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Run The Jewels: uma das melhores duplas de sempre?

[TEXTO] Amorim Abiassi Ferreira [ILUSTRAÇÃO] Kim Ferreira aka “The Comeedian”

Três álbuns absolutamente aclamados pela crítica — mais um remisturado só com sons de gatos, uma legião de fãs de todos os géneros musicais presente a cada paragem dos seus tours mundiais e, mesmo tendo cada um deles um percurso invejável atrás de si, um sucesso inimaginável que nunca atingiram a solo.

Hoje, os Run The Jewels são uma das duplas mais pristinas que existiu no hip hop, não importa o ângulo adoptado para os avaliar. 50% de reputação indie, 50% de reputação sulista. Beats com a assinatura do som desenvolvido por El-P ao longo de uma carreira, uma química mágica entre os intervenientes e letras impetuosas que, a cada álbum, se tornam mais atentas à situação política e social vivida nos EUA. O projecto vende-se logo pela descrição, mas, quando finalmente ouvimos a música, sentimos o poder inegável de RTJ.

Podemos considerar os Run The Jewels como uma das melhores duplas de sempre? Bom, se tivermos aterrado no hip hop há pouco tempo, até nos podemos sentir tentados a fazê-lo automaticamente. Antes de avançar, é importante esclarecer o seguinte: neste ensaio apenas considero duplas em que ambos rimam e por isso se exclui alguns nomes mais óbvios como Eric B & Rakim, Pete Rock & C.L. Smooth ou Gang Starr.

O formato de dupla a rimar tem sido cada vez mais raro no presente. Claro, Jay-Z & Kanye West, Drake & Future, 2 Chainz & Lil Wayne já juntaram forças em lançamentos, mas tais alianças parecem de curta duração e, quer sejam motivadas pelo lucro ou pela química dos artistas, pouco parecem ter feito para lá de um crescimento temporário da base de fãs.

No entanto, a questão é se RTJ é uma das melhores duplas de sempre. E aí já teremos dos comparar a nomes titânicos do hip hop, vindos de uma altura em que os duos eram verdadeiras tag teams preparadas para qualquer ringue: OutKast, Mobb Deep, Black Star, Clipse, UGK, EPMD, Method Man & Redman.

 



Vamos então recapitular a história da origem de El-P e Killer Mike: Jaime Meline, ou El Producto, é um nome mais do que assumido na cena do hip hop underground de Nova Iorque. Foi parte dos Company Flow nos anos 90 e depois disso começou a ganhar cada vez mais reputação como rapper, produtor e fundador da própria label; Michael Render é natural de Atlanta e o início do seu percurso aconteceu junto da Dungeon Family dos OutKast. Com participações feitas para os OutKast e Jay-Z, o MC começou a ganhar notoriedade e de seguida começou a lançar álbuns a solo.

Embora cada um deles tenha tido algum sucesso e, acima de tudo, reconhecimento pelas suas habilidades, nenhum estava num dos melhores momentos de vida pela altura em que se conheceram. Enquanto El-P tinha problemas financeiros por causa da label e lidava com o luto da perda de um amigo, Camu Tao, Killer Mike debatia-se com problemas com a editora em que estava, depressão e amantes. Os dois faziam do abuso de substâncias uma rotina. Foi um amigo em comum, um executivo da Cartoon Network, que os apresentou. Reza a lenda que o entendimento entre ambos foi imediato. E assim, El-P assumiu a produção do quinto álbum a solo de Killer Mike, R.A.P. Music, que pode ser considerado um protótipo para Run the Jewels.

 



É também importante mencionar que Cancer 4 Cure, o álbum dedicado a Camu Tao, foi lançado com uma semana de diferença do de Killer Mike. Os dois discos foram um sucesso crítico e esta combinação de socos lançou os dois artistas numa tour conjunta. Essa sucessão de concertos foi o que os convenceu que juntos eram mais fortes do que separados e assim, em 2013, formam-se os Run the Jewels.

Ao juntarem forças, tinham como inspiração duplas como UGK, EPMD e OutKast. Acima de tudo, queriam que se sentisse o peso de ter dois intervenientes na mesma música, aquilo que mais os atraía nestas referências. Essa inocência de intenções sente-se no primeiro álbum, um arranjo de dez músicas em que parecem mais querer experimentar-se como combinação do que propriamente chegar a algum lado.

O mesmo já não se repetiu em RTJ2, sentindo-se a evolução de uma atitude de mixtape para álbum de estúdio. A duração do projecto alongava-se e existia uma intenção mais firme nas temáticas que o atravessam. Entre o lançamento deste LP e do próximo, RTJ3, Trump ascendeu à posição de Presidente dos Estados Unidos da América, e isso apenas afirmou a necessidade de abordar cada vez mais o clima de apocalíptico que ambos tinham na sua imaginação.

 


“When I started this band, didn’t have no plans, didn’t see no arc
Just run with the craft, have a couple laughs, make a buck and dash, yeah”

“A Report to the Shareholders / Kill Your Masters”


Sem dúvida que o timing da aparição dos Run the Jewels lhes deu um empurrão gigantesco em termos de popularidade. Nunca o hip hop foi tão consumido como hoje em dia e esse fenómeno agrega fãs de todos os estilos. Aquela combinação de indie com street cred é um dos grandes motivos pelos quais podem encontrar RTJ na lista de favoritos de tantas pessoas. Com a edição de um disco por ano, sempre gratuito, eles estão sempre visíveis, travando o esquecimento numa altura em que até um álbum do ano parece desvanecer da discussão pública numa questão de semanas.

Ser o melhor de sempre é uma questão de popularidade ou da influência que se cria e que reverbera pelo futuro? Embora Run the Jewels abunde popularidade e que cada álbum os tenha colado mais ao tecto, é difícil encontrar no som deles elementos que se propaguem no mundo que os rodeia. Aliás, se ouvirem produtores a imitar a fórmula de El-P, estes já o poderiam fazer bastante antes de RTJ. A evolução sónica tem sido mais de refinamento — que tornou o seu som cada vez mais poderoso — do que de inovação.

É aqui que nomes como UGK, Mobb Deep, Clipse, EPMD, e, claro, os OutKast têm vantagem. O que criaram acabou por influenciar inúmeros rappers e produtores que lhes seguiram, seja no som, na atitude ou na cultura. O tempo também ajuda a medir estas coisas, e, sem dúvida, uma década permitirá avaliar melhor o impacto de RTJ no mundo.

Contudo, é fácil de entender que nada que existe na fórmula de Run the Jewels é novidade ou traz disrupção ao que já existia. O que Killer Mike e El-P empregam é mesmo um equilíbrio atingido, e raramente visto a este nível, de barras, produção e química entre si. É a experiência de quem já anda nisto há muito tempo e encontrou um melhor amigo com quem o pode fazer a um novo nível. Tudo isto enquanto o mundo parece desabar. Tudo isto aos 40 anos.

 


“El spits fire, I spit ether
We the gladiators that oppose all Caesars
Coming soon on a new world tour
Probably play the score for the World War
At the apocalypse, play the encore
Turn around, see El, and I smile
Hell coming, and we got about a mile
Until it’s over I remain hostile”

“A Report to the Shareholders / Kill Your Masters”


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