Sampladélicos: “Já destruímos um sistema de som enquanto passávamos sons de velhinhas”

[TEXTO] Bruno Martins [FOTOS] Claúdia Faro Santos

 

Tiago Pereira, 42 anos, tem vindo a tornar-se, com o passar dos anos, um dos mais importantes agentes de divulgação da música tradicional portuguesa. Corre-lhe nas veias o sangue de um outro enorme nome da tradição musical nacional, Júlio Pereira – multi-instrumentista, mestre do cavaquinho e fundador, há pouco tempo, do portal e museu cavaquinhos.pt. Talvez tenha sido uma grande influência no percurso artístico de Tiago Pereira, ainda que não tenha seguido, directamente, as pegadas musicais de seu pai. Na assinatura de e-mail, Tiago tem escrito “Realizador e Visualista. Coordenador do canal de vídeos: ‘A Música Portuguesa A Gostar Dela Própria’[AMPAGDP]”. É nesse canal que tem arquivado todo o seu trabalho de recolha de vozes, músicos, poemas ou instrumentos que fazem parte da tradição cultural portuguesa e que “visa criar uma consciencialização para o conhecimento e importância de um património vivo e muitas vezes esquecido de tradição oral, cantigas, romances, contos, práticas sacro-profanas, músicas, danças e também gastronomia”.

É assim desde 2011. Tiago Pereira não pára. Anda sempre de um lado para o outro, do Norte para o Sul, do Litoral para o Interior e a aterrar e a descolar das ilhas. Sente que é esta a sua missão para construir “um mecanismo de alfabetização da memória (…) que é urgente documentar e gravar”. Isto é o que se lê na descrição do seu canal. A descrição termina com um aspecto muito importante: “reutilizar fragmentos da memória de um povo”.

Era aqui que queríamos chegar, depois de apresentado o trabalho que o realizador e visualista tem vindo a desenvolver – não só com AMPAGDP, mas também com outros projectos de documentário que ajudam a trazer até ao tempo presente algumas sonoridades que se pode pensar que pertencem ao passado – conseguimos perceber melhor as origens do seu mais recente projecto musical, os Sampladélicos, um nome tão bom e tão óbvio que até se estranha como não foi reclamado mais cedo. Esse é um trabalho feito a meias entre Tiago Pereira e Sílvio Rosado que mexe e remexe em mais de 2400 vídeos criando samples que dão origem a novos temas. É esta a verdadeira reutilização dos fragmentos da memória de um povo.

“Isto é um sonho que tenho quase desde sempre”, diz-nos Tiago Pereira. “Em 2005 já fazia os DJ sets de MS Pinky, com dois vinis e um timecode virtual, um piano midi a disparar samples e a fazer scratch com velhinhas no set [feito a partir do documentário] 11 burros caem no estômago vazio. Sempre tive esta coisa de fazer música improvisada a partir dos samplers.”

Sílvio Rosado, por seu turno, é músico profissional. Formou e tocou em bandas como Flood, Primitive Reason, Luna Sea Sane ou Nicorette e produziu para discos de Nigga Poison, por exemplo. Em 2008 teve um projecto de música electrónica, Bordell que contava sempre com a participação de um VJ. Por já conhecer Tiago há um par de anos, acabou por convidá-lo para uma parceria para “um concerto no Bacalhoeiro”. Os destinos começaram por cruzar-se nesse projecto e, inevitavelmente, quando a ideia de Sampladélicos começou a ganhar forma e consistência, veio o desafio a Sílvio de se juntar ao projecto.

“Inicialmente foi um trabalho só com áudio. O Tiago começou a passar-me faixas inteiras de gravações de pessoas só a falar, ou a cozinhar… testes de áudio que ele fazia antes de começarem a cantar nos vídeos que ele filmava. Foi aí que comecei a fazer experiências e a montar alguns temas em beats com tempos certos”, com a intenção de criar melodias coerentes. “Uma das premissas que ficou clara desde o início era que não íamos usar nem sintetizadores nem máquinas de beats. Ia ser apenas o corte e a costura dos sons que já existiam.”


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[O VÍDEO NA GÉNESE DOS PROCESSOS]

Os Sampladélicos não são apenas um projecto musical. Tendo um realizador e visualista na génese, a imagem teria sempre de ter um papel fundamental. Tiago Pereira puxa do seu computador e faz questão de nos exemplificar como tudo se processa: não se trata apenas de criar som. Este é um projecto que une as imagens sincronizadas com os ficheiros de som. “São duas pessoas com dois instrumentos, mas com os mesmos sons. Só que os meus sons estão sincronizados com as imagens dos vídeos”, começa por dizer. “Temos dois tipos de sons: os loops e os compostos. O Sílvio cria os tempos da música, sobre os quais eu acrescento as imagens, sempre a serem alteradas, para não mostrar sempre a mesma coisa.”


“O disco não tem nada a ver com os concertos! Este álbum é apenas uma antologia de momentos de actuações que originaram essas 16 faixas. Representa apenas o trabalho daqueles dias em que estivemos a gravar. Se fosse na semana seguinte, teria sido um disco completamente diferente” Tiago Pereira


Diante do software Abelton, Tiago arranca a imagem de um homem numa cadeira de rodas a cavar a terra. O som da enxada a bater na terra em loop forma uma batida que permite que, por cima, seja acrescentado outro som: o acorde, noutro loop, de um jovem acordeonista. Podia ser outra coisa qualquer, mas o improviso dos Sampladélicos conduz a este cenário.

O primeiro disco da dupla, Não nos deixeis cair em tradição (disponível para download gratuito) surgiu há poucas semanas numa edição da NOS Discos. “Mas o disco não tem nada a ver com os concertos! Este álbum é apenas uma antologia de momentos de actuações que originaram essas 16 faixas. Representa apenas o trabalho daqueles dias em que estivemos a gravar. Se fosse na semana seguinte, teria sido um disco completamente diferente”, explica Tiago Pereira.

Tudo nasce de um processamento de filtragem e decantação dos vídeos e dos áudios que Tiago Pereira recolhe pelo País depois de apontar as câmaras e ligar os gravadores à frente de velhinhas, de fanfarras, de grupos de cantares em tabernas, tocadores de guitarras ou amoladores de tesoura. Depois, entra o trabalho de Sílvio: “Comecei a abandonar aquela ideia de fazer o beat certo e a compor com imagem e vídeo. Estava programado para fazer coisas de determinada forma”, recorda, lembrando que também o compositor John Cage se apercebeu um dia que “o que importa é o ritmo e não a harmonia”. O ritmo está em todo o lado. Até no silêncio.

Será que é instintivo, na altura de criar uma base de percussão, ir à procura de um bombo ou de uma tarola num vídeo de uma banda filarmónica? “Não necessariamente”, responde. “Às vezes pode ser o tal homem a bater com o machado na terra – faz-se uma equalização, sobe-se os graves e cria-se a percussão. A própria respiração dá para fazer percussão! No início talvez fosse essa a solução, mas depois deixou de ser. Até porque há também o lado da imagem que é muito importante – no início não ligava tanto. Só que há sons que, neste projecto, podem não ser bons porque… a imagem é pobre!”

Tiago Pereira sublinha esse aspecto distintivo e idiossincrático dos Sampladélicos, porque quem ouve – e vê – viaja pelos sons, mas também viaja pelo País. “São as imagens que nos remetem para esta viagem por Portugal, pelas paisagens que nos fazem perceber se estamos no Minho, Algarve ou Açores. É sempre um colectivo audiovisual. O que fazemos não é música – só: é uma viagem pelo país através de samplers que podem ser reconhecidos visualmente. Podem ajudar a reconhecer os sítios, os sotaques. Por isso é que os samples vêm da música portuguesa e não de outro sítio qualquer.”

[“ONDE É QUE COMEÇA A MÚSICA ELECTRÓNICA E ONDE É QUE ACABA?”]

“As pessoas acham que somos esquizofrénicos”, sorri Tiago Pereira. Mas os dois conseguem perceber a falta de habituação do público a este projecto. “Acho que o que fazemos é lançar questões: o que é a tradição? Onde é que começa a música electrónica e onde é que acaba?” A capacidade reactiva dos Sampladélicos faz com que os dois se consigam habituar bem a múltiplas situações, aos espaços onde tocam e às gentes que os vêem a tocar. Tanto podem fazer um set virado para referências acústicas, com cavaquinhos, violas braguesas e guitarras – “o tema ‘Drop Barrancos’ tem umas violas campaniças que fazem lembrar música cabo-verdiana…” – mas também podem “fazer um set de drum ‘n’ bass”, se utilizarem, por exemplo, “os trava-línguas”.



Mesmo assim, os sets ao vivo têm revelado os Sampladélicos como uma banda mais direccionada para eventos mais electrónicos. Mesmo quando vão tocar ao festival de Folk Celta em Ponte da Barca, onde fecharam as noites “depois de concertos de música folk e galegos a tocar gaita-de-foles”. “Não podemos ser líricos e achar que é música fácil, mas as pessoas deviam ser educadas para aceitar que as coisas não têm rótulos. Nós somos capazes de nos adequar a qualquer audiência, desde que tenha um espírito aberto”, diz Tiago Pereira. “No Festival Silêncio, no Musicbox, tocámos às 3 da manhã e público estava completamente louco! Lembro-me que havia muitos estrangeiros a dizerem-nos que nunca tinham pensado dançar ao som de velhinhas. Puxámos bué pelos subwoofers… Aliás, nós já destruímos um PA – um sistema de som – enquanto passávamos os sons de velhinhas”, recorda. “Lembras-te, Sílvio? Num concerto na Beira Baixa o PA borrou todo e rebentou com a coluna…”


Bruno Martins

Sou jornalista desde 2003. O hobbie da música vem de garoto e há um bom par de anos que cruzo tudo em papéis. Tudo se mistura nesta mixtape cheia de scratches que é a vida.