RUSSA: “O rap salvou-me quando estava no fundo do poço”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Wrong Planet

Queriam uma mulher de armas? RUSSA é a “Imperatriz” de serviço e tem um novo single que entrará nas contas do seu álbum de estreia. MAF volta a assinar a produção do tema e os Wrong Planet ficam encarregues do tratamento visual.

Bem a sul de Portugal, há um talento feminino bastante promissor que quer conquistar o “trono” do rap nacional. Sagaz quando munida de uma caneta, RUSSA é a artista que se segue nos lançamentos que a Kimahera tem planeados para este ano no seu catálogo.

Embora ainda não o possamos ouvir, Sickonce é um dos produtores escolhidos para arquitectar as texturas sónicas deste projecto made in Algarve. Holly é outros dos nomes a entrar nas contas destes 13 temas, com MAF (um dos primeiros talentos a sair do curso de hip hop que o Rimas e Batidas desenvolveu inicialmente na Restart e que actualmente decorre na Etic) a desenhar alguns dos traços para este tão aguardado disco — depois de assinar a batida de “Entre Lisboa e Londres”, volta a servir a MC no recém-chegado “Imperatriz”.

Se procuravam por novas e credíveis alternativas no feminino e em português, RUSSA pode muito bem vir a ser a chave para que mais mulheres possam perder o receio de abraçar o hip hop e a vertente mais pura do liricismo – menina não paga, mas neste carrossel pode muito bem andar.

 



És provavelmente a primeira em Portugal a associar o futebol americano a um videoclipe de hip hop. De que forma aquele sentimento em campo vai ao encontro da mensagem que passas neste novo single?

Quero passar uma imagem de força e superação. Além disso, sou completamente fascinada por videoclipes e gostava muito de fazer algo distinto e com qualidade. Os Lisboa Navigators são uma equipa de campeões. Um exemplo de força e superação tal como eu queria para esta música. Eu tive a ideia inicial, mas o Tiago Mindrico e a equipa da Wrong Planet contribuíram bastante para chegar ao conceito final. Tenho de destacar o trabalho dos Wrong Planet porque filmaram e editaram aquele que é para mim um trabalho de cinema no rap. Eles são incríveis mesmo!

Voltas a tocar em assuntos bastante pessoais neste tema e terminas a apontar para o trono como um grande objectivo. De que forma o rap pode ajudar a ultrapassar os obstáculos que a vida nos impõe?

Nunca escondi a minha ambição. Sei que ainda não sou nada na cultura hip hop, mas quero trabalhar até vir a ser uma referência, daí mencionar o “trono”. Eu não me foco apenas em assuntos pessoais, mas sim, esse foi o caso nestes dois primeiros singles. O rap salvou-me quando eu estava no fundo do poço sem absolutamente ninguém para me dar a mão. Escrever e expulsar a raiva não só salvou-me como culminou na criação de obras musicais. Aí percebi que o rap pode ser uma salvação também para muitos ouvintes. Temos a responsabilidade, enquanto rappers, de criar arte que ajude os outros a entender o seu mundo. Do boom bap ao trap. Das letras de intervenção às de festa. A música ajuda as pessoas e o rap dá a força para ultrapassar qualquer obstáculo.

Disseste-me há dias que estas duas amostras do álbum foram escritas antes das outras faixas. Achas que esse intervalo de tempo influenciou a concepção do disco?

“Entre Lisboa e Londres” e “Imperatriz” foram escritos há cerca de um ano. Depois criei e lancei a Mixtape TPC porque queria mostrar trabalho antes de ter um CD. Quase todas as outras faixas do álbum foram escritas em Outubro e Novembro. Eu não tinha o plano de escrever para um CD, mas passei por uma fase menos feliz a nível pessoal e escrevia quase todos os dias por necessidade. Quase como se de uma droga se tratasse. Às vezes, o azar é a melhor sorte que podemos ter. E se não fosse isso, se calhar não tinha tido o “gatilho” para escrever um CD inteiro. O intervalo de tempo contribuiu principalmente para recolher experiências de valor sobre as quais falar. No entanto diria que o álbum foi feito em 3/4 meses (escrever e gravar tudo).

Segues algum conceito em específico no alinhamento do álbum? Há já alguma informação adicional que nos possas adiantar sobre o teu projecto de estreia?

Sim, tenho a minha táctica. O álbum está dividido em 3 grupos/temáticas e vai ter 13 faixas. Posso também dizer que traz trap de intervenção. As pessoas associam muito os beats boom bap a temas de intervenção e os beats trap a temas fúteis. Quero mudar essa ideia. Não posso adiantar mais para não estragar as surpresas que vêm a caminho!

 


russa

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Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
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