Richie Campbell: “Se continuares a ser só aquilo que os teus fãs acham que tu és, eventualmente vais falhar”

[TEXTO] Núria R. Pinto [FOTOS] Hélder White [VÍDEO] Luis Almeida

A pouco mais de uma semana da apresentação de Lisboa na maior e mais relevante sala do país, Richie Campbell recebeu-nos naquela que, embora consideravelmente menor, tenha talvez sido a mais importante localização dos seus últimos anos.

O estúdio da Bridgetown, recentemente montado em casa às portas de Cascais, pode ter sido apertado para acolher todo o estaminé audiovisual, duas pessoas à conversa e outras tantas sentadas no chão, mas revelou-se espaçoso o suficiente para nele caber um artista que, à primeira oportunidade, tomou para si o direito de parar para olhar para a sua música. Sem pressões.

Mais de 10 anos de carreira mudam qualquer um e Ricardo não é excepção. Aos 31 anos e com uma visão bastante diferente sobre a importância de se manter fiel a si próprio, Richie Campbell entrega-nos um trabalho tão inevitável como a mudança. Da busca por uma sonoridade que o reflectisse, à frustração com os setbacks do caminho ou à importância das pessoas que o acompanham no processo, passeámos durante quase uma hora pela “Lisboa” que o viu crescer e que o leva, agora, ao palco da Altice Arena.

 


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Acho que é um bocado inevitável começarmos por falar desta “mudança”. E coloco mudança entre aspas porque muita gente poderá perceber a mixtape como sendo isso mesmo, embora exista espaço para pensarmos em evolução, por exemplo. Queres falar um pouco sobre isso?

Eu chamar-lhe-ia um bocado mais evolução porque foi mais isso que motivou a mudança, do que propriamente a mudança “for the sake of it”, percebes? Acho que o que aconteceu foi uma conjugação de duas coisas: tanto o facto de eu próprio sentir que me apetecia experimentar uma coisa diferente e exprimir-me de outra maneira e ter outra sonoridade, como também coincidiu com a altura em que eu construí este estúdio e comecei a trabalhar sozinho, pela primeira vez. Sempre gravei as cenas lá fora e ia sempre à procura das melhores pessoas para fazer reggae, percebes? E quando comecei a fazer as coisas aqui, sozinho, comecei a produzir eu. E na primeira vez que produzi, o que saiu não foi reggae… Sem estar a pensar sequer se o que estava a fazer seria para lançar ou não, não me saiu reggae e eu achei isso interessante e estava a gostar do que estava a fazer e deixei a cena avançar.

É interessante porque, e ainda bem que partilhaste connosco a tua playlist de Spotify do ano passado…

Pois é, partilhei! [risos]

… tem muito de dancehall, muito deste novo afro pop…

Eu partilhei por causa disso mesmo! Para dar às pessoas um bocado mais de contexto…

Sim. E todo aquele dancehall nigeriano — porque agora parece que há também uma cena importante de dancehall na Nigéria… Ou seja, é interessante perceber isso porque, quando começaste a produzir, a tua sonoridade levou-te exactamente mais para aí.

Ya, um bocado. A primeira faixa que eu produzi foi o “Heaven”. E a cena foi mesmo essa: a base daquilo, supostamente, eram uns drums de afro. Afro pop mais lento. Depois o que aconteceu foi que, tanto a sonoridade que eu dei àquilo como a maneira como eu cantei ali em cima, fez com que ficasse um pouco mais dancehall mas também r&b. E o que eu gostei foi exactamente isso: eu tentei fazer uma coisa — e é o que me acontece sempre — e acaba por sair outra diferente. Decidi assumir isso e não pensar muito nessa questão de “que género é que é”, “que género é que estás a fazer ou não” e fazer o que me apetecia… é a melhor fórmula para mim!

Mas já com um trabalho — uma mixtape ou um álbum — em mente?

Não. Eu sabia que queria fazer essa transição, percebes? Sabia que, naquele momento, já não queria fazer um álbum como o In The 876… Porque quando acabei esse álbum senti uma cena que nunca tinha sentido que foi não ouvir muito o álbum depois. Não me ficou. Não fiquei a ouvir o álbum. E então eu sabia que queria essa transição, mas não estava mesmo a pensar numa mix ou num álbum, precisamente porque estava mesmo no início, nem sequer sabia o que é que havia de fazer… A meio desse processo, quando o Lhast me apareceu com o beat do “Do You No Wrong”, é que a cena entrou um bocado em fase de estarmos a trabalhar para alguma “coisa”. Porque quando a música saiu e funcionou tão bem, eu aí consigo arrumar na minha cabeça o que é que eu queria que fosse a mistura de géneros para um próximo álbum ou mixtape. Sabia que era r&b e cenas mais de dancehall, afro, whatever… [risos]. O que lhe queiramos chamar, estás a ver?

Ficaste surpreendido? Com o “Do You No Wrong”? Porque era um risco, não é?

Ya, fiquei… Fiquei bué surpreendido. Quando a fiz senti aquela cena que tu sentes raramente que é, mostrares a todas as pessoas que estão à tua volta e toda a gente gostar. E isso normalmente não acontece. Durante o processo todo de estar a fazer a música, toda a gente estava a curtir bué a música. Mas para aí na semana antes de sair aquilo para mim já ia ser um flop gigante, estás a ver? [risos] Eu antes de lançar estava a ouvir aquilo e a pensar, “isto já foi má ideia”… Tinha feito a cena com o Nélson Freitas, também, que fui eu a obrigar-me a fazer uma coisa diferente, a saber o risco que aquilo tinha… E eu pensei “se esta não corre bem, já estou a testar um bocado demais as pessoas”. Mas quando saiu, e depois de ela bater e de eu digerir melhor e estar a ouvir, é que eu me apercebi que era mesmo isto.

Tipo cold feet antes do casamento porque sabias que estavas “preso” àquela sonoridade nova… [risos]

Eu acho que é bué aquela cena que tu sentes quando estás prestes a dar o próximo passo e tens a sensação de estar a ser puxado para trás, antes de arrancares… Eu próprio me estava a puxar um bocado para trás com esses medos de “será que o pessoal vai gostar, não vai…”. E ainda bem que arrisquei!

Depois da aceitação que as faixas que foste soltando e que Lisboa teve, apesar dos receios, não é… Ainda olhas para “Lisboa” como uma mixtape ou achas que, inevitavelmente, poderá ser vista como um álbum… [risos] É que eu acho honestamente que tu podes ter essa dúvida!

E tenho, tenho! [risos] E tive esta conversa, já não sei com quem, há pouquíssimo tempo. Eu chamei-lhe uma mix antes de termos o produto final. Porque tive de enviar o press antes da cena estar feita. Eu acho que nós entregámos o master na segunda-feira às seis da manhã. À última… [risos] Ya. E acho que acabou por ficar um álbum, na verdade! Mas eu vou chamar-lhe sempre mix porque eu acho que o álbum vai ser muito melhor do que a mixtape, portanto… A explicação era só porque aquilo não feito a pensar num álbum e foi feito num período de dois anos. Mas depois, com o Lhast e com tudo o que ele trouxe e a “Intro” e o Interlúdio que fizemos e a quantidade de coisas que nós adicionamos nas últimas duas semanas do processo, fez com quem acabasse por ficar com mais coerência até do que alguns dos meus álbuns. Ou os dois, se calhar! Por isso, sim. Podes chamar-lhe um álbum, mas eu vou para a cova a dizer que é uma mixtape! [risos]

Eu percebo. Eu própria, quando estava a ouvir, pensei, “mas porque é que isto é uma mix?” E ok. Se calhar é uma mix porque se vê que há aqui muita experimentação…

Ya, também.

…e muitas tentativas de afinar uma sonoridade, uma personalidade, seja ela qual for.

E eu acho que é isso. Diz-te mais que é uma transição do que se fosse um álbum. Que já te diz: é isto. E não é. É uma fase do processo de transição, também, eu acho.

Lisboa é um trabalho, não só em termos de sonoridade como também em termos visuais, completamente diferente do In The 876. Mais escuro, mais íntimo. Dá para perceber que é mais genuíno, até, eu diria… O que é que te aconteceu? Foi a chegada aos 30?

Ya! [Risos] Eu acho que sim! O In The 876 já foi feito em piloto automático. Foi feito depois do Focused, depois de estarmos a fazer dois anos de tour com esse álbum e esticarmos ao máximo. Talvez porque eu, já na altura, estava a sentir que eu queria mudar um bocado e eu tenha cenas assim meio dancehall feitas nessa altura que não saíram porque eram só experiências e não estavam ainda no ponto. Mas eu podia ter lançado uma coisa parecida com isto em 2013, estava inclinado para aí. E acho que aconteceram uma data de cenas, que acontecem… Desde ficarmos desanimados com a indústria e com a quantidade de coisas com que nos deparámos depois de chegarmos ao patamar a que o Focused nos levou. E o In The 876 foi feito muito de um lugar de jogar pelo seguro, estás a perceber? Nós passamos por uma fase em que mudámos de agência e foi complicada para nós e o In The 876 não foi feito como eu acho que um álbum deve ser, que é contigo focado em quereres passar uma cena ou passares uma mensagem. Foi muito em piloto automático. Eu queria fazer um álbum de reggae clássico e ainda não tinha conseguido fazer, porque para mim o Focused não o era, e acabei por fazer isso. Acho que é, sem dúvida, muito mais genuína, esta mixtape. É isso. Foram dois anos que eu demorei a fazer isto e, se calhar, nos últimos três anos mudei bué porque foi desde que eu entrei a sério no mercado e fiquei “mainstream”. Isso muda-te como pessoa. E a mim, então, que sou bué overthinking, mudou-me muito.

Ou seja, estás a dizer que se te tivesses sentido menos pressionado e tivesses tido mais tempo, provavelmente poderíamos nem ter tido um álbum de reggae clássico, teu?

Sim, muito provavelmente. Mas ainda bem que não aconteceu assim. Porque assim, olhando para trás, sei que fechei esse ciclo da melhor maneira.

O que me leva à próxima questão: mesmo em termos de conteúdos e temáticas, de que forma é que um trabalho que é feito durante 2 ou 3 anos te representa mais do que algo que fizeste em 2 ou 3 meses…

Sem dúvida. Isso ajuda ao facto da cena ser mais genuína porque eu mudei a minha maneira de escrever também. Lá está, o Focused gravei em duas vezes. Em 15 dias. Fui à Alemanha e todos os dias a gravar, bué intensivo. Estivemos horas e horas no estúdio e saíamos do estúdio para ir escrever. Eu acho que tu aí não tens… Estás a escrever mais pela obrigação de escrever mesmo do que se estiveres um mês a pensar na mesma música. E eu agora não vou voltar atrás nesse processo. Mas essa foi a razão pela qual eu fiz o estúdio, percebes? Eu queria poder estar todos os dias a trabalhar mais nas cenas do que propriamente decidir, “agora é o momento de ir para ali” e fazer. Eu li uma cena do Skepta que dizia que ele tinha feito isso. Que ele tinha chegado a um ponto, a seguir a ter lançado o álbum mais pop que ele fez, em que chegou à conclusão que nunca tinha tido um estúdio em casa. Ele depois lançou o Blacklisted e esse álbum foi como um clique no sentido em que aquilo é muito mais ele do que os outros todos eram. E eu então quis fazer desta Lisboa um bocado esse Blacklisted, percebes? A parte em que eu me tentei descobrir melhor como artista.

Não deixa de ser uma metamorfose, portanto, e todas são tão libertadoras quanto assustadoras. Teres tido o Lhast contigo neste processo foi importante para te ajudar a sair de uma eventual zona de conforto? Porque vocês vêm do mesmo sítio, não é?

Completamente. Teria sido mais difícil sem ele por duas razões: a primeira tem a ver com isso que estás a dizer. Nós vimos do mesmo sítio. O Lhast fazia parte do soundsystem do primo do Ben, que era com o Duda que é o manager dele hoje em dia, e nós crescemos nas festas de reggae juntos. Portanto, nós temos bué o mesmo leque de influências embora ele tenha uma cena do hip hop muito mais boom bap, que foi algo que, a mim não me bateu tanto. Mas, essencialmente, ouvimos as mesmas coisas. E isso deu-me a confiança de ter outra pessoa que pensa como eu, mas um bocadinho diferente, e que é tão bem sucedido no que faz, a dar o input e dizer se gosta ou não das cenas. Ou seja, deu-me tanto a cena da familiaridade como o skill dele a garantir-me que o que ele ia fazer, ia fazer bem feito, percebes? É mais por aí.

Essa segurança é importante para quando queres fazer algo diferente, claro.

Ya, mas é engraçado porque nós trabalhamos no “Do You No Wrong” só. Foi a primeira vez que trabalhámos juntos. Eu conhecia-o muito bem como pessoa mas não como produtor, necessariamente. Como ele produzia muito mais coisas que não eram para mim, nunca nos tínhamos cruzado como artista e produtor. Na verdade, quando o convidei para trabalhar na mixtape, a única experiência que eu tinha tido era essa e a de mais duas músicas em que já estávamos a trabalhar. Mas lá está, é aquela confiança de que eu já sabia que ele ia trazer mais alguma coisa. Depois descobri durante o processo que temos o mesmo gosto. A cena correu bué bem, ele adorou a mixtape toda e eu adorei tudo o que ele trouxe à mixtape. Chegou a um ponto em que eu gravava só, mandava para ele e ele metia aquilo a soar como era suposto. E eu nunca tive isso com nenhum produtor.

Isso é visível no sentido em que tu partilhas o teu sucesso com ele ao ponto de teres o nome dele na capa. Achas que isso é também um reflexo, e não só no teu trabalho, de um tempo em que os produtores são estrelas de próprio direito?

Sim, imagina: ele podia ter só feito os beats que fez e mais nada, não é? Mas pela relação pessoal que tenho com ele e como fã dele… Eu recebi o primeiro beat que ele fez na vida, percebes? E não gostei. Era um mau beat! [risos] Eu como fã, e por ter visto a evolução dele, senti bué a necessidade de o pôr no álbum e dar-lhe a visibilidade, a importância e o respeito que ele teve. No álbum não, na mixtape! [risos] E numa altura em que os produtores de todos os outros países têm bué o spotlight e já conseguem ser vistos como “artistas”, praticamente, era importante para mim contribuir para que isso também seja uma cena cá, percebes? Tendo essa oportunidade, ya, pus o nome dele e vou pôr em todo o lado que der! [risos]

Estive a ver a conversa, Bridgetown Talks, que vocês têm no YouTube e achei muito interessante uma parte em que falam de guilty pleasures. Primeiro, por achar que os guilty pleasures acabam por ter mais influência nas pessoas ou nos artistas do que poderíamos pensar, mais que não seja por ser algo que está “recalcado”. E como qualquer outra coisa recalcada, ela tem que se manifestar…

Sim, sim, não consegues shake it off tão facilmente…

E depois porque, se pensarmos um pouco, conseguimos perceber “Richie Campbell” como tendo sido, possivelmente, sinónimo de guilty pleasure em algumas fases para alguns grupos. Falo, sei lá, de faixas como “Talk Sweet”, “Break of Dawn” com Nélson Freitas, enfim, em que arriscas mais. A verdade é que tu chegas aos 31 anos e já fizeste o Campo Pequeno, vais fazer a Altice Arena, aumentaste a tua base de fãs, aumentaste a abrangência etária desses fãs, foste roubar fãs a vários géneros. No fundo, conquistaste um respeito que é transversal. Como é que tu te sentes em relação a isso?

[Risos] Isso é interessante… Eu tenho bué noção disso tudo, obviamente, percebes? Mas não me chateia ou nunca me chateou assim tanto, percebes? A única coisa que me chatearia nessa questão é se eu sentir que estou a fazer música a um nível em que as pessoas não estão a dar o devido respeito. E eu sou o primeiro a admitir que as pessoas, ou certas pessoas, possam não ter gostado de uma fase ou outra, ou de uma faixa ou outra. E eu próprio sei que há algumas faixas em que não acertei exactamente onde queria, estás a ver? No entanto, no caso do “Break of Dawn”, a minha ideia era exactamente testar isso. A definição de guilty pleasure varia bué de pessoa para pessoa… Para mim um guilty pleasure tem que ser uma cena que é mesmo má! (Risos) Não é necessariamente uma cena que tu não gostas. No caso da faixa com o Nélson Freitas, eu ouvi aquilo e pensei: “isto para mim é um grande som e para mim é dancehall. Então eu vou matar isto aqui como um som de dancehall!” A minha questão aí foi, especialmente sendo um artista de reggae que ia cantar kizomba, saber que ia ter algumas pessoas que iam ter esse preconceito. Erradamente. Eu, se calhar, tenho mais tolerância para guilty pleasures e coisas “mais fora” do que o comum das pessoas. O meu objectivo foi mesmo testar esse preconceito porque eu considero aquela faixa muito bem feita e nunca punha essa num patamar de guilty pleasure… Mas ya, eu curtia bué Sisqo! Sou um bocado suspeito. [Risos] Eu curto cenas cheesy! Luther Vandross é bué cheesy e eu curto bué… Portanto, essa conversa do guilty pleasure é complicada porque há parte de mim que é… guilty!

 


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Mas, lá está: eu, por exemplo, não vejo um guilty pleasure como tendo que ser algo obrigatoriamente mau. Pelo contrário. Identifico como sendo algo que te faz sentir “culpado” porque, sei lá, pode falar de sentimentos ou relacionamentos e “puxar ao coração” e para alguns destes novos fãs ou grupos, que tu acabaste por conquistar, são assuntos que mostram vulnerabilidade, entendes? Olha para o hip hop, por exemplo. Ninguém é vulnerável ou gosta de mostrar que é. Isso só começa a ser mais visto agora.

Ya, ya, sem dúvida! A cena depois tem bué a ver com o tipo de pessoa que tu és ou não. Eu venho de uma escola em que não há, sei lá… Os jamaicanos são os gajos com mais potencial para serem mega cheesy de vez em quando. Só que não o vêem dessa forma, percebes? A cena do rap para mim sempre foi uma coisa um bocado distante, especialmente a atitude. A atitude de alguns fãs mais acérrimos de rap sempre foi uma cena que nunca me disse grande coisa porque sempre foi aquela coisa de “sou bué tough” e eu não me revejo nada com isso, estás a ver? O Vybz Kartel, que é o meu artista preferido, tanto tem um som que é a cena mais agressiva e mais real do mundo como depois faz uma lovesong com todos os clichés. E eu vejo isso de uma forma completamente diferente como, se calhar, um português que ouve rap ou tem outra escola vê. Eu acho que é isso. A minha noção de artista é bué diferente daquilo que o pessoal em Portugal muitas vezes pensa, se calhar… E eu sofro um bocado com isso. Até os videoclipes de antigamente, dos jamaicanos eu curtia bué, mostrava aos meus amigos e eles diziam-me: “o que é isto, dread? Isto é horrível!” E eu: “Não, puto! Não estás a perceber, tu não estás mesmo dentro da cena!” E eu acho que aí é um lado meu que eu tenho que ter cuidado porque às vezes eu faço música como um jamaicano para um jamaicano. É o que eu ouço!

É inevitável também olharmos para Lisboa como sendo uma mixtape em que se percebem influências deste novo r&b e em que se incluem Drake ou todo o estilo da OVO. Como é que tu vês isso? As comparações incomodam-te? Não te incomodam?

Não. Da mesma forma que não me incomodava no reggae as comparações com alguns artistas que eu gostava. Isso não me incomoda… Só me incomodará no dia em que alguém ouvir o trabalho todo e fique com essa opinião. Se ouvires a mixtape toda e me disseres que é Drake, isso incomoda-me, claro, porque alguma coisa se passa. Agora se ouvires o “Water” e me disseres que a sonoridade está bué lá, o meio rimar meio cantar, sim. Isso tem toda a lógica! Acho que tem a sua singularidade, senão não o faria mas, como fã de Drake e de PartyNextDoor, especialmente até, não me chateia.

Em algumas letras, muitas partes de Lisboa, tu falas em seres quem tu és, fazeres aquilo que tu tens que fazer, como tu és…

Ya, ya… [Risos]

… e ao mesmo tempo na questão de não quereres desapontar os teus fãs. Tiveste esse receio ou pensaste muito nisso?

Não, necessariamente. Quer dizer, obviamente que pensei porque coloquei isso lá e falo disso nos interlúdios e nas letras. [Risos] Mas é mais porque, por ter a certeza que o caminho era esse e que para ficar satisfeito e chegar aos meus objectivos, essa era a única forma de o fazer. Sabia era das implicações que isso ia ter, percebes? E eu já estava a antecipar isso há bué tempo. Eu já tinha começado a fazer experiências há imenso tempo. Eu sabia que isso ia acontecer e há uma parte de mim que acha que os artistas têm que ter respeito pelas pessoas que os puseram na posição em que eles estão. Incomoda-me a cena de alguém poder achar, tipo, eu comprei um artista de reggae e agora ele virou e revelou-se! Mas, ao mesmo tempo, para que possas ser verdadeiramente sincero para com essas pessoas que apostaram em ti, tu tens que ser tu. Porque se continuares a ser aquilo que os teus fãs acham que tu és, eventualmente vais falhar. Por isso, eu pesei as duas cenas e disse: mil vezes perder alguns fãs, desapontar algumas pessoas, do que estar a sacrificar a minha “dignidade”, estás a ver? [Risos]

Mas será que os perdeste mesmo? Ou seja, os teus fãs que estavam habituados a um Richie Campbell mais reggae ou dancehall… achas que os perdeste?

Não. Eu acho que no final de contas… Mas agora é fácil! [Risos] Acho que, no final de contas, o que eu percebi foi que a grande maioria das pessoas compreendeu e quem conhecia o trabalho mesmo a fundo não estranha assim tanto. Quem é mesmo fã conhece as primeiras cenas. O My Path tem tudo e mais alguma coisa de r&b, portanto, na verdade, o que aconteceu foi que acho que não perdi assim tanta gente… Mas já apanhei pessoal que me disse: “Puto, gostava mais do que fazias antes!” Mas desde que seja essa a atitude e não de “vendeste-te”, percebes? Com essa ficaria chateado porque não é verdade. Mas se me disseres que agora já não temos nada a ver um com o outro, ‘tá-se bem, amigos como dantes! Os álbuns estão no Spotify, estás a ver? É isso. [Risos]

Em termos de participações, como é que foi trabalhar com o Slow J? Era alguém que já tinhas em mente ou surgiu assim de um dia para o outro?

Não, não… O Slow J surgiu mesmo assim de repente! Eu fiz a base dessa música, a ideia do “Water”, e coincidiu na altura em que eu fui jantar pela primeira vez com ele e com o Lhast. Eles já se conhecem há bué tempo. Eu não o conhecia. Fomos jantar e depois fomos para o estúdio ouvir umas cenas e eu meti isso a tocar e ele foi a única pessoa que reagiu à música! E ela já estava feita há uns 15 dias e ninguém me tinha dado moral quando eu mostrava a música! [Risos] Para já, gostei logo muito dele, da pessoa que ele é, e achei que foi a altura certa. O beat não estava feito, o Lhast estava ali, eu precisava de uma participação naquilo e já estava a pensar noutra. E ele estava ali. A cena aconteceu assim e ainda bem que aconteceu porque o processo foi dos processos mais reais do ponto de vista de fazer música que eu tive até hoje.

Não tenho isso tão presente, agora, mas acho que foi a primeira participação que tiveste com alguém a cantar em português?

Tenho uma cena com o Dengaz, mas sim, é diferente. Eu tenho um bocado de medo dessa cena do português e do inglês, às vezes. Mas nesse caso o processo foi tão natural que nem pensámos mesmo nisso, percebes? E esse processo mudou bué a minha maneira de ver participações. Se calhar, há participações que eu já fiz que não teria feito se soubesse o que sei agora e daqui para a frente vou fazer mais participações com base na relação em si e menos na música.

Em Novembro, nas Bridgetown Talks, tu lamentavas o facto de ainda nunca teres conseguido encontrar o entrosamento certo para ti e para o Plutónio colaborarem numa faixa e, um mês depois, lanças a mix e lá esta uma faixa com o Plutónio. A experiência com o Slow J deu-te esse empurrão?

Eu não diria que foi isso porque, imagina, eu estou em tantas faixas do Plutónio e ele está em tantas músicas minhas sem ser participação. Eu já fiz melodias nas músicas dele, ele já fez nas minhas. É talvez a pessoa, nos últimos dois anos, com quem eu passei mais tempo em estúdio. Ou fora de estúdio a ter ideias. Aliás, o “Última Vez” tem lá uma parte numa bridge em que a voz é minha e nós já estávamos a trabalhar há imenso tempo. O que desbloqueou mais, no entanto, foi termos encontrado a nossa sonoridade, eu acho. Eu pensava, “eu vou fazer um r&b com o Plutónio? Esquisito”. E era mais o tema e a sonoridade, percebes, em que a cena se ia encaixar melhor. Não tanto o português e o inglês, por acaso. Aí nós já estávamos preparados porque sabíamos que queríamos trabalhar juntos mas nunca tínhamos encontrado esse caminho e, ya, acabou por correr bem.

Apesar de eu achar que possa não ter sido pensado, tens muitos pontos na mix que tocam nas diferentes realidades que existem em Lisboa: na faixa “Rio” pegas no Brasil, depois tocas em Cabo Verde… Essa mistura que existe, e que faz parte da cultura da cidade, foi pensada? Ou não?

O “Rio” não foi, não… E ya, não foi pensado mas se tu pensares bem torna a cena mais honesta ainda porque o Rafa samplou uma guitarra brasileira, chegou aqui e disse-me que o tinha feito e eu fiz a música com essa cena em mente. Eu comecei logo por fazer aquela melodia clássica do “Mas Que Nada” e, na verdade, fizemos isso porque existe influência brasileira na nossa realidade… Não foi a cena de “bora fazer uma cena brasileira para x”. E isso aí torna a cena ainda mais genuína. É exactamente a minha justificação para a mixtape se chamar Lisboa. É a única cidade onde eu podia ter feito uma mixtape assim com todas estas influências diferentes, onde tu és impactado por tudo isto. A mãe do Rafa é brasileira, percebes? Essas coisas acontecem assim.

Altice Arena está quase. Como é que te sentes? Estás cheio de medo? [Risos]

Não… Já estive! Já estive! Já estive cheio de medo e agora já não estou. A cena está a correr muito bem, vamos chegar ao que era o meu objectivo, em princípio. Estou bué entusiasmado porque tinha algum medo de fazer nesta altura, principalmente por causa da transição. E foi antes da mixtape sair que nós tomámos esta decisão, por isso, eu ainda estava com medo de… Se isto não correr bem, aquilo pode não correr bem! Felizmente, as duas cenas estão a correr bem, por isso estou muito entusiasmado porque é a melhor maneira de solidificar essa ideia na cabeça das pessoas. Embora vá tocar, obviamente, cenas da minha carreira toda, o foco especial vai ser na nova fase.

E depois disto?

Já estamos a trabalhar aí numas cenas com o pessoal da Bridgetown, tanto com o Mishlawi como com o Plutónio ou com o Dengaz. Queremos fazer mais coisas. Com o Dadda, também. Mas paralelamente a isso quero começar a trabalhar num álbum, de certeza com a ajuda do Lhast, porque acho que só no fim desta mixtape, quando ela ficou terminada, é que nós percebemos que poderíamos continuar a trabalhar durante mais uns meses e isso deu-me alguma pica para fazer isto em bem! Eu acho acho que está bem feito, mas eu acho sempre que consigo fazer melhor ainda.

 


Núria Rito Pinto

Núria Rito Pinto

Hip hop, r&b e brasilidades com tanta moderação quanto vontade. Fundou o clube de fãs da “Corda” do Boss AC, já comprou CDs pela capa e preferia comer douradinhos frios todos os dias do que ficar sem Spotify.
Núria Rito Pinto