“Devemos reconhecer que tudo quanto nasce deve estar pronto para um doloroso declínio.” Não estamos, porém, certos de que seja esse o caso quando escutamos o último álbum de uma das mais enigmáticas bandas deste século — SAULT. A verdade é que Chapter 1, apesar do título sugerir um (re)início de qualquer coisa, não inova o suficiente para afastar completamente a suspeita de um declínio. Ou, pelo menos, fica a impressão de um trabalho feito a partir de ideias que sobraram de outros anteriores — e se assim for, podemos desconfiar que se anuncia uma descida que será dolorosa para os fãs.
Por outro lado, é preciso dizer que a música deste registo transparece em cada segundo uma identidade clara e uniforme — seja pela secção rítmica, seja pelas vozes e melodias — que obedece a um idioma, a um ambiente sonoro que é, sem sombra para dúvidas, a alma dos SAULT. O groove é a essência dessa alma e permanece intocável. Este LP só poderia ser feito por eles, soa a SAULT do princípio ao fim e sabe-nos a Londres. Agora, até que ponto a banda está enredada nessa teia litúrgica da qual não se consegue libertar para inovar, isso é uma questão mais complexa e que fica, para já, sem resposta.
Acreditemos ou não, é mais difícil lidar com o sucesso do que com o falhanço. Sobram casos conhecidos de músicos e bandas que, a partir do momento em que o atingiram, começaram a imitar-se a si próprios. Será esse o caso? Bem, certamente não era o que esperaríamos para o colectivo inglês que ainda este ano foi agraciado, pela primeira vez, com o BRIT Award na categoria de Melhor Artista de R&B.
Mas se a principal virtude de uma obra ou de um artista é ser um espelho do mundo, cremos terem conquistado pontos aí. Chapter 1 é um álbum repleto de mensagens contraditórias, por vezes confusas, e com algumas nuvens negras no horizonte. Mas também há sol. Guerra, amor, ódio, esperança, fé e misericórdia. Não é este, afinal, o mundo em que estamos?
A música dos SAULT continua a ser uma máquina de emaranhar paisagens urbanas que resiste à roda das estações. Seja quando é o fogo de uma lareira na sala, seja quando é o refresco de uma esplanada ao pôr-do-sol ou quando é a própria cor e paciência de uma manhã chuvosa no trânsito. É esta virtude que permanece mesmo quando letras, pausas e silêncios convidam até as almas mais inóspitas à conversão e à contemplação, contra um certo ar do tempo.
Subsiste a sensação de déjà vu em algumas linhas de baixo e pela repetição de padrões rítmicos da bateria. Fórmulas recalcadas começam o disco em “God, Protect Me from My Enemies”, ainda que expanda horizontes no sintetizador. E há lugares revisitados em “Love Does Not Equal Pain”, e uma excessiva repetição de versos. “Protector” será, provavelmente, a faixa que mais conquistará espaço entre playlists, sobretudo pelo diálogo orgânico entre a bateria e o baixo e um certo tom de blues. Há qualquer coisa especial aqui, é verdade. Uma progressão harmónica que é esperançosa. Uma certa perfeição que remete para alguns dos mais marcantes temas da banda, embora não tenha, talvez, encontrado o final certo — ou então é somente o desejo para que a música continuasse.
O mistério foi-se revelando ao longo dos anos, apesar do grupo continuar a resistir às imperativas leis do mercado — e com isso, talvez algum interesse se desvaneça. Este será, no entanto, um álbum que agrada à grande maioria do seu público e ninguém os acusará de incoerência. Não há crises de identidade que os assole. Já do ponto-de-vista criativo, não estamos tão certos. Continuam no âmbito da música negra, do soul, do funk, com músicos virtuosos que fizeram a escola do rhythm and blues e arranjos vocais interessantes. Desilude porque não traz de novo, pelo que não experimenta e por algumas nuances do reggae que, provavelmente, esqueceram ou deixaram de lado. A sonoridade e BPMs que os levou até perto da música eletrónica no álbum 10 foi também, de algum modo, abandonada neste Chapter 1, preferindo uma (re)aproximação ao rock — evidente na faixa que dá nome ao trabalho. E, embora parecendo querer conquistar um altar e apontar para uma certa irmandade, a música dos SAULT é sempre sobre percorrer as ruas de uma cidade.
Por outro lado, “Good Things Will Come After the Pressure” e “Create Your Prophecy” sublinham a celestialidade das harmonias vocais que nos habituaram e que continuam a evocar o gospel. “Lord Have Mercy” é a que mais convida ao resguardo, ao recolhimento, à tal viagem estelar pelo interior da alma. É a que abre a porta de um templo sossegado numa metrópole ruidosa. E, embora este disco continue na órbita da espiritualidade, será sempre uma boa escolha para um astronauta com saudades de casa e do movimento terrestre.
Os SAULT mantêm a sua identidade, mas se considerarmos que a inovação e a audácia são o invólucro que alberga essa alma — que é sobretudo um groove sólido com timbres e harmonias vocais que nos libertam de uma certa ansiedade coletiva —, surgem as dúvidas sobre se há ou não uma crise criativa no horizonte. Ou, se por outra, a aura de mistério e novidade que sempre os envolveu não começa a esgotar-se nos limites dessa identidade.