Rimas & Melodias: “Ser mulher no Brasil ainda é muito difícil”

[TEXTO] Núria R. Pinto [FOTO] Yago Peréz

Nasceram este ano para mostrar que há muito talento nas várias vertentes do hip hop brasileiro. MCs, cantoras e uma DJ que recusam rótulos ou aceitar que o movimento será sempre masculino, embora tenham bem presente que precisam “se esforçar o dobro para ter a metade”.

Tatiana Bispo, DJ Mayra Maldjian, Drik Barbosa, Stefanie, Karol de Souza, Tássia Reis e Alt Niss não partilham as mesmas origens, mas sim o mesmo foco e vontade cruzados com os diferentes estilos e influências individuais. Estiveram à conversa, em São Paulo, com o Rimas e Batidas.

 



Como é surgiu esta ideia de criar o Rimas & Melodias?

[Tatiana Bispo] O Rimas & Melodias surgiu porque eu estava na minha casa um dia, lá, escutando minhas músicas, fazendo as minhas pesquisas musicais e eu comecei a ver umas cyphers de alguns grupos que tinham cantoras, também. Achei muito interessante o formato porque, normalmente, quando tem cypher, a gente só vê gente rimando. E eu falei, como eu sou cantora, “que legal se a gente pudesse fazer um negócio assim e que eu pudesse participar também, juntamente com outras meninas que cantam, né?”. Eu já estava em contacto já fazia uns meses com a DJ Mayra (Maldjian) e aí eu perguntei para ela se ela topava o desafio, né? Porque no começo foi meio que um desafio, mesmo, de juntar umas meninas para fazer isso. Eu já tinha os nomes das meninas que eu queria que participassem ou porque eu tenho contacto já com elas, já faz um bom tempo, ou porque eu era mais amiga ou porque eu já conhecia o trabalho. E aí a gente fez o convite para cada uma delas individualmente, explicando como seria, o que é que a gente queria fazer, e tudo mais… E foi acontecendo muito naturalmente porque era para a gente fazer só uma festa, um vídeo só no YouTube. E o negócio foi crescendo e as festas começaram a ficar maiores, a equipe foi crescendo, foi desenrolando bem o negócio. E agora a gente está dando entrevista para Portugal! (Risos)

Pois é, agora é a sério! Então mas foi uma ideia das duas (Tatiana e DJ Mayra), inicialmente?

[DJ Mayra Maldjian] É, foi da Tati e eu já tinha vontade, também, de trabalhar com meninas do R&B. Porque eu sou DJ, sempre toquei hip hop, desde 2008, e eu sempre acompanhei a cena das cantoras, também. Das minas do rap, as que rimavam e das cantoras de r&b que ficavam mais fazendo refrão ou fazendo backing, sabe? E eu falava “ah, vou ver o que elas andam fazendo!”. E a maioria já tinha single lançado, um clipe ou outro. E aí quando a Tati veio com essa ideia eu falei “Nossa, maravilha! É isso que eu quero.” Aí a gente uniu forças e estamos aqui.

São mais fortes em conjunto do que sozinhas? De que forma é que acham que isso vos beneficia?

[Tatiana] Estava conversando isso com a Mayra esse dias. Quando a gente está juntas, as pessoas sentem… Porque é assim, inevitavelmente, quando junta um monte de mulher, porque mais que esse não seja o motivo principal – ah, vamos falar de todos os problemas que a gente passa e não sei quê – é impossível a gente não falar disso. Não tem como fugir desse assunto. E a gente tem um público, a maioria desse público são mulheres que se identificam muito com o que a gente está falando, né? E fora isso, sobre o discurso que é muito forte, quando a gente está juntas e tudo mais, as pessoas vem a gente se dar muito bem. Nós somos sete meninas que se dão muito bem, então isso que acaba sendo uma troca mesmo de vibes, sabe? A gente tá lá fazendo com amor o negócio para as pessoas e elas estão sentido isso. Não é uma coisa: “ah, eu não suporto não sei quem e eu vou ter que trabalhar com ela…” (Risos) É lógico, isso. A gente não tem um coração gigante, todo o sempre, 24 horas. Mas a gente se respeita, se dá muito bem e as pessoas sentem isso. Então, eu acho que o jeito que a gente se comporta entre nós, acaba influenciando em como o público vê a gente. Acho que isso é muito importante. Né? E fora que entre nós, mesmo, a gente aprendeu a se escutar, a se organizar, somos muitas! Então a gente tem que saber: “peraí, ó! Esse espaço aqui é a minha mala! Dá para você dar um jeito…” Entendeu? Tanto coisas pequenas como com a música. “Vou fazer essa parte, aqui, o que é que você acha?” Sabe? Porque para fazer uma música onde nós sete participamos, todo o mundo tem que gostar da música no total, no geral. É muito isso, uma respeitando a outra, abrindo espaço e entendendo, dando sugestão e a outra sabendo aceitar essa sugestão também é muito um trabalho de conjunto, mesmo. De verdade.

Disseste que receberam muito feedback principalmente de mulheres… mas e os homens?

[Tatiana] Também. A gente vê… A Drik (Barbosa) fala isso. Uma vez ela disse isso. Muitas vezes a gente sobe num palco… – depois você até comenta isso melhor, Drik? Porque acho que as suas palavras vão ser melhor ditas por você. (Risos) Mas, os homens, muitos já chegaram e me falaram assim: “Que legal o que vocês estão passando porque muitas vezes eu sou esse babaca das músicas que vocês estão cantando e eu não quero ser!” Entendeu? Quase sempre! “E eu nem sei que eu estou sendo esse cara imbecil, sabe? Então que legal puder escutar o que vocês estão falando, da forma como vocês recebem qualquer tipo de… Imagina para eles uma frase pode querer dizer que eu achou a mina bonita mas para nós é tipo, cara, que imbecil que você está sendo de mexer comigo assim, sabe? E eles não estão vendo e agora a gente está falando para eles que eles são uns imbecis, entendeu? Os caras estão reconhecendo que a gente está lá para ter a nossa voz ali, activa. Tem muitos caras que estão reconhecendo o nosso trampo, sim.

[Drik Barbosa] Então é essa parada mesmo. Eu acho que muitos caras têm chegado na gente depois do show e falado: “Mano, que da hora o trampo que vocês estão fazendo. Explodiu minha mente. Vocês mostraram que a gente está errando pra caramba!” Saca? Então é muito legal, muito bonito de ver que o ego deles baixa um pouco para chegar na gente e falar isso, saca? E é assim, eu acho que está cada vez maior a presença dos homens na nossa plateia e isso é maravilhoso. As girls levando os boys para ouvir lá, sabe? Tipo, “tá vendo o que é que eu te falo? As meninas lá, também!” Saca? E está sendo muito legal, é muito legal de ver isso, assim. Não necessariamente porque somos mulheres e falamos de problemas de ser mulher, de ser artista, não necessariamente o nosso público tem que ser inteiramente feminino. Lógico que as meninas se identificam mais com nossa mensagem. Mas, pôxa, como é importante todo o mundo ouvir a gente. Todas as idades ouvirem a gente, saca? E é muito delícia sentir, assim, essa diversidade no nosso público. É maravilhoso.

Ainda há muito a questão de existir o rap e depois o “rap feminino”…

[Drik] Que saco…

Exacto. O que é que achas que falta para mudar isso?

[Drik] Falta respeito, eu acho. No geral assim, saca? No movimento, na sociedade, no mundo. Falta respeito. Porque assim, a partir do momento em que você bota lado a lado o rap e o “rap feminino”, quer dizer que o rap foi feito só para os caras. E o rap feminino é onde se enquadram as mulheres que fazem rap… Isso é uma forma de nos colocar mais para baixo, o nosso trabalho, saca? Eles criaram uma vertente nova do rap só para colocar as mulheres e isso não precisa. É música, é vida, é o corre, é o rap, sabe? A gente faz parte do rap. A gente trabalha tanto quanto eles, a gente cria tanto quanto eles.

[Tássia Reis] Às vezes mais…

[Drik] Às vezes mais! Na real, mais.

[Tássia] A gente tem uma fala… Não lembro de quem é agora, mas a gente diz que trabalha o dobro para ter a metade. E aí, isso é muito cruel, na verdade. Porque a gente enquanto cantoras, compositoras, artistas, né? Como qualquer pessoa a gente quer chegar e desenvolver o nosso trabalho mas tem vários impedimentos quando você é uma mulher. Tem várias barreiras, desde a forma como os caras falam com a gente – hoje mesmo, de tarde, barraram a gente num outro evento onde a gente ia entrar, sabe?

Porquê?

[Tássia] Porque falaram que a gente não tinha credencial mas ninguém tinha credencial. E aí estavam deixando entrar todos os homens… Devem ter achado que a gente só estava lá para pegar homem, sabe? (Risos) E não simplesmente para fazer o trabalho. Então nessas circunstâncias eu só consigo pensar que os caras estão sendo machistas, sabe? Enfim. Então tem essa questão do “rap feminino”, né? Acho que, quando eu penso que a gente sente muito orgulho em representar as mulheres, isso é um facto. Porque durante muitos anos a gente não teve voz, teve pouquíssimas representantes falando por nós, sabe? E hoje a gente consegue ter, só no time, sete mulheres extremamente potentes que têm trabalhos individuais mas que somados também têm um trabalho incrível. Acho que já é muito revolucionário, principalmente nesse momento em que a gente está vivendo uma grande ascensão de mulheres no rap, eu tenho muito orgulho de representar o rap “feminino”. Como tudo na vida, eu acho que a gente pega isso que foi destinado para a gente e a gente transforma isso numa coisa super positiva e questiona, sim. Porque é que o rap não é o rap masculino e a gente tem que ser o rap feminino?

Porque é que o rap não é o rap, só.

[Tássia] Exactamente. Porque se não for assim a gente vai colocar o rap masculino, também, e aí nunca vai ser o rap, só. Sabe? A gente sabe que não é bem assim que funcionam as coisas mas a gente está aí lutando pra ter essa fatia do bolo aí, também.

Vocês sentem que estão a abrir espaço para outras mulheres acharem que conseguem vingar na sua arte, seja ela qual for? Já tiveram esse feedback?

[Tássia] Já, já tivemos. Acho que juntas e separadas, também. Eu sinto que toda a vez que uma mulher consegue se firmar, dar um direccionamento na carreira dela, lançar uma música que seja ou uma parceria bacana, e tal, ela está de alguma forma abrindo alguma porta que antes estava trancada. Porque a gente está num momento novo em que a gente está fazendo muitas coisas pela primeira vez, ainda, sabe? Então eu sinto que, nós todas, de diferentes maneiras… toda a vez que uma mulher manda bem num site de rap (risos) ou que seja grafiteira e está grafitando um muro, ela está abrindo uma porta para que outra também possa fazer isso, sabe? E a gente tendo essa consciência, de a gente estar fazendo isso, talvez a gente consiga fazer até mais… Mas a gente tem esse feedback e ele é muito bonito, na verdade. Eu sinto que eu estou no caminho certo cada vez que isso chega para a mim. Acho que as meninas também.

[Karol de Souza] É sobre fazer valer! É uma frase nossa, cantada pela Stefanie e pela Drik, e é isso. É sobre fazer valer. A gente fala de coisas de mulher/mulher preta que, na maioria, somos. E isso é importante no Brasil. As mulheres têm pouco acesso em tudo. É muito louco esse lance de você falar do “rap feminino” porque toda a vez que eu bebo água eu sou “bebedora de água feminina”, eu correr e eu sou “corredora feminina” (Risos), né? Se eu aceno…

 



Parece quase uma doença…

[Karol] (Risos) Não é? É muito louco isso! E eu sofro disso! (Risos) E a sua pergunta é óptima. Porque noutros casos a gente responde assim: “Como é ser mulher dentro do hip hop?” É como ser mulher andando de ônibus, como ser mulher dirigindo… Eu não fico pensando 24 horas por dia “Sou mulher negra, sou mulher negra!” Sabe? Sou um ser vivo, sou uma pessoa! Então quando eu faço rap eu me sinto um MC fazendo rap, eu sou uma MC. Não fica aquela coisa de “vou fazer um rap feminino, direccionado apenas para as mulheres!” (Risos) Sabe?

[Tássia] Acho que é importante porque os caras sempre falaram deles mesmos. E, tipo, até então isso é normal. Quando a gente vem falar da gente, “não, mas porque você está falando das mulheres!” Óbvio, eu sou uma mulher! (Risos)

[Stefanie] Eu chego numa conclusão de que se as pessoas ainda colocam rótulos é porque não acham normal.

Sim, e ainda existe essa coisa de “tu, para uma menina, até rimas bem”.

[Karol] Muito! Eu ouvi muito essa frase! Ouvi muito isso…

[Stefanie] Não é normal, assim… É muito louco que meninas que chegaram na gente e falaram assim “Nossa, eu vi vocês cantando e depois que eu vi, eu quero cantar!” Entendeu? É muito legal que a gente cola nos shows, a gente vê as crianças, as menininhas pretinhas… Elas olham, elas se espelham, elas tipo… A filha da minha prima, mesmo, ela reuniu todas as amiguinhas dela da escola e ela quer gravar um videoclipe igual a gente. E ela é uma menina preta. Com cabelo… Nós virámos referência para essas meninas que estão chegando, entendeu? Então, que a gente esteja passando por uma transição, né, de rótulos… E que, no futuro, né? Lógico que a gente quer que isso aconteça…

[Tássia] Na nossa presença…

[Stefanie] A gente ‘tá trabalhando. A gente não quer que elas vivam isso que a gente vive.

[Karol] Aqui no Brasil… Eu e a Stefanie, a gente já te mais de 30, então na nossa infância era quase que uma em um milhão. Mulher preta para ser referencia para a gente. E aí, de repente, você tá aqui com 30 e poucos anos sendo referência de crianças, de meninas, de meninas pretas, de meninas brancas, também, mas que se sentem livres para fazer coisas. Eu quero cantar rap, mamãe! Sabe? Ou “Mamãe, põe a música da “Elza”, uma música que a gente fez… Isso não tem dinheiro que pague, sabe? Isso aí é um legado, né? Quando você passa pela vida e você vai rumo ao fim da vida, você sabe que preencheu alguma coisa, que você deixou alguma coisa, sabe? Para os outros. Que você deixou uma coisa boa na terra. Isso é muito importante.

Porque ainda é difícil ser mulher no mundo mas é muito difícil ser mulher no Brasil de 2017. Quando vês coisas como, sei lá, PEC 181, seja o que for…

[Karol] É, quando você entra num ônibus, abre um jornal, ainda dá para ver o quanto mulher é morta, desrespeitada… Você liga a televisão, você vê que existe hoje um boom de mulher na TV, nas midias, nas propagandas… a gente sabe que isso não veio porque o mundo quis. Foi porque a gente foi lá e conquistou, a gente brigou por isso e tal. Ser mulher no Brasil ainda é muito difícil. É bem foda. Quando você é mulher ocupando uma profissão que é masculina, sim. Como o futebol. Ela é masculina, mas não precisa ser machista. Pelo contrário, os caras têm que abrir para a gente. Eles têm que receber a gente. Eles vão sempre ser maioria nessa porra. A gente sabe disso. Mas é… o espaço é nosso, também, sabe? Quando você sai para a sociedade você vê homens e mulheres transitando, convivendo, se encaixando. Porque no rap, no hip hop, no skate e no futebol tem que ser de outra forma, né? A gente tem que trocar, as coisas têm que ser assim. E também se não forem a gente vai fazer sé, né? Se não for fácil, difícil será mas a gente vai fazer. Já estamos fazendo.

Trabalhos individuais? Continuam ou estão em stand-by por causa do projecto?

[Stefanie] Eu estava fazendo o meu disco só que como tivemos a ideia de fazer o álbum do Rimas e graças a Deus está tendo um boom, aí. Então eu estou-me dedicando mais pro Rimas e ano que vem eu já estou preparando meu disco.

[Tássia] Acabei de lançar um single, agora, porque lancei uma marca que também se chama “Xiu!” E… Eu estou trabalhando nesse desenvolvimento, aproveitando também esse a agenda, essa tour que a gente está fazendo do Rimas & Melodias. Então, estou engatinhando em algumas coisas para o ano que vem. Eu tenho planos de fazer talvez um EP e um Disco, então, estou estudando para ver o que é que vai vir primeiro. Mas no ano que vem vai vir todo o mundo fervendo! (Risos)

[Drik] Eu! Esse ano eu assinei com a Laboratório Fantasma e a gente vai fazer um disco juntos que vai sair no meio do ano que vem, então eu vou entrar nesse processo aí de criar o disco… vai ser meu primeiro disco, de facto! Mesmo estando há alguns anos já no rap. E eu estou bem ansiosa. Mas enquanto isso sempre trampando com o Rimas.

[DJ Mayra] Antes do Rimas eu estava muito em stand-by assim… Não estava nem tocando como DJ e tal, porque eu estava revendo a minha carreira, porque eu sou jornalista, também. Mas aí eu vi que eu sou capaz de tanta coisa, sabe? Com o disco do Rimas eu fiz tanta coisa que eu nunca tinha feito enfim… numa obra fonográfica. Eu estou super empolgada, quero aprender a produzir, mais coisas… Então eu acho que 2018 vai ser um ano de muito estudo, assim. Para evoluir e fazer o que eu quero.

[Karol] Para fazer meu disco! Ela já esta trabalhando comigo… (Risos) A gente não sabe ainda se vai ser um EP ou um disco, a gente vai sentir, mas ele é mais direccionado pro trap que é a linha em que eu tenho actuado e a Mayra vai estar toda na criação comigo.

[Tatiana] Eu vou lançar meu EP no ano que vem, também, porque esse ano foi prioridade total o Rimas & Melodias por mais que a gente nem tivesse imaginado que ia acontecer, que ia ter um CD e tudo mais… Acabou que todas as energias foram consumidas aqui. E aí eu pretendo lançar o pacote completo, né? Video, EP e tudo mais. Mas isso vai ficar só para o ano que vem, mesmo.

 


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