Saucin’ #4 no Musicbox: um diamante em bruto à espera de ser lapidado

[TEXTO] João Daniel Marques [FOTOS] Ricardo Constantino

Era uma da manhã e o Musicbox ainda aguardava pela chegada de uma massa humana condizente com o seu espaço. O início da festa estava marcado para o primeiro minuto do dia 15, mas ainda foi preciso esperar mais de uma hora para que o espaço se fosse compondo. Entretanto, lá em cima, estava Rkeat, produtor e DJ que nos ocupava os ouvidos com as suas produções na área dos beats com pendor futurista e do trap menos comercial. Os sons, todos instrumentais, puxavam pouco por quem estava na pista de dança, que permanecia praticamente vazia, ainda nem a um terço da capacidade. Íamos escutando o tal trap menos óbvio que tão depressa nos remetia para naves espaciais, com os seus botõezinhos coloridos e sonoros, como para batidas mais ao estilo do kuduro, que que se fizeram ouvir por breves instantes.

Por volta das duas da manhã foi a vez de Kwan tomar de assalto o palco. Não era o planeado, mas a produção do evento parecia estar a adiar o main event, aguardando o preenchimento da plateia. Quem estivesse atento, não tinha como não notar a troca de intervenientes, quanto mais não fosse pelas vozes que se fizeram ouvir na música que ia passando. Missy Elliot, Kanye West e outros clássicos iam sendo manipulados e misturados com funk e de tudo um pouco pelo veterano DJ.



Depois de um aquecimento prolongado, Jair MC subiu ao palco e as cerca de 50 pessoas que se encontravam no Musicbox concentraram-se lá à frente, dando início ao prometido live act da noite.

O MC puxou pelo público desde o primeiro segundo do concerto. “Vocês não me conhecem, preciso de muito mais! Mostrem-me love“. Mas a casa pouco preenchida não satisfazia os pedidos do artista. Entre amigos e família na frente, alguns curiosos e fãs de Jair MC — e os estrangeiros que se passeavam pela rua cor-de-rosa, claro — foram atraídos para o Musicbox, em Lisboa.

A nível de performance, Jair não parecia corresponder às altas expectativas. Entre interacções, pausas para tirar a camisola e palavras de incentivo ao público, o rapper mal ia debitando metade das suas rimas, deixando-nos ouvir as back vocals que saíam da mesa de mistura, e que o iam relembrando da próxima rima. Mesmo assim, as pessoas na sala não pareciam muito aborrecidas com isso, e desde o início se notou que este seria um concerto à “americana” — pouca cantoria mas muito hype, e nada de mal com isso. Nas filas da frente davam-se saltos e gritavam-se os refrões. Jair parecia contente, mas a reacção do público era ambígua: os fãs vibravam e quem aparentemente não sabia ao que vinha aproveitava o intervalo entre músicas para se escapulir.



Para o quarto tema da noite, Jair MC tinha uma surpresa e apresentou um convidado que prometia animar a noite, Jamba DSK. E foi aí que as coisas começaram a aquecer, os microfones começaram a ser usados e as músicas mais “levadas à letra”.

Ao fim de poucas faixas, Jamba teve mesmo o seu momento, com a oportunidade de interpretar alguns dos seus temas em palco. “Empatar” foi o primeiro e o que fez mais furor dos três que tocou. Houve inclusive tempo para apresentar ao vivo um tema ainda não editado, “Eu Não Sei”. “Eu sei que vocês têm todos telemóveis, gravem!”, atirou.

A nova música tem uma sonoridade tradicional trap, com coros angelicais no fundo e algumas rimas afiadas. Valerá certamente a pena escutar quando sair, e que, segundo DSK, será brevemente.

Entretanto, o protagonista voltou ao seu concerto, mas as ressalvas repetiam-se: “isto está muito parado”, “têm de saltar mais”. Mas quem ia saltando era a família e os amigos, que ocupavam efusivamente os lugares da frente.



E foi então que houve bomba: “vou-vos mostrar uma cena nova. Ainda não está editada e, mesmo que não saibam a letra, vão sentir o beat“. A faixa ainda não tem título, ou pelo menos Jair não o disse. Não fosse a abordagem agressiva do MC na letra e na forma como a expressa — o próprio conteúdo com referências à polícia e a actos menos simpáticos — e o tema poderia passar por algo na linha do trap mais açucarado, com um refrão cantado por uma voz feminina de timbre suave e meloso.

Mas a noite ainda não tinha acabado, pelo contrário. O ponto alto ainda estava por vir. Jair decidiu subir a parada: “Passei por uma fase da minha vida em que não confio em ninguém. Eu não confio em ninguém, e por isso não quis dizer nada a ninguém – decidi dizer a toda a gente, e por isso fiz um som. Ficou mais ou menos assim”. Foi a forma que arranjou de introduzir um dos seus principais sucessos e talvez uma das músicas que o fizeram chegar ao Musicbox, “Não Confio Em Ninguém”, que é tão agressiva e arrojada ao vivo como em versão digital, retirando a tecnicidade do MC, que entre saltos e berros punha esse aspecto de lado. Lá pelo meio, Jair foi tocando alguns temas que estão disponíveis nas plataformas digitais, como é o caso de “Barudjo”, música na qual se fez auxiliar de Jamba DSK, e “Demons Inside”, entre outras menos conhecidas mas que satisfizeram a vontade de alguns seguidores ou deixaram conhecer melhor o espólio de um artista em ascensão.  

Kwan e Andrezo seguiram ao controlo das mesas de mistura numa noite que ficou marcada pela pouca adesão ao concerto de Jair MC. Há potencial real, mas também há que fazer um teste mais a sério, numa casa com um público mais vasto e interessado. De parte não pode ficar a energia, que às vezes o faz fugir à música e ao microfone, mas que se compreende melhor no final do concerto. Haverá certamente uma próxima, talvez numa outra sala, e o MC há-de ter uma outra oportunidade, até porque claramente a merece. O caminho, já se sabe, faz-se caminhando e todas as etapas são importantes. Esta não há-de ter fugido a essa regra universal. Fica o encontro marcado então, para tão breve quanto possível.



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