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[TEXTO] Amorim Abiassi Ferreira

Sampha começa o seu álbum de estreia com uma descolagem que rapidamente revela o cenário para onde ele nos quer levar: o espaço. A subida é acentuada com um sample de Neil Armstrong:

 


“I’ll work my way over into the sunlight here without looking directly into the Sun.”


O espaço torna-se numa das principais temáticas do disco, uma metáfora para o emocional. E é nele que, ao som de “Plastic 100ºC”, o cantor-produtor-escritor fala-nos da pressão de estar cada vez mais na ribalta, a relação que o derrete e até do caroço na garganta que o tem assombrado desde que o descobriu em 2011.

 



Numa altura em que a indústria musical parece ter atingido velocidade cruzeiro nos seus tempos de lançamento, Sampha move-se ao seu ritmo. Um EP lançado em 2010, outro em 2013, para finalmente, quatro anos mais tarde, revelar The Process. Durante esses sete anos, amealhou colaborações com SBTRKT, Drake, Kanye West, Frank Ocean e Solange. Seria difícil ter um envelope mais completo de cartas de recomendação.

No novo LP, ele junta-se a Rodaidh McDonald para a produção de dez faixas. Nenhuma das composições é semelhante à próxima, tornando o trajecto do disco num itinerário emocionante — delicado até nos momentos mais intensos e sempre carregado de personalidade. Se na primeira música começamos no espaço, em “Blood On Me” estamos de novo em território terrestre para as três faixas seguintes. Sem medo de mostrar dinâmica, o londrino senta-se em frente às teclas em “(No One Knows Me) Like The Piano”, auto-explicativa no título, e “Take Me Inside”, que começa apenas com o instrumento, mas que nos cola progressivamente à cadeira num crescendo de synths e nos coloca novamente em órbita.

 



O timbre de Sampha tem uma certa rouquidão e torna-se ainda mais cativante nas suas sucessivas subidas a notas que quase levam a voz a falhar. Mesmo quando ele se afirma com mais firmeza, caso de “Under”, rodeado pelo som de pratos distorcidos por todo o lado, a forma como a voz se torna transparente quando canta: “Channelling those memories / Trying to put an end to these”, desarma qualquer pretensão excessiva. Outro exemplo seria quando se ouvem as vozes no bridge de “Blood On Me”, aquelas que entoam “tutu” aos 2:49, e que elevam de forma insólita música de boa para excelente.

Resumindo: em dez músicas, Sampha provou com mestria que está apto para criar um longa duração memorável. The Process merece a vossa mais urgente atenção. Ou talvez nem tenha de ter assim tão urgente, já que o próximo pode apenas aparecer daqui a sete anos. Mas, sinceramente, que importa um compasso de espera se cada capítulo for um vaivém desta dimensão?

 


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