Ruze: “Não vou ser hipócrita e dizer que não queria um lugar melhor, mas é preciso trabalhar todos os dias para isso acontecer”

[TEXTO] Moisés Regalado [FOTO] Nuno Ávila

Já faz parte da história de Coimbra e da zona centro mas é no futuro que está o seu foco, desta vez ao lado de Raze, produtor de Tomar. Se falar com Ruze é, também, falar com o principal nome de uma cidade que nunca chegou verdadeiramente aos radares, isso não lhe interessa assim tanto, até porque a solução parece simples: “trabalhar mais para mais afirmação”.



Fazes rap há mais ou menos duas décadas. O que é que ainda te dá “fome de microfone”, como um dia disse o Maze?

Eu gosto do estúdio, gosto do palco, gosto do processo de fazer um álbum, de falar com os produtores… E isso continua a ser muito importante na minha vida. Passar uma mensagem também me preocupa, na medida em que está tudo em constante mudança. E a fome é a mesma que [existia] há vinte anos.

Entretanto deves ter passado por imensas fases de mudança, no movimento e contigo próprio. Há algum momento que recordes como particularmente importante, por ter ditado o futuro do hip hop tuga ou do teu percurso em particular?

Acho que o Flow Fest foi uma data marcante, foi um festival que reuniu a maior parte dos grupos e projectos que havia na altura, em 2007. Também foi nessa altura que lancei o meu álbum (1440 Minuto a Minuto), e claro que esse é um momento que vou recordar para sempre.

Como protagonista do rap conimbricense, o que achas que tem faltado ao movimento da cidade para se afirmar em definitivo? Depois de tantos anos na margem, é mais fácil ou difícil identificar os problemas?

O único problema do hip hop em Coimbra… é só trabalhar mais e as coisas acontecem. E o problema não é só de Coimbra, é de Coimbra e das outras cidades do país tirando Lisboa, porque a maioria das coisas acontece em Lisboa e o resto do país fica um bocado à margem. Em Coimbra é como nas outras cidades, é trabalhar mais para mais afirmação.

Trabalho não te falta: só na zona centro, já colaboraste com o Kooltuga, ultimamente tens editado com o Raze…

O Kooltuga foi, talvez, o primeiro produtor de rap que eu conheci, e foi o primeiro que me ajudou. No 1440 também fizemos algumas coisas juntos. Com o Raze foi igual, já o conheço desde a altura do Sem Dados Disponíveis [trabalho de estreia do produtor] e ainda hoje trabalho com ele. Embora tenha havido uma fase em que não tínhamos grande contacto, voltámos a tê-lo no Pão, Água, Rimas e Instrumentais. Em Coimbra também já fiz música com o pessoal da Velha Capital, da Urbisom… Ah, os M.A.C. também fizeram uma colaboração no 1440. No Pão, Água, Rimas e Instrumentais convidei o DMira (conheci-o na altura e entrou com duas produções) e o Raffs, do Algarve, que também produziu uma música desse EP. Trabalhei com o Galleno, com o Vitorino Salomé, com o Rui Vinagre, que é guitarrista de fado… Por aí fora.

Começaste ainda nos anos 90, na década seguinte chegaste a ser presença assídua na MTV Portugal (com o single “Mundo dos Graúdos”) e entretanto foste pisando palcos um pouco por todo o país. Continuas a ambicionar o reconhecimento à escala nacional, ou pelo menos com mais expressão do que até agora?

Sim, nos anos 90 cheguei a gravar algumas cassetes e a dar concertos com os Da Killander Ghetto. São tempos diferentes e a magia já não é a que havia na altura, as coisas mudaram. Não digo para todos, só que para nós, mais velhos, as coisas mudaram, e nós fazemos — eu pelo menos faço — por necessidade, porque não tenho nada a provar a ninguém. O que faço é mesmo por prazer e para seguir em frente, não ambiciono ser rico nem me preocupo com as views. Não vou ser hipócrita e dizer que não queria um lugar melhor, mas é preciso trabalhar todos os dias para isso acontecer. É uma bola de neve, começas a trabalhar e as coisas acontecem.

Tens sido um referência e continuas a inspirar muitos jovens, principalmente em Coimbra e nos distritos vizinhos. E as tuas influências, hoje em dia, quem são?

Ainda bem que sou uma influência para os jovens, e espero que haja cada vez mais jovens a ouvir! Não sou muito de influências, gosto de música, oiço muita música e não gosto de referir nomes, até porque cada um tem a sua maneira de fazer música. Mas cá na tuga, para falar a verdade, eu gosto muito do Phoenix RDC e continuo a gostar de Sam The Kid. E eu acho que o rap tuga está fixe, umas portas abrem outras. Mas por falar em influências, tens os The Parkinsons, com quem estou a fazer alguns concertos, e são uma influência pela atitude que têm. É rock mas a atitude é semelhante.

Daqui para a frente, é possível ver-te a rimar noutras sonoridades, a experimentar novas abordagens, ou podemos continuar à espera do mesmo Ruze, fiel a si mesmo?

O Raze puxa bué por mim, “obriga-me” a experimentar coisas novas e já deu frutos. Acho que ainda não se chegou ao pretendido mas já consigo ir por outro caminho, vamos ver.

Essa parceria vai continuar a dar frutos? E depois?

Eu e o Raze continuamos a trabalhar e já temos concertos marcados para os próximos meses. Pelo menos até Setembro temos umas datas fixes. Subscrevam o canal e fiquem mesmo atentos porque a partir de agora vai ser a sério.


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