.

De “Normal” a “Parano”, passando por “Bruxelles Arrive” (que valeu uns quantos “Lisboa Arrive” e “Portugal Arrive”…) e “Malade”, o artista foi da performance que exigia algum teatralismo ao lado mais indie do rap (o frontman pegou na guitarra quando assim teve que ser), incitando ainda aí a uma série de moshs que colocaram o Palco Somersby em estado de sítio.

Por tudo o que foi dito anteriormente, Roméo Elvis candidatou-se automaticamente a maior surpresa do segundo dia. Seja em que país for, pelos vistos, basta dar um pontapé numa pedra e sai lá debaixo uma nova estrela de rap.



Bem menos agitado foi o concerto de FKJ. Irrepreensível a tocar os inúmeros instrumentos que o rodeavam em palco, das cordas aos sopros, o músico francês entregou um balanço morno que se perde ainda mais numa crescente falta de ética festivaleira — são cada vez mais as pessoas que optam por conversar em alto e bom som no meio da multidão enquanto quem comprou bilhete para ouvir música ao vivo se esforça para fazer valer o dinheiro que gastou.

French Kiwi Juice saberia melhor com o sol a pôr-se no horizonte, ou na “Skyline” como bem começou por tocar. A música de Vincent Fenton, apesar de, genericamente, a classificarem como house, soa mais a peles aquecidas pelo sol e corpos ao sabor da brisa. Ainda assim, satisfaz sempre ouvi-lo. A setlist fez-se maioritariamente do seu único álbum, lançado já em 2017. Pelo meio o público agitou-se com uma remistura de “I Know What You Want” de Busta Rhymes e com “Tadow”, fazendo-se antever uma grande recepção a Masego no último dia de festival.



“Somos os Ezra Collective e fazemos afrobeat e jazz para dançar. A nossa música é música de celebração”, alertou, logo a abrir, o líder do colectivo britânico, o baterista Femi Koleoso, antes de guiar os restantes músicos por um explosivo set no palco Somersby do Super Bock Super Rock.

Com outro trompetista em palco que não o habitual Dylan Jones e sem o percussionista Juan Pablo ao seu lado, Femi, o seu irmão TJ Koleoso, no baixo, Joe Armon-Jones, nos teclados, e James Mollison, no saxofone, tiveram que usar todas as suas consideráveis capacidades para contrariarem o irresistível apelo que Kaytranada exerceu sobre a multidão a partir do palco principal. Quem decidiu quedar-se por ali — escassas centenas nada condizentes com a qualidade ali apresentada… — pode muito bem ter assistido ao melhor concerto do festival até agora…

Puxando pela memória, não nos recordamos de uma proposta comparável aos Ezra Collective na história deste festival. Houve Brand New Heavies em 2008 (no cartaz apresentado no Porto numa das edições em que o SBSR se dividiu entre duas cidades), mas essa é, definitivamente farinha de outro saco: à suavidade “loungey” dos pontas de lança da cena acid jazz, os Ezra contrapõem hoje músculo, imparável cadência afrobeat, volume e uma óbvia recusa de qualquer aditivo que lhes possa diluir a natural força de que se compõe o seu som. Daí a vénia a Sun Ra numa intensa releitura de “Space is The Place”. Sim, é verdade, escutou-se música do mais notável cidadão cósmico de Saturno na Herdade do Cabeço da Flauta. Notável.

Femi Koleoso é um impressionante baterista, capaz de combinar a força titânica de Keith Moon, a sofisticação livre e inventiva de um Max Roach e ainda assim reter as lições dos mestres do groove, de Zigaboo Modeliste dos Meters a Clyde Stubblefield, o “funky drummer” de James Brown. Quando Femi martela, martela a sério. E TJ, o seu irmão baixista, é outro portento, capaz de recorrer ao pulsar das caraíbas para sustentar o seu discurso e no momento a seguir partir para uma deriva que nos dá nós no cérebro ao mesmo tempo que nos desata os nós dos quadris. E por cima de tudo, Armon-Jones pinta de cores harmónicas o material de You Can’t Steal My Joy, seguríssimo no seu discurso pianístico ou nos sublinhados do Hammond, libertando os sopros para voos mais altos, mas sempre assertivos, com o condão benigno de nos incendiar a alma.

Música celebratória, sem dúvida, capaz de nos encher o espírito de alegria, música de resistência e de transformação foi o que ali se ouviu. Venham mais destes, por favor. A umas centenas de metros dali, no entanto, havia outra importante estreia em solo nacional que não podíamos deixar de testemunhar e só isso nos fez, a muito custo, rumar ao palco Super Bock, na certeza de que nos voltaremos a cruzar com estes senhores.



Depois de dois falsos alarmes que nos deixaram primeiro a ferver de expectativa e logo a seguir imensamente desiludidos, eis que Kaytranada aterrou em solo português! Uma das actuações mais esperadas do Super Bock Super Rock antecedeu a vinda de outro nome igualmente grandioso, DāM-FunK, dois momentos em que a individualidade das apresentações se traduziu em cuidadas selecções musicais. Durante as últimas horas da programação de ontem, o bom gosto imperou, definitivamente, na Herdade do Cabeço da Flauta, no Meco.

Num palco em que vídeo e luzes serviram como mero complemento, não acrescentando grande coisa, Celestin, praticamente escondido, não precisou de se exibir e entregou um set irrepreensível que já foi testado em dezenas, se não centenas, de palcos. Pelo meio, curtíssimas pausas para agradecer àqueles que marcaram presença, perdendo a timidez a cada intervenção.

O público — em número visivelmente menor do que no primeiro dia de festival — não se coibiu de fazer as mais bizarras coreografias, balançando-se freneticamente ao som de um alinhamento composto exclusivamente por material feito e remisturado por Kaytranada. “Lite Spots”, “All Night”, original de Chance The Rapper, e “Glowed Up” foram momentos de maior celebração, mas, no geral, pode-se dizer que qualquer música escolhida por Kay foi um tiro certeiro.

E pronto, falta mais um dia para o futuro. É hoje, caros Migos…