Sal Grosso: Love Is Fine e a “inocência” do primeiro take

[TEXTO] Vasco Completo [FOTO] Sara Almeida

Poucos são os que jogam de forma exímia com o primeiro take. A pressão do erro é normal ao carregar no REC pela primeira vez, mas Sal Grosso quer provar-nos que sabe onde está a beleza e a naturalidade nesse acto.

Love Is Fine, lançado no último Dia de São Valentim, é um conjunto de gravações feitas por António Silva acompanhado pelo irmão José Miguel Silva e por Ricardo Cabral. Embora surja duma concepção individual, a partir das ideias de Sal Grosso, pensadas à priori – pelo menos dois anos antes deste registo ser finalizado –, Love is Fine é um objecto de colaboração aberto a feedbacks exteriores intermitentes. Os mantras ouvidos parecem simples, mas nascem duma panóplia diversa de instrumentos e timbres e, nas gravações destes quatro temas, encontra-se trabalho de electrónica, bateria, percussão, harmónica, baixo, flauta, teclados, guitarra e microfones. O jogo entre a beleza harmónica e a tensão dissonante dos lençóis musicais sedosos de Love Is Fine, irrepetíveis e efémeros, são o que fascina e nos atrai. Sem uma estrutura clara, mas com uma narrativa na qual a emoção humana mais forte e impactante está no centro, a música de António Silva parece (paradoxal e simultaneamente) ser tão difícil de conceber num espaço físico, pelo seu carácter etéreo, como fácil de ter uma aproximação sentimental ao mesmo.

Sal Grosso falou com o Rimas e Batidas sobre inputs externos do álbum, a beleza do primeiro take e sobre o futuro, tanto do seu projecto a solo como da sua editora, combustão lenta records. Love Is Fine, editado pela mesma casa discográfica, terá brevemente uma versão em CD.



Para começar, o que está por trás de Love Is Fine? Os títulos são muito sugestivos, mas dado que foi um disco – conceptualmente falando, como disseste – muito pensado, queremos saber como o concebeste, antes destes registos de um só take

A base para estas malhas são outros tantos drones que fiz ao longo de 2018, ao mesmo tempo que dava os últimos toques no meu primeiro disco. Andei para aí um ano de volta disto, ora em casa ora no palco (sempre numa versão naked, sem os arranjos e instrumentos que acabaram por ficar no álbum), até que um amigo meu os ouviu e me incentivou a editar estes takes em disco. Ou seja, não diria que foi um exercício propriamente premeditado ou pensado, mas a partir daí comecei a ouvir aquelas faixas quase diariamente e a pensar mais a sério nos instrumentos que gostava de lhes acrescentar. Foi acima de tudo um exercício mental, porque eu não sei tocar nenhum instrumento, nem escrever música. Ou seja, para concretizar este disco, precisava de conseguir passar toda a música que tinha na cabeça para outras pessoas de forma mais ou menos oral – e acho que essa interpretação e espírito colaborativo de todos os músicos envolvidos no projecto são a verdadeira génese deste disco. 

Tanto em nome próprio como em colaborações, já vimos que te dás bem com o primeiro take. Na música ambient, parece que é mais fácil criar o inesperado organicamente do que simulá-lo, não achas? Porque te entusiasma tanto esta maneira de compor e produzir? 

Sim, totalmente de acordo. Porque a reprodução e a repetição nunca vão soar tão genuínas e isso ficou claro como água para nós nas primeiras horas de gravação. Para “A Cor da Primavera” — que foi o primeiro tema em que trabalhámos — até chegámos a gravar dois takes de guitarra, mas o segundo já soava tão forçado que decidimos logo o resto do disco ia ser feito sem repetir takes. Há uma certa inocência na primeira vez, e trabalhar com essa “fragilidade” acabou por ser um dos pontos mais entusiasmantes para todos os envolvidos. 

Fala-nos dos músicos que chamaste – o José Miguel Silva e o Ricardo Cabral – e das outras participações que mencionas no Bandcamp. Qual foi o input destes intervenientes? 

Foi absolutamente essencial, sem eles o Love Is Fine não existia. O Zé é meu irmão e já fazemos música juntos há alguns anos (é ele o twistedfreak a quem roubei o nome do disco), o Ricardo é um músico que admiro e que já me tinha ajudado a fazer magia com o meu primeiro disco (ele e o Zé masterizaram e misturaram tudo) e esta familiaridade tornou a escolha muito óbvia. Não me imagino a tentar traduzir todas as ideias que tinha a outras pessoas, nem consigo imaginar outros músicos a interpretar tão bem todos os sentimentos, emoções e ideias que queria passar. Eles próprios foram muito pro-activos e foram sugerindo e acrescentando ideias que foram essenciais para o disco. E o mesmo para os outros convidados e participantes: é tudo família e amigos próximos que, por um motivo ou outro, foram estando no estúdio durante aqueles dias e se ofereceram para bater palmas para a “Faúlha”, para fazer percussões na “Artemida” (acho que a certa altura estávamos umas sete ou oito pessoas em estúdio) ou simplesmente para irem dando feedback ao que iam ouvindo. Foi um processo mesmo muito aberto e colaborativo a vários níveis.

Sendo que já vais com o take pensado para as gravações, como é que defines que instrumentos usas, a sala em que gravas ou os métodos de captação? 

Terei que dizer que por instinto. Ou por coração, se quiseres. Tirando a “Amor Sufi”, em que já sabia exactamente que instrumentos usar e como os tocar, tudo o resto foi feito por instinto. É verdade que levei algumas ideias para o estúdio, mas a maior parte foram repensadas (e descartadas) a partir do momento que começámos a tocar os três. Ainda assim o processo de escolher os instrumentos foi bem simples. Basicamente começámos por ouvir o drone, depois discutimos a pertinência de usar um certo instrumento ou de um certo som, e assim que tínhamos certezas gravámos guiados pelo nosso estado de espírito. A isto tudo ainda se junta a carta branca que tivemos para usar o Quarto Escuro (e o Ricardo) como laboratório – gravar o círculo de palmas e a flauta de bisel da “Faúlha” foi das coisas mais divertidas que fiz até hoje.   

Dedicas o disco ao Mark Hollis, dos Talk Talk. Qual foi a sua influência para ti ou para este projecto?

Talvez porque a morte dele fosse bastante recente, falámos muito dele e do seu legado e houve alguns elementos que passaram para o disco – sendo que o mais óbvio é o título da “A Cor da Primavera” e o mais rebuscado é a harmónica com distorção da “Amor Sufi”. Ainda assim não diria que gravámos o disco influenciados pela música do Mark Hollis e dos Talk Talk – pelo menos de forma consciente. Mas o Mark Hollis fez alguma da música mais bonita e misteriosa do século XX e essa aura influenciou-nos imenso na forma como usámos o estúdio e gravámos. Toda a sua filosofia de “só tocar uma nota se tiveres uma boa razão para isso”, a forma como cortava e colava gravações de livre improvisação para escrever canções, a procura da magia no primeiro take (todas as histórias sobre as gravações do “Laughing Stock” e do “Spirit of Eden” abordam estes dois últimos pontos)… Isto foi tudo connosco para estúdio e acabou por influenciar espiritualmente o que fizemos. 

Tencionas ainda apresentar este disco ao vivo, ou noutro formato? Haverá formato físico?

Temos vindo a falar sobre isso desde o ano passado e gostávamos de fazer pelo menos três concertos de apresentação do Love Is Fine com o trio que o gravou – tirando isso, creio que só o vou apresentar em sessões de escuta especiais, já que não é um disco a solo propriamente dito. De qualquer forma, já temos um concerto confirmado no Porto para Abril e, durante a primeira quinzena de Março o disco estará disponível em CD.

O que ainda podemos esperar da tua parte para este 2020? Tens mais projectos na manga?

Se tudo correr bem, este vai ser um ano para me focar nos discos a lançar pela combustão lenta records, a editora que fundei em 2018. Mas já tenho uma ideia para um novo LP colaborativo, estou a trabalhar numa espécie de mixtape de drones e há um projecto muito especial que deve ver a luz do dia em breve – mas por agora ainda é segredo.


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