Rodrigo Amado, Joe McPhee, Kent Kessler & Chris Corsano na Culturgest: neste deserto vislumbro o chão

[TEXTO] João Castro [FOTOS] Vera Marmelo

UM PASSO ATRÁS | Recuo. Outra perspectiva. O cartaz em frente. Não é exercício estratégico e muito menos de defesa. Somente a tentativa, quem sabe espúria, de encontrar uma nova perspectiva. Anuncia o concerto de Rodrigo Amado (saxofone), Joe Mcphee (saxofone tenor), Chris Corsano (bateria), Kent Kessler (contrabaixo), ou seja — This is Our Language Quartet, que teve lugar na Culturgest, no passado dia 31 de Outubro. A mesma imagem do álbum — A History of Nothing (Trost Records). A fotografia, do cartaz e do álbum, é da autoria de Larry Fink. Fotógrafo norte-americano que trabalha a preto e branco. Um homem sentado num ramo de uma árvore a observar atentamente outro ramo que segura. O natural e o humano que se fundem. Uma parceria aparentemente perfeita. Recuo, novamente. Ouvir, lendo, os ecos que chegam da noite anterior, dos XV Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra. Segundo Rui Eduardo Paes — “O regresso à Cidade Universitária de Amado e McPhee resultou na mais fulgurante prestação dos Encontros, num fim de tarde cuja carga enérgica desmentiu o cansaço dos quatro músicos (…)”.

MUSICAL THINGS | Oportunidade para passar os olhos pela folha de sala. Prática que se recomenda vivamente e que a Culturgest, à semelhança de outras instituições (anteriormente Teatro Maria Matos e Teatro do Bairro Alto, agora) tem o cuidado de facultar. Stuart Broomer, em texto extremamente claro, contextualiza o trabalho do quarteto, tanto numa vertente jazzística, como numa vertente histórica — “Um épico de gerações do nada, os historicamente reprimidos, descartados, incompreendidos (…)”. Já quase no final do concerto, a penúltima fotografia de uma longa e extraordinária série de Rodrigo Amado, e que foram projectadas durante o mesmo, remete para o que outrora terá sido uma loja de discos ou instrumentos musicais. No canto de um edifício abandonado, de uma estrada desértica de um país abandonado e desértico (Estados Unidos da América) a inscrição — “Musical Things”. Afinal o que serão estas “coisas musicais”? Serão os vestígios de uma ocupação humana? Será aquilo que outrora restou de um sonho de uma ilusão de futuro e que nos é recusada a cada dia que nos aproximamos dele? Será um futuro feito sem a presença humana? Fragmentos de máquinas e vegetação num requiem por uma humanidade que caminha inconscientemente para o seu fim? Ou será, numa visão mais optimista, o fim de uma era?

A NUVEM | O quarteto forma um semicírculo. Amado e McPhee à frente, Corsano e Kessler mais atrás. A primeira fotografia remete para uma montanha. Sabemos que é uma montanha pelas imagens subsequentes. A construção de um todo pelo somatório das diferentes partes. É sempre, ou quase sempre assim, mas aqui, e como não poderia deixar de ser, o exercício é bem mais subtil. Um montanha que se vai desvendando no seu caminho. Caminho/processo. Os cumes, mas também os seus vales e sobretudo os diferentes ângulos. Nunca em auto-fócus, mão firme e olhar atento, tanto na execução como na selecção. Uma montanha que se vai desdobrando em diversos campos vazios. O vazio que constrói o todo, o maciço. O vazio também no que diz respeita à parte. Vazio, na ausência. Vazio como o contraponto à saturação, ao preenchimento desnecessário. A desconstrução como alicerce do silêncio. Se é um facto que a matriz dos diferentes músicos individualmente e colectivamente é facilmente identificável, andando muito próximo de um campo que podemos catalogá-lo como free jazz, não é menos verdade que dele se aproxima e afasta quando sente essa necessidade. Recordemos — This is Our Language! E uma linguagem tão marcada na música, como na imagem. Um todo com uma cadência bem vincada e que também por isso, afasta-se e aproxima-se de linguagens conhecidas para formar e formatar a sua. Não numa lógica de modas ou conveniência, mas num muito sincero exercício de pesquisa, de percurso, até de passeio. Dessa montanha, quase labiríntica, aproximamo-nos das primeiras marcas humanas. Uma casa, será? Pelo menos um edifício abandonado, uma estrada, uma cidade, mas que rapidamente se afasta para nos atirar para uma nuvem. Plano celestial? Nada mais errado. Há momentos melódicos, sim a melodia aqui não é relegada, mas não é estado. É transição é mais uma marca de uma volatilidade. Um cacto, uma palmeira ou um conjunto de palmeiras ardidas, novamente a evocação de um estado de desolação, de uma expropriação. Expropriação de um tempo e espaço.

O AUTOMÓVEL | Na verdade são dois. Dois automóveis. Um verde, estacionado à porta de uma garagem sob uma poça de água que realça ainda mais esse verde Mustang. Do outro só lhe conhecemos o interior. Uma estrutura tubular no banco traseiro a indiciar um instrumento de tubos. Um órgão? A máquina do movimento. Como e a partir dele se construísse o sonho – o sonho da mobilidade infinita, o sonho da propriedade, o sonho americano, mas e muito, o ocidental, o global. Quarteto de uma sobriedade e de inteligência sensitiva muito acima da média. Um canto aos descartados, aos incompreendidos, aos da geração do nada, como refere Broomer, que Amado e restantes músicos não pretendem ser os porta-vozes, mas onde há a clarividência em mostrar os sinais de uma era. Não há lições, antes chamadas de atenção. Voltar “ao chão, às questões biológicas, animais, da sobrevivência e do medo”, como bem nos lembra José Mário Branco e Rodrigo Amado, nesta noite, citando-o. O primordial, um possível novo ponto de partida — o chão. Voltar a ele, ao chão, mas também à capa do álbum e ao cartaz, a essa simbiose entre ramo e homem. Nele vislumbrei chão, ou pelo menos acreditei que sim.


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