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Fotografia: Direitos Reservados

O passa-palavra alimentou a escalada imparável de "Touch Me".

Rui Da Silva, o DJ e produtor que levou Portugal ao número 1 do Reino Unido. “Foi o valor puro e duro da música”

Fotografia: Direitos Reservados

Rui da Silva só agora descobriu a novidade. “Touch Me”, o sísmico single do produtor português, está entre os melhores números 1 do Reino Unido para o The Guardian. “Sei que ficou na posição 70 da lista, uma cena assim?” Precisamente: um lugar atrás de “Rhythm Is a Dancer” dos SNAP!, outro à frente de “Wannabe” das Spice Girls. Qual a opinião do DJ que representa Portugal nesta pequena história da hit parade, num elenco de êxitos imortais? “Está fixe. Acho que é bom.”

A videochamada por Zoom abre uma janela para a penumbra do seu estúdio caseiro, no West End de Londres; não que se tenha sentido particularmente criativo durante o confinamento. É-lhe simplesmente um ambiente natural, como se espera de um produtor no activo há três décadas: depois de abandonar a sua banda de garagem, começou a gravar como Doctor J, mesmo antes de ter criado com DJ Vibe os Underground Sound of Lisbon.

Depois, partiu para Londres. Nos ribombos de sintetizador e compassos de house, encontrou um estado permanente, com variações de estilo à medida que aparecem no mundo – embora qualquer historiógrafo da pop reconheça em “Touch Me” uma anomalia, não só na sua carreira, mas na capacidade portuguesa de exportação.

“Todas as músicas nesta lista conseguiram sobreviver ao envelhecimento. Essa é a minha pequena contribuição”, diz ao Rimas e Batidas. “A pequena contribuição de Portugal para as músicas intemporais.”



[Som subterrâneo, de Lisboa para Londres]

Fora das suas fronteiras, Portugal não voltou a ter quem escalasse tão alto. O veterano lançou “Touch Me” a 1 de Janeiro de 2001, sem o marketing esmagador que catapulta os clássicos pop – como aqueles que hoje o rodeiam na selecção do diário inglês. O que se seguiu? Uma residência de 14 semanas na tabela britânica: três das quais no top 2 e duas no top 10, enquanto Destiny’s Child clamavam “Independent Women” do cume dos EUA. À excepção desse país, o DJ alcandorou-se dos píncaros de toda a Europa, chegando a ser a sétima canção mais vendida e ouvida no continente.

Mas Rui da Silva não a recorda como um milagre. Encara-a como uma singela canção entre centenas, talvez milhares, de produções suas – dentro e fora da gaveta –, mais um pedaço vivo da Londres subterrânea onde, anos antes, se fixou. Foi necessário abandonar o famoso “Paradise Called Portugal” que, na década de 90, ajudou a edificar: co-fundou a Kaos Records, a “mais importante editora de música de dança” desse tempo, e formou em 1993, com “The Mighty” DJ Vibe (Tó Pereira), os Underground Sound of Lisbon (USL).

Nas catedrais da era – Kremlin, Alcântara Mar, Frágil, Climcaz –, a hóstia era o som ácido, a militância house da dupla. Um poema-protesto do artista activista Ithaka passou pelas quatro mãos dos USL e, em 1994, renasceu como hino progressivo: “So Get Up”, recriado um número recorde de vezes pelo mundo fora, inclusivamente por Junior Vasquez ou Danny Tenaglia. A comunhão foi brevemente interrompida em 1998, quando Rui da Silva emigrou para Londres, à procura de um “desafio novo”: vende a sua parte da Kaos, a que se dedicara após ter sido engenheiro de som na rádio TSF. Improvisou um estúdio na sua sala de jantar, antes de alugar um espaço discreto, onde cozinhou os primeiros lançamentos da sua Kismet Records. “Earth / Water”, sob o pseudónimo The 4 Elements, acertou no nicho da house tribal, num 2000 que foi um tubo de ensaio.

No fim do ano, o segundo single estava pronto. O autor assumia finalmente o nome de baptismo, ao lado da vocalista Cassandra Fox – que conheceu, uma noite, a cantar embriagada – na capa genérica da Kismet: debaixo do azul, a urgência do toque e um refrão extático, uma voz granulosa que flutua ao sabor dessa paixão variável e intensa. “Touch Me” começou a circular na noite, pela vontade de “DJs globalmente reconhecidos, como John Digweed, Dave Seaman ou Deep Dish”, escrevia a Billboard em 2001. “Foi um produto das pessoas a falarem umas com as outras. Tornou-se imparável”, recorda Rui da Silva.

“Toda a gente tocava [a canção], então já foi trance, progressive, pop… Agora é deep house. Está sempre a mudar”, diz o DJ, em tom de gozo, sobre a nova categorização do Guardian. O que não muda é o verniz efervescente, os acordes que mediam o arrebatamento e o temor. Já havia experimentado a turbina do passa-a-palavra com “So Get Up”, é certo, mas daí saiu um clássico de culto. Desta vez, nascia um clássico pop.

Todavia, não viu a luz do dia tão rapidamente. Um mês antes do single em CD aportar nas prateleiras, “Touch Me” esteve num purgatório legal, graças a um sample dos ingleses Spandau Ballet – da malha de guitarra na canção “Chant No. 1 (I Don’t Need This Pressure On)”. O acordo não foi assinado “a tempo e horas”, o que resultou na destruição de “quantidades gigantes de stock, preparadas para ir para as lojas”. Hoje, em qualquer plataforma se encontra a versão original de oito minutos, com o sample intacto, o que não foi uma dádiva. De acordo com os rumores online, o delito custou a Rui da Silva 100 mil libras. “Bem mais largo do que isso. O custo total foi para cima de 400 mil, pagos através dos custos legais e de uma percentagem dos direitos. Agora sim: um clássico pop.



[Na época dos Santamaria]

Oito meses depois, a vocalista de um grupo de britpop levou a melhor na luta com uma Spice Girl. Sophie Ellis-Bextor conseguiu o número 1 britânico que se esperava de Victoria Beckham, mas ambas tiveram a mesma estratégia: lançar carreiras a solo através de um êxito a meias com produtores electrónicos. Por sua vez, os nomes desses parceiros – Spiller e True Steppers – dissolveram-se nas areias do tempo.

Rui da Silva inverteu os papéis: o produtor faz parte da mobília underground do Reino Unido, mas Cassandra Fox está hoje em parte incerta. “Era uma altura em que a música de dança era vista como um género menor. Não tinha interesse, para quem quisesse ter uma carreira de prestígio, cantar em discos de dança”, explica o presidente da Kismet. Em 2005, quando se tentou relançar como voz do r&b, viu o seu álbum engavetado pelo público – que nem uma versão arrefecida do seu primeiro hit conseguiu ressuscitar. O silêncio perdura desde então, com uma única interrupção em 2014, para reconfigurar “Touch Me” numa edição techno, ao lado do produtor Paul Oakenfold.

Fox será melhor lembrada no seu pico de glamour, no programa Top of the Pops, palco que era paragem obrigatória para os maiores sucessos da anglosfera. Entre gritos de jovens, a abanar os braços  no lustro verde do seu vestido, viveu uma fantasia pop que se espalhou pelo Velho Continente e até pelas pistas de dança norte-americanas. Em Portugal, foi o single mais vendido por seis semanas consecutivas, roubando o holofote dos Daft Punk com o imortal “One More Time” – se bem que os capacetes franceses poderão ter tido mais êxito nos clubes.

“O número 1 do Rui foi notícia de telejornal, mas não provocou nenhum terramoto”. A locutora Isilda Sanches fala de um efeito cascata a partir do Reino Unido, recebido numa fase áurea da música de dança  portuguesa. “Até a Vidisco se virou para [ela] em meados dos anos 90, o que fez com que grupos como os Santamaria se tornassem gigantes no final do século passado” – que caracteriza como uma resposta portuguesa aos Faithless (com quem Cassandra Fox curiosamente partiu em digressão em 2006) – e “permitiu que houvesse simultaneamente coisas muito comerciais e outras mais exploratórias”.  Se “Touch Me” servir de barómetro, cada coisa ficava no seu lugar – e Isilda nunca ouviu o tema nas pistas de dança (reitera-o Rui Murka, residente do Lux Frágil). “Mas não fui a todos os clubes do país…”

Magazino – responsável pela Bloop Recordings – já levava os seus discos na vida de estrada, por Portugal inteiro, quando Rui da Silva dominou as rádios. “Lembro-me perfeitamente de mo virem pedir; principalmente as miúdas, elas gostavam muito do ‘Touch Me’”, ri-se. O tema nunca chegou a entrar nos seus alinhamentos, ao contrário de “So Get Up” – “uma grande influência” para Magazino, que se iniciou como DJ em 1995, um ano após o seu lançamento, no Clubíssimo de Setúbal. À natureza imperativa do manifesto dos USL, que tomou o mundo underground por assalto, opunha-se a comercialidade de “Touch Me”: “demasiado vocal, meio cheesy”.



[No conforto da sombra]

Rui da Silva não deixou de ser entrevistado pela revista Dance Club, a autoridade da electrónica nacional – nem pelos jornais e televisões mais amplos –, mas um número 1 nas rádios mainstream dificilmente poderia ser a vanguarda. Editoras como a Nylon (com projecção internacional devido ao duo Loopless), a Lupeca ou a Kami Khazz sucederam à Kaos Records, continuando o seu legado. Também “a matéria para uma nova cena já se estava a mostrar”: o kuduro, por exemplo, “já se fazia ouvir muito na periferia e nos carros que passavam na rua”. Com “Touch Me”, um tema que Magazino nota ter “cruzado algumas gerações”, Rui da Silva encontrou a cena nacional em estado de fusão – mas não a interceptou.

Nisso pode sentir-se vindicado, dado um dos motivos que citou para ter emigrado para Londres: “A minha música tinha sempre mais resultados fora de Portugal do que lá dentro”. Pode ser verdade numa óptica quantitativa, mas dizê-lo para o impacto menos mensurável da música pode ser controverso: afinal, os Underground Sound of Lisbon permaneceram “sempre como modelos”, aponta Isilda Sanches   – ao passo que Tó Pereira, conhecido como DJ Vibe, segurou-se à posição de “DJ mais importante em Portugal e um dos mais influentes do mundo”. O que aconteceu a Rui da Silva depois, sonante ou silencioso, foi da sua exclusiva responsabilidade.

Borbulhar nas pistas de dança, como catapulta para o número 1, não foi invenção do produtor lisboeta. Durante 1998, “Sweet like Chocolate” de Shanks & Bigfoot – êxito definidor da música garage – seguiu essa rota; em todo o ano de 1999, foi a oitava faixa de maior sucesso no Reino Unido. Ambos os clássicos, ainda que distribuídos por grandes gravadoras, baniram a grande máquina promocional. “Foi tudo à conta do valor intrínseco da música, mais do que outra coisa qualquer. Não houve jogadas de bastidores, campanhas de marketing ou investimentos: nada disso, foi o valor puro e duro da música. Tornou-se um pouco imparável.”

Quando ainda não havia “Tiestos e David Guettas”, Rui da Silva não teve tentações de pioneiro. O exultante playback no programa Top of the Pops não contou com a sua presença, substituído por uma banda encenada. Não era maior o seu interesse num “número crescente de entrevistas” e solicitações – algo consonante com o seu tom porreiro, mas impassível, de conversa.

“Não sabiam quem eu era, mas isso foi intencional. Sempre dei mais valor ao que a música faz do que [a] utilizar truques baratos de familiaridade para me tornar popular. Se estás sempre a mostrar a fotografia de um gajo, as pessoas tornam-se familiares com a feição, e confundem o valor do trabalho com o indivíduo.”

A independência editorial libertou-o das pressões de lançar outro banger com potencial radiofónico. Não houve álbum a materializar-se imediatamente – apenas em 2006 –, excepto uma compilação de singles e remisturas da sua autoria. “Sendo uma operação pequenina, corre a uma velocidade mais lenta,” justifica. É uma abordagem 360º, extensível a tudo o que sai pela Kismet, onde abocanha toda a linha de montagem, “desde criar a parte gráfica até à sonora.”

Sempre foi assim, mesmo no momento mais meteórico, quando gravou “Touch Me” num estúdio em Farrington que dividia com Eric Prydz e colegas diversos da cena. Poderia ser um processo mais fácil e escorreito? “Primeiro, introduzes uma pessoa para responder aos e-mails, depois outra para te ajudar a ouvir as promos, mais uma para criar batidas segundo a tua indicação.” O que faltou? “Não é necessariamente o meu objectivo ter uma plataforma com dezenas de pessoas a trabalhar comigo.”



[“As tuas criações antigas têm que te embaraçar”]

Ponto assente é que Rui trata o número 1 de “Touch Me” como trivia. “Continuo a fazer a música que sempre gostei de fazer; pode ser que um dia destes haja outra que tenha sucesso. Mas eu música continuo a fazer.” Entrevistado em 2005 pelo desaparecido DJ e jornalista Jonty Skrufff, as palavras eram idênticas. “Dei por mim a pensar: ‘é suposto estar verdadeiramente feliz, mas não estou. Certamente é errado não estar agradado.’ Obtive esse êxito e não era o meu objectivo para essa canção, portanto, porque é que deveria estar satisfeito?”

15 anos depois, a paz não lhe voou das mãos. “Eu continuo a fazer a música que sempre gostei de fazer e pode ser que um dia destes haja outra que tenha sucesso.” Vários lançamentosvieram à tona na década de 2000, bastante menos na seguinte (quando a Príncipe transborda da periferia lisboeta para a crème de la crème). Nos anos 2010, preferiu os curta-durações (The NY House é um exemplo) e as parcerias (o duo Lisbon Kid, que formou com Danny de Matos).

Quando lhe apetece, perscruta o seu acervo com “centenas de obras inéditas”; às vezes, calha lançar uma. “A Thousand Miles”, editado em maio, é o seu primeiro single de 2020: colaboração com a habitual Zoey Jones (videoclipe estreado em casa, “live from Bali”, porque o glamour não se confina). O ímpeto de criador não refreou, está apenas a ser aproveitado em serviços de produção para outrem (“nomes que não podem ser revelados por causa de acordo sigiloso”) – e um canal de vlogs no YouTube.

Rui da Silva uniu-se à Red Gallery em 2017 para desenvolver uma exposição sobre a época do acid house português de 1991 a 1997 – cancelada devido à transformação das instalações da galeria em terrenos para arranha-céus. A documentação já reunida poderá ser a base para um documentário ou um arquivo, contudo, “é preciso partir de uma iniciativa individual” – fica o repto – sob pena de se dissolver nas areias do tempo.

“Touch Me” não sofrerá o mesmo fado, porque nunca parou de ser revivida: nos alvores de Ibiza; numa versão de Jamie xx e DJ Yasmin; em espectáculos de orquestra que adornam a hit list dessa ilha mediterrânica; mais recentemente, na playlist em que Lady Gaga reuniu as influências para o seu novo álbum, Chromatica.

“Hoje em dia, se ouvir algumas músicas que fiz, talvez fique um bocado envergonhado da produção. Mas as tuas criações antigas têm que te embaraçar, ou então nunca evoluíste”. O single com Cassandra Fox é uma das exceções: uma lembrança arrumada que não o deixa inquieto. Como escreveu Ben Beaumont-Thomas no Guardian, pelo meio da insinuante guitarra elétrica, cordas recortadas e um amor incompreensível, nunca antes se evocou tão graciosamente “a confusa torrente do êxtase (ecstasy), em todos os sentidos”.

Por um breve momento na história, Rui da Silva mirou o Reino Unido do seu cume. Esteve à frente de Eminem, Destiny’s Child, LeAnn Rimes, Britney Spears e Bob o Construtor. Voltará a repetir essas núpcias? Provavelmente não, nem Portugal terá outro sucesso planetário – mas será que interessa a alguma das partes?

Deixemo-nos de perguntas difíceis e deixemos Rui da Silva refastelar-se na glória volvida.  “As palavras  [do Guardian] estão bonitas; foi mesmo a sair de casa que vi no Instagram. Agora já me tinha esquecido. Se não me tivesses dito, já não me lembrava…”


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