RSS B0YS: o techno da Polónia que quebra convenções

[Foto]: ©Direitos Reservados

Fora dos habituais pólos produtores de música electrónica, é das terras frias da Polónia que surge uma das mais inusitadas encarnações techno dos últimos anos – e felizmente têm sido muitas. Embora a jogada de anonimato se tenha tornado prática comum nos dias que correm, a tarefa do “quem é quem” é neste caso específico ultrapassada pela questão “o que é o quê”. Bem mais estimulante do que a investigação biográfica, o duo RSS B0YS parece interessado em entregar aos curiosos um objecto artístico de sinestesia pura, alinhando e desalinhando coordenadas em jeito de cadáver-esquisito. Recentemente tiveram direito a uma presença honrosa numa das compilações das revista britânica Wire, mas é nos confins da web que as suas experimentações têm vindo a habitar e a proliferar.

Nome forte do quartel general da Mik! Musik (que alberga já uma extensa e sólida selecção polaca), existem óbvios paralelos com a estética e ideologia da editora norte-america L.I.E.S Records de Ron Morelli. O ruído é portanto aqui tratado como ponto unificador de tudo o que possa gravitar em seu redor. E há muito detrito sonoro a pairar pela cabeça deste duo, boa parte vagamente familiar, porém capturado e regurgitado de modo hilarante, num registo certamente aprovado pelos iconoclastas Black Dice ou Mouse on Mars.

Com uma bravura rítmica que desafia e mina ferozmente as convenções, o cunho techno surge apenas como enquadramento propositado para um destino que se advinha desconhecido. Se uns procuram vitaminar as suas produções com melodias coloridas e crescendos de apelo colectivo, os RSS B0YS buscam envenená-las da melhor forma que sabem. As batidas fustigam assim com um ardor impiedoso enquanto micro-melodias poderão surgir como gotas de suor escorrendo na pele metálica desta máquina humana que já conta com cinco discos, todos eles de nome mais ou menos impronunciável (Th T00th Of Th Ftr ou W D0nt Blv N Hyp são alguns dos exemplos). Menos física e mais cerebral, a matéria orgânica fervilha com uma acidez digna de quem se move num campeonato pós-IDM embora devedora de uma herança ancestral de África. Hipnotismo de cariz tribal que complementa, de um modo muito peculiar, o nervo de quem vê na experimentação um eterno poço para o inferno.

Nuno Afonso

Nuno Afonso

Com GANDULAGEM e Falésia, explora a (re)criação musical. Após um passado ligado às publicações Kling Klang, Mescla Sonora e Vice, actualmente encontra-se na ZDBmüsique.
Nuno Afonso