“Tropical”, “exótico”, “Brasil”, “clandestino” e “rock & roll” não são as primeiras palavras a surgir quando nos apresentam um álbum de fado. Mesmo que, no título, ao lado desse Fado apareça um sugestivo Tropical como contrapeso. Imaginar mulheres boémias, com tatuagens, a dançar e a morrerem jovens parece o início de uma qualquer história do rock do século XX e não propriamente de mulheres portuguesas do século XIX a cantarem o fado. A verdade é que o novo álbum de Rita Braga parece destapar uma imagética que redescobre as origens desse tradicional género musical português. Vendo bem as coisas, sempre lá estiveram, apesar de que, por vezes, o que nos chega é ainda uma lavagem que a ditadura fez de um estilo popular e que outrora era tão subterrâneo e alternativo como o punk ou o contemporâneo hip hop.
Fado Tropical é o sexto disco de Rita Braga e saiu no segundo dia de abril para derrubar muros e, em forma de tributo, chegar a lugares novos. Ukulele e marimba substituem a viola e a guitarra, enquanto as vozes de Paulo Furtado e JP Simões colaboram num construção exótica mas que, no final, soa a fado. Um fado novo assente na antiga forma de cantar de Ercília Costa e Herminia Silva. Rita Braga contou ao Rimas e Batidas como um profundo trabalho de investigação e pesquisa sobre as raízes marginais do fado antigo resultam numa obra refrescante e moderna.
Comecemos pelo inicio: como surgiu esta ideia de fazer um álbum dedicado ao Fado? Sabemos que houve um momento no Brasil que esteve na origem deste caminho. Queres contar-nos como aconteceu?
Acho que houve dois momentos. Uma turnê que eu fiz no Brasil no verão de 2024 para promover o meu disco anterior — o Illegal Planet. Já não ia lá há onze anos. É inevitável, para quem não me conhece e sabendo que sou portuguesa, perguntarem: “É portuguesa, não canta o fado?” Perguntaram-me isso tantas vezes! Nós sabemos que nem todos os portugueses tocam e cantam fado e que até é um universo bastante especifico. Mas estando lá, eu comecei a pensar: “E se realmente eu explorasse o fado?” Era tão improvável que eu achei interessante ir por um caminho que não fosse óbvio. Também houve uma entrevista com um artista que eu admiro imenso, que é o Arrigo Barnabé, da cena vanguardista de São Paulo dos anos 80. Ele fez-me perguntas a cerca do fado. Eu contei-lhe a história da Maria Severa. E ele perguntou-me se eu conhecia a teoria de que o fado nasceu no Brasil.
Surpreendente…
Eu nunca tinha ouvido essa teoria, mas depois percebi que o musicólogo Rui Vieira Nery defende muito essa teoria. Comecei a achar interessante explorar o fado. E, quando cheguei a Portugal, comecei a pesquisar os primórdios do fado. Li livros muito antigos, partituras, ouvi gravações e comecei a descobrir coisas muito interessantes. Entre outras, que a maneira de se fazer o fado era muito diferente. O fado já passou por uma evolução muito grande. Então descobri imensas coisas: a forma de cantar, quem eram as cantoras e os cantores, onde é que tocavam. Achei isso muito interessante como um ponto de partida. Mas depois a intenção não foi fazer de forma tradicional. Fiz a minha escolha dos instrumentos, tocar com o ukulele, convidar vários músicos. E chamei o tal Fado Tropical.
É curiosa a ideia de um “fado tropical” ter despertado em ti num país tropical. Esse tropicalismo veio desde a origem, ou foi algo a que chegaste mais tarde no processo e com o amadurecimento das ideias?
Sim, veio muito daí. Do Brasil, da tal entrevista com o Arrigo Barnabé, que eu admiro imenso. E também houve um festival anterior — o MAP em Lisboa —, quando me convidaram para fazer a música para um poema da Catarina Santiago Costa. Eu fiz a música para o poema dela e, sem querer, aquilo soou-me um bocadinho a fado. Mas era com violoncelo e com a marimba. Eu pensei: “Tenho aqui qualquer coisa para trabalhar para o próximo disco”. Então foram essas duas coisas que me deram vontade para avançar.
Fado Tropical é um oxímoro. Aparentemente, dois conceitos opostos, pelo menos, numa conceção mais superficial dos significados. O que te levou a uni-los? E que pontes viste entre eles?
Exato, tem algo do passado. Resulta da pesquisa aos arquivos, de fazer essa investigação e de aprofundar os interpretes e toda essa história das primeiras décadas. Talvez os primeiros cem anos do fado. Depois, a minha música não é tradicional, não pretende ser. No fundo, é fazer aquilo que eu já fazia. Já fiz muitas versões de temas antigos e esquecidos mas, neste trabalho, debrucei-me sobre uma coisa mais portuguesa que tem a ver com o fado. Eu gosto imenso de música do Brasil e há vários pontos que se unem. Não só pelo idioma. Até a palavras que já não se usam em Portugal e que ainda se usam no Brasil. Essa nova possibilidade de que o fado talvez tenha nascido lá e se misturou com outras influências em Lisboa. Por exemplo, nesses livros da história do fado do inicio do século passado, relatam que a Severa cantava e requebrava. Fazia assim uns movimentos e dançava meia requebrada. Eram também palavras que eu conhecia da Carmen Miranda. Portanto, havia esse lado e um lado sensual. Era uma música clandestina e levou-me a pensar: “Se calhar o fado é o nosso rock & roll.” [risos] Aquilo era um sub-mundo e mais tarde passou para os teatros e houve todo um caminho do fado ao longo de muita história. No entanto, começou por ser uma coisa extremamente underground. E eu também sempre explorei coisas assim. Todo esse universo achei fascinante. Os nomes deles, todos tinham alcunhas, e eram todos muito castiços. Passavam metade do tempo na prisão também. Penso que isso está muito esquecido. Por um lado, prestar tributo a uma história esquecida mas, ao mesmo tempo, dar uma vida nova, com cores novas, a essas coisas antigas.
Há alguma canção do disco onde sentes essa ideia de “fado tropical” de forma mais evidente?
O tropical acho que tem, sobretudo, a ver com os instrumentos. Eu toco ukulele em todos os temas. Há dois em que toco banjolele. Há a marimba. Tem mais a ver com a sonoridade. Ou seja, essa ideia não tem a ver com a letra mas mais com os instrumentos.
Precisamente. Uma das coisas mais impressionantes é que essa aparente contradição estende-se quase a paradoxo quando descobrimos a instrumentação, e parece revelar uma verdade nova. Como é que sem os habituais parceiros — a viola e a guitarra, substituídos pelo ukulele e a marimba — o teu disco soa a fado?
Pois… A maneira de eu cantar. Realmente, inspirei-me nessas fadistas mais antigas, como é o caso da Ercília Costa. Foi a primeira fadista internacional nos anos 20. Fez turnê nos EUA, no Brasil e na Argentina e está também muito esquecida. Eu identifico-me com a forma de cantar dessa época dos anos 20 e 30. Já tinha cantado coisas norte-americanas, francesas, portanto, faltava o português. Achei interessante pegar na cultura do meu país. Pareço uma emigrante: “Saudades do meu país.” [risos] Acho que são coisas que não são muito divulgadas e achei interessante trazer ao de cima.
Surpreendeu-te o resultado ou foi uma sonoridade que foste construindo de forma consciente?
Eu chamei fado tropical para dizer que é um estilo. Partiu do ukulele com a marimba. A ideia era pôr a marimba no lugar da guitarra portuguesa. Foi uma experiência que eu fiz com a percussionista Ryoko Imai com quem já tinha colaborado ao vivo em Lisboa. Foi ela que tocou as percussões em todos os temas. Para além dos outros percussionistas, a Suse Ribeiro o Rui Rodrigues. Comecei a explorar e achei que tinha chegado a algo interessante que era cantar fado com ukulele e marimba. Depois, imaginei notas longas num instrumento grave como o violoncelo e o saxofone barítono. Além disso, eu gosto cada vez mais de produzir discos, dessas ideias de produção e das escolhas. No fundo, eu estou a interpretar os temas na sua verdadeira estrutura e com a letra original. O que muda são mesmo os arranjos e os instrumentos. Portanto, há sempre algo de fado porque a canção esta lá. Os instrumentos é que são outros.
Ou seja, mesmo trocando instrumentos, o fado permanece. Na tua opinião, onde reside, afinal, a essência do fado?
Eu fui à procura desse fado muito antigo. Um pouco esquecido. Da Ercilia Costa, do guitarrista Armandinho que a acompanhava. Textos de fadistas do século XIX cuja a música se perdeu. Há um muito dramático que é “Um Quarto de Hora” e que aborda os últimos quinze minutos da vida do fadista. Outro muito cómico que é o “Cinza e Pó”, com os esqueletos que estão no cemitério a dançar o fado liró. Eu não escrevi nenhuma destas letras. No fundo, estou a interpretar esses textos ou essas canções. Também há peças instrumentais que eram para guitarra portuguesa mas foram com ukulele e marimba.
Houve uma transferência direta da guitarra portuguesa para a marimba?
Sim, em alguns casos foi literal. Há duas peças instrumentais que eram para guitarra portuguesa — “O Fado da Meia-Noite” e o “Fado Menor” — que eu pedi à Ryoko para tocar. Ela leu literalmente a partitura na marimba e eu fiz a harmonia com o ukelele. Depois há o João Cabrita no saxofone ou a Bruna Moura a tocar violoncelo. Foi criar algo novo.
O Brasil foi o lugar de partida, mas existem outros elementos (sejam eles musicais, rítmicos ou emocionais) que tenham permanecido no disco desse lugar?
Há o caso do “Chão de Estrelas”, que é uma música brasileira dos anos 30 e que eu sempre achei que soava um bocadinho a fado. No Brasil é um grande clássico. Cá em Portugal, se calhar, foi a primeira versão que existe dessa canção. Eu conheci pelos Mutantes, na verdade, mas era um tema do Sílvio Caldas. Esses cantores do Brasil dos anos 30 eram chamados os cantores da rádio. Cantavam num estilo muito contido e muito solene. Com um dicção muito clássica. A primeira vez que ouvi até pensei que era uma caricatura dos Mutantes a um fadista. Depois é que percebi que eram os cantores brasileiros antigos. Mas recuando no tempo há, realmente, uma aproximação entre o Brasil e Portugal. Há vários pontos que se tocam.
Este disco é o resultado de um longo trabalho de pesquisa e investigação. Sabemos que duas dessas inspirações, ou fontes onde foste beber, são dois livros: um de 1903 — A História do Fado do Tinop — e outro de 1904 — Triste Canção do Sul de Alberto Pimentel. O que descobriste a nível musical, ou até do ponto de vista histórico e social, que mais te tenha surpreendido?
Esses livros são mesmo sobre o fado do século XIX. Foram escritos em paralelo mas foi uma coincidência. Eles não sabiam e saíram quase ao mesmo tempo. O Tinop, que era o Pinto de Carvalho, foi mesmo às tabernas. Vê-se que era um boémio e conheceu as pessoas todas. Entrevistou ainda contemporâneos da Severa. O outro, se calhar, era mais literário. Muitas fontes escritas. Ambos dão um contributo enorme e várias propostas de onde surgiu o fado. Descrevem a evolução ao longo das décadas do século XIX e apresentam imensos textos que eles ouviram e transcreveram, cuja música se perdeu. No “Cinza e Pó” e no “Um Quarto de Hora” eu fiz a música. As fadistas eram prostitutas inicialmente. Depois passaram para os teatros. Havia muita coisa das cantoras/atrizes que também eram fadistas. Já depois dos livros houve o fado anarquista. E, mais tarde, o regime absorveu o fado porque o fado era uma música extremamente popular mas não era bem vista pelo regime. Pensaram que o melhor que podiam fazer era absorver e torná-lo música nacional. Mas durante muito tempo o fado era mal visto. Era clandestino.
O que bebeste desses livros musicalmente?
Não dá para ouvir a música porque foi antes das gravações. Tem letras e tem muitas descrições de como era interpretado. Do ambiente, das tabernas. Elas eram prostitutas e eles eram sapateiros. “Ele era sapateiro até cair no ofício da malandragem.” [risos] Eles normalmente iam parar à Prisão do Limoeiro. Há ali todo um universo…. Todos tinham alcunhas tipo “calcinhas do Cais do Sodré”, “borboleta”… E descreve mulheres extremamente excêntricas que se vestiam de homem. A mãe da Severa era a “Barbuda”, tinha barba. Isso fez-me pensar que realmente as mulheres do século XIX que eu associava ao espartilho, na verdade, eram as senhoras que estavam em casa num ambiente muito mais repressivo. E elas no submundo é que eram a loucura total. Morriam aos vinte e tal como a Severa. Isso de elas se vestirem de homem, de rirem e beberem, quebrava qualquer norma. Portanto, havia uma divisão muito grande do sub-mundo e do mundo à superfície. Isso foi interessante. Eu não sabia nada disso.
Como é que dois livros publicados há mais de cem anos e que retratam, sobretudo, o que acontecia no século de XIX, servem as inquietações e a criatividade de uma artista do século XXI?
[risos] Além dos livros, ouvi também muitas gravações de início de século. O museu do fado tem um arquivo sonoro com dezenas de discos de grafonola. Li também as partituras. Lisboa e Porto já passaram por muitas transformações nos últimos anos até virarem sítios muito turísticos. O Bairro Alto tem imensa história boémia já dessa altura. Tentei recuar muito na história e imaginar como seria o Bairro Alto daquela época. Para mim é sempre interessante conhecer coisas do passado e perceber todas as transformações. Como isso responde às minhas inquietações eu não sei, mas como é tão recuado no tempo achei que era interessante recuperar. É tão antigo que se torna novo.
Já mencionaste a Ercília Costa, mas que outras fadistas antigas te inspiraram na forma de cantar?
Sim, a Ercília bastante. A Herminia Silva gostei muito dela. Aliás, há um tema dela no disco — o “Sou Miúda” — que foi o seu primeiro sucesso na década de 30, e aquela maneira delas cantarem. A Herminia tinha imenso humor, tinha imensos personagens, entrava em filmes. Havia esse lado muito ousado das fadistas. Há imensos estereótipos acerca do fado, acho que foi também para tentar quebrá-los e para lembrar que já passou por tanta coisa que fiz este trabalho. No fundo, relembrar as origens, mostrando que as coisas não são tão preto e branco.
Desde de ’83, com o Fado bailado do Rao Kyao, e no inicio do século XXI, sobretudo com a Ana Moura, que novos instrumentos servem o fado — o saxofone, a bateria, o baixo, a guitarra elétrica. Achas que este caminho, que tu própria desbravas agora e que tem vindo a libertar o fado da sua ortodoxia, o beneficia? Em que sentido?
Acho que, talvez, o fado andou cristalizado durante várias décadas. Eu respeito imenso a tradição. Não sou eu que vou querer mudar aqui as coisas. Eu não sei como vai ser a reação ao meu disco. Acho que é um bocado claro que é um tributo. Quis usar esse fado muito antigo para chegar a algo novo. É uma coisa muito pessoal que eu estou a fazer. É toda uma nova roupagem sobre esse fado antigo e a tal canção brasileira também ela antiga. Mas não só, o último tema, “Rua do Capelão”, é o fado mais conhecido do disco. Entrou no primeiro filme sonoro português. Eu fiz um arranjo meio havaiano que achei que tinha a ver. O Havai também tem muita relação com Portugal. O ukulele foi inventado por madeirenses. A guitarra havaiana foi desenvolvida por um luso-descendente que era o Frank Ferera. Eu sempre gostei de conhecer música desse período e de divulga-la. É a minha forma de conhecer e ao mesmo tempo também de criar enquanto artista.
Dentro dessa lógica que faz cair muros, vemos que trouxeste para o teu lado notáveis como JP Simões, o Tó Trips e o Paulo Furtado. Qual foi a intenção? E de que forma essas participações influenciaram o resultado final?
Para já, são músicos que eu admiro. Com o Paulo Furtado eu já tinha colaborado no Femina em 2009 e achei que era interessante convida-lo para um disco meu. Do JP Simões gosto imenso de muita coisa que ele fez e da voz dele. Achei que era indicado para o “Chão de Estrelas”. Acho que a voz dele encaixou muito bem ali, tanto é que o escolhi como single. O Tó Trips curto imenso a forma dele tocar. Ele tem coisas de fado nessa forma peculiar de tocar e também com outras influências. No caso dele foi um tema da Ercília Costa com o guitarrista Armandinho em que a letra fala da guitarra. Só que em vez da guitarra portuguesa escolhi a guitarra do Tó Trips. Tem esse lado de rock também.
Qual era a tua relação com o fado até aqui? Era uma realidade que estava perto ou distante de ti? No fundo, qual era o apelo, se é que havia?
Eu sempre ouvi música muito variada. O fado não era o que ouvia mais. Mas tinha um disco dos anos 20 do Armandinho. Ao fazer a pesquisa, vi também muitas entrevistas do Alfredo Marceneiro sobre os anos 10. Ele dizia que o Armandinho é que pôs a guitarra a cantar. Havia muito a imagem da fadista com a sua própria guitarra a solo. Ou seja, essa guitarra como acompanhamento surge com o Armandinho. Não estava lá desde o início. Descobri a Ercíla Costa há uns três, quatro anos porque uma editora inglesa lançou um disco dela, e tem lançado também fados dos anos 20. Como já ouvia muita música desse período, achei que era interessante aprofundar na música portuguesa o fado dessa altura que não é muito divulgado. Não tinha muita relação, na verdade. Sabia algumas coisas como a historia da Severa. Eu tirei um curso, há muitos anos, e o Nuno Saraiva foi meu professor. Os desenhos dele vão muito para aqui e quando comecei a ler o livro do Tinop escrevi-lhe logo a dizer: “Tu andaste a ler isto!”. Ele disse-me que quando começou a desenhar foi depois de ler o livro. Depois também comecei a conhecer outras histórias pelo Nuno. Por exemplo, das tatuagens dos fadistas. É um pouco o imaginário dele e sempre me interessou. Mas cada disco é diferente, então aqui foi primeira vez que aprofundei mais o fado. Também adorei ir ao Museu do Fado. O Tó Trips também me falou de uma fadista, contemporânea da Ercília Costa, a Maria Alice, que tinha letras extremamente feministas. E até tem o “Fado Tango” com outra letra, mas só descobri depois de gravar. Há sempre coisas por descobrir.
Ao quinto álbum, sendo tu uma artista com um percurso com mais estrada internacional do que nacional e observando em perspetiva a tua carreira, este parece-te um passo natural ou de alguma forma é inesperado e até disruptivo com o que tens feito?
Sim, é disruptivo. Até porque nos dois últimos álbuns tinham muitas caixas de ritmos, teclados analógicos… Aqui despi-me disso. Até porque já tinha ouvido o comentário “Rita Braga com o seu disco cheia de caixas de ritmos” como um elogio. E pensei “então agora vou cortar.” O primeiro álbum, curiosamente, era mais acústico e em várias línguas. Se calhar, desta vez o foco foi muito mais específico. Na verdade, é o sexto disco, porque houve um EP que produzi no Brasil, e este foi o primeiro em eu quis mergulhar na língua portuguesa e na interpretação. Coisas que eu já fazia mas aqui com o foco mais definido.
Sentiste algum receio de ser ousada neste território? Ou de certa forma condicionada pela tradição?
Sim, acho que foi bastante ousado. Muitas vezes pensei: “Vou fazer um disco com fados antigos mas com ukulele e marimba.” E ficava: “Vou? Não vou?” E perguntava: “Eu estou mesmo a ir nesta direção?” [risos] Como se estivesse a entrar no mar e a perder o pé. Agora que já estou aqui, agora vou mesmo. E acho que, enquanto artistas, é preciso fazer estas coisas. Não quero pegar numa fórmula para repetir. Portanto, sim, acho que foi ousado criativamente.
De que modo o teu percurso noutros estilos se cruzam aqui neste novo trabalho?
Sem dúvida. Musicalmente tem várias influências. Por exemplo, está presente no disco, no último tema e também na capa, o estilo exótico do Martim Denny do final dos anos 50, início dos 60. Eram discos em que eles imaginavam paraísos tropicais, ilhas exóticas. Era uma imaginação fabricada na Califórnia sobre sítios que não existiam. Então há essa ideia de um fado primordial. Tem muita marimba, muito vibrafone e sons de pássaros e isso é uma influência desses discos. Por exemplo, o “Sou Miúda” da Herminia Silva tem um lado dos “balcãs”, de bandas sonoras. Eu gosto muito de filmes e tenho uma ligação à Sérvia. Toquei muito nesses países. Tem muito de Goran Bergovic. Eu pedi ao Cabrita para fazer uma coisa meio desse género. “Cinza e Pó” é mais folk. Acho que é o tema que soa menos a fado e não foi feito para soar. A letra era de um fado, a música perdeu-se. E o Cabrita foi o primeiro a contribuir e disse: “Isto é um bocado entre fado e Tom Waits”. Achei engraçado, foi sem querer, mas realmente tem algo a ver. Tem cabaret, música brasileira, acho que tem muita coisa do meu percurso.
As letras são novas ou foram retiradas dos livros?
O único tema novo é do “Vita Nuova”, o tal que compus para o festival que falei no início. Esse é um tema de 2023, é única exceção do disco. Foi um ponto de partida. Os outros são temas em que respeitei a letra e a estrutura. São todos fados antigos e que estão quase todos bastante esquecidos. Tirando a “Rua do Capelão”, que ainda hoje é muito interpretado. Mas não no registo havaiano. [risos] Era para lhe chamar “A Rua do Capelão em Waikiki.” Quase todos estão associados às musicas. Depois há os dois casos do “Cinza e Pó” e do “Quarto de Hora” que estão nesses dois livros — A História do Fado e A Triste Canção do Sul — em que a música se perdeu. O “Cinza e Pó” foi estranho, porque no livro do Tinop há um momento em que há páginas e páginas de quadras de fados, e há muitos que falam de cemitérios e caveiras. [risos] Eu nunca vi isto no fado. Fiz um levantamento de quadras com a caveiras e cemitérios e compus a música. É o tal que o Cabrita diz que soa a fado com Tom Waits. Há ainda um vídeo que sai com o álbum sobre esse tema. O que é curioso nessas letras é que há palavras que já não se usam. Como por exemplo: banza, que era o que chamavam à guitarra portuguesa. Há um livro também, já dos anos 80, que era de um académico, que no final faz um levantamento do calão, uma espécie de glossário. Eles eram bandidos, no fundo. Por exemplo: “esfriar alguém” era matar alguém. Ou “fazer uma gravata”, que era partir a guitarra na cabeça de outra pessoa”. [risos] Dava quase para fazer outro disco com esse calão.
Eis que ao sexto disco, surge o primeiro totalmente em português, como é que isso aconteceu?
Foi algo que quis e, também em parte, já interpretei temas em muitos idiomas. “Como é que ainda não cantei em português? Como é que já cantei rebetika em grego, que até comparam muito ao fado, e não cantei o fado?” Achei que, realmente, estava na hora de ter um disco todo em português. Também por estar no Brasil a tocar o meu último disco e a cantar em inglês. Eu tinha alguns temas originais em inglês no último disco. Fiz isso porque toco frequentemente em muitos países que não sabem o português e é uma forma de entenderem a letra. Mas estando no Brasil, pensei: “Que estupidez! Porque é que eu estou no Brasil a cantar em inglês?” Então apeteceu-me fazer um disco todo em português.
Essa escolha pode ser um caminho que queres trilhar também para o futuro?
Cada disco é um disco. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, como se costuma dizer. Mas este disco é, para já, um disco que estou a pensar tocar mais em Portugal. Estou a introduzir um trio, logo logisticamente é mais difícil tocar fora. E há muitos sítios onde nunca toquei por cá. Creio que com este disco existe um potencial para o fazer.
Percebemos que te juntas ao grupo de artistas contemporâneos que resgata a tradição para a reinventar. De que forma isso é uma opção criativa que responde à tua criatividade e às tuas inquietações ?
Eu sempre tive esse interesse em conhecer músicas muito antigas porque gosto. Comecei a pensar: eu ouço imensa música brasileira dos anos 30, conheço imensa música norte americana, conheço música francesa, até música da Polónia. E em Portugal a música dessa época está muito esquecida. Acho que a Amália Rodrigues mudou a forma de cantar o fado. Tudo o que veio a seguir à Amália é muito influenciado pela forma dela cantar. A própria Amália dizia que tinha introduzido uns rodriguinhos. Tinha família da Beira e gostava muito de música de Espanha. Ela deu o seu contributo mas foi tão marcante que acho que há um antes e um depois dela cantar. Este trabalho foi também para conhecer coisas anteriores e que estão bastante esquecidas.
Onde vais apresentar o álbum? E quais os concertos agendados para este trio?
Para já tenho as apresentações em Lisboa e no Porto. No clube RCA, a 14 de Maio, em duo, com o percussionista Rui Rodrigues. O trio vai ser em Lisboa, na Galeria Zé dos Bois, já com o Cabrita. Vou estrear esses dois formatos, em duo e em trio, e vamos começar agora os ensaios. Tenho várias ideias, mas vamos ver. Tenho mais datas fora, mas não com este disco. Este sai em vinil. Também tem edição colorida que é lima translucida, como se fosse uma caipirinha. [risos]
Tens uma expectativa meramente nacional ou também internacional? O Brasil por exemplo.
Sim, eu gostava muito de voltar ao Brasil. Aliás, estou a divulgar o disco lá. O “Chão de Estrelas” já foi bastante elogiado por lá. É um tema que lhes é muito querido e ouvirem-no com o sotaque português, pronto. No Brasil, tenho vários contactos em São Paulo. Gostava de voltar ao nordeste também. Há um festival em Recife. Provavelmente, o que aconteceria era colaborar com músicos lá. Não sei. Por agora é ver como as coisas correm.
Terminado este trabalho, com que tipo de relação ficas com o Fado?
Pois, eu passei a adorar toda esta história do fado. Este disco é bastante especifico. Mas espero voltar a mais casas de fado quando voltar a Lisboa. Gostava de travar conhecimento com pessoas mesmo do fado com quem não tenho muita relação. Na minha família havia um amigo dos meus pais e dos meus avós que era o médico dos fadistas. Ele morreu antes de eu nascer. Até está no museu a caricatura dele. Os meus pais têm muitas histórias. Ele conhecia todo o meio artístico. Portanto, havia alguma ligação, mas não tanto do meu tempo. Por isso, gostava de travar conhecimento com mais pessoas da área. Não sei como vão reagir. [risos] Isso agora é um incógnita.
É importante para ti saber das reações ou é algo que te passa ao lado?
Não sei qual vai ser sinceramente. Deve haver pessoas mais ligadas à tradição que vão estranhar. E, se calhar, alguém pode achar interessante. Eu não estou a tentar mudar o fado. Estou a fazer este disco porque achei que era interessante para mim e para quem escutar. Também não é dirigido ao público especifico do fado. E talvez não faça muito sentido este concerto aparecer no circuito tradicional do fado. Vamos ver como se desenrola. Acho que é mais abrangente.
Paralelamente, sabemos que há um trabalho teu que está para chegar em colaboração com o Rui Reininho e com o Leonardo Pinto. O que é?
Sim. Isso foi uma residência que nós tivemos, na Casa Varela, em Pombal, durante o mês de Novembro. E apresentámos o resultado no auditório da biblioteca. Foi filmado pela RTP, vai ser transmitido na RTP Palco e vai sair o concerto em vinil. Não sabemos quando. Na verdade, eles convidam sempre alguém da região. Neste caso, foi o Leonardo Pinto que é um rapaz muito talentoso. Ele toca imensos instrumentos e também desenha, só que está no secundário, tem dezassete anos. Toda a gente o conhece lá em Pombal. Ele é incrível. Fizemos temas originais e algumas versões de cada um. Tem um lado experimental e de canção. As pessoas gostaram bastante. Foi muito intenso.