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O conceito por trás de Roger Plexico, projecto de Taseh e SlimCutz, é interessante e serve de moldura conceptual para as viagens sampladélicas do duo: um personagem de contornos vagos, que atravessou décadas e lugares, detendo-se naqueles nós da história que geraram música que resistiu ao tempo. Neste novo trabalho, disponibilizado agora em dupla edição digital e analógica e que sucede à edição da cassete Who Is Roger Plexico? (de Dezembro do ano passado), a ideia vai mais longe e o nome referencia uma série de espaços abandonados por todo o mundo e referenciados nos títulos das faixas (“Thames Town”, “Hartford Drive-In”, “Buffalo State Hospital”, “Six Flags”). Lugares que a agência de viagens virtual do Google Images permite visitar sem grande esforço e que inspiram uma produção profundamente visual, com dinâmicas claramente apreendidas na arte da construção de bandas sonoras.

SlimCutz e Taseh abrem o disco definitivamente inspirados naquela paleta Miami que Classixx tão bem explorou na remistura incrível que assinou para “Green Eyed Love” de Mayer Hawthorne, mas depressa evolui para outra coisa qualquer. A atmosfera evocativa deriva da cuidada utilização de samples que parecem ter, sobretudo, origem nos 1970s mais tardios e nos 1980s: muitos teclados e texturas que se sentem ter sido capturadas em discos da era das multipistas e dos grandes budgets de gravação. E depois há a arquitectura: cuidada, com uma organização de sons e estruturas que não vive tão obcecada com a pista como com um ecrã gigante, talvez semelhante ao que há-de, em tempos, ter existido no drive in de Hartford que um dos temas evoca.

O único senão que provavelmente se pode ressalvar na análise a No Man’s Land prende-se com o facto de não se sentir aqui nenhum desbravar de novo terreno: não há matéria samplável radicalmente nova, não há programação rítmica de novos e desafiantes padrões, nem uma utilização diferenciada de texturas electrónicas. Mas também não seria o que se deveria esperar de um disco que aponta ao passado dos tais espaços abandonados e de uma personagem fictícia que atravessou a história recolhendo informação em momentos-chave da evolução da música. Mas o que se ouve é elegante, construído com cuidado e óbvia devoção.

No Man’s Land é uma veemente vénia ao acto de filtrar o passado com os circuitos integrados de um sampler, às janelas que se podem abrir sobre a história num ecrã dominado por mais uma sequência aberta no Ableton Live. E como tal é um projecto plenamente conseguido, com momentos de rara beleza, como o break a meio de “The Enchanted Forest” – pedaço de luz filtrado pelas copas das árvores à procura de um filme para fazer ainda mais sentido.

Aguarda-se agora para Setembro novo capítulo na história de Roger Plexico: o encontro com Ace num álbum que poderá muito bem vir carregado de surpresas. Que venha ele.

 

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